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A esquerda brasileira e a opção
pela guerrilha

Jerônimo
Castro, de São Paulo
Em 1º de abril de 1964 abriu-se uma nova etapa na luta de
classes no Brasil. O exército brasileiro através de um golpe
militar derrubou o governo legalmente constituído de João
Goulart, o Jango e inicio uma profunda contra-revolução no
país. Os principais partidos da esquerda naquele momento,
PCB e PTB , eram parte deste governo, naquilo que foi uma
experiência frente populista no país, e ao não gestarem alternativas
ao governo Goulart, muito pelo contrario, foram sua ala esquerda,
arrastando a classe trabalhadora junto na derrota do governo
e do regime democrático burguês.
A derrota acachapante e praticamente sem lutas que foi vítima
a classe trabalhadora no Brasil levou sua vanguarda organizada
em sindicatos, partidos, movimentos popular e estudantil a
um profundo balanço.
O PCB até então hegemônico na esquerda marxista brasileira
e totalmente alinhado a Moscou, começaria a sofrer defecções
e rupturas em seu interior e veria surgir uma série de organizações
inspiradas em seus quadros que rompiam com sua estrutura orgânica
e linha política e também o surgimento de uma constelação
de organizações por fora do que até aquele momento fora seu
espaço.
Em menor medida, também o PTB sofreria depurações e rupturas
que levariam ao surgimento desta "nova" esquerda brasileira.
A partir daí, junto com o PCB de orientação "moscovita" surgiriam
organizações maoistas, castro-guevaristas, trotskistas (de
várias tendências), luxemburguistas e a reivindicação de teóricos
e exemplos como os de Frants Fannon e Ho Chi Min.
A teoria da via pacífica para o socialismo, do caráter democrático
do exército brasileiro e da existência de uma burguesia nacional
independente e contraposta ao imperialismo que era a base
para a política de conciliação de classe do PCB desabou e
seus quadros mais honestos e capazes foram obrigados a buscar
uma resposta para os novos desafios que surgiam por fora dos
escombros políticos, ideológicos e organizativos do velho
partidão.
A revolução Cubana
A revolução cubana foi um tapa na cara do estalinismo latino-americano.
Sua vitória se deu, não só sem a participação efetiva dos
PC's latino-americanos, como se deu contra a política oficial
dos PC's, a começar pelo soviético.
Neste sentido, a revolução cubana era herética e progressiva.
Demonstrava que era possível fazer revoluções na América Latina
e que tal possibilidade estava na ordem do dia. Ao se dar
por fora do aparato estalinista, ela gerou profunda simpatia
em todos aqueles que comunistas, não comungavam com a degeneração
que Stalin e seus seguidores impuseram ao marxismo-leninismo.
Ademais, a revolução cubana fora dirigida por um grupo de
jovens barbudos, cabeludos e bastante simpáticos que logo
seriam assimilados pela iconografia dos anos 60. Quando veio
a crise do PC brasileiro, imediatamente um setor das dissidências
do PC olhou para Cuba e sua revolução e aderiram a ela.
O caso mais clássico é o de Carlos Marighela que foi um notório
dirigente do PC desde os anos 30, tendo sido "caçador de trotskistas"
em São Paulo, deputado, dirigente da fração parlamentar do
PC, dizem que quando leu os relatórios de Kruschev teve uma
crise de choro de 3 dias. Em maio de 1964, após o golpe militar,
foi baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema
no Rio. Libertado em 1965 por decisão judicial, no ano seguinte
opta pela luta armada contra a ditadura, participa no final
de 1967 da fundação da OLAS (Organização Latino Americana
de Solidariedade) em Cuba, onde se encontrava quando foi anunciada
a morte de Che Guevara. Por esses dias foi expulso do partido
e em fevereiro de 1968 funda o grupo armado Ação Libertadora
Nacional. Em setembro de 1969, apóia o seqüestro, no Rio,
do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em uma ação
conjunta da ALN e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro
(MR-8).
Esse, como dissemos é o caso mais expressivo, pela notoriedade
e pela profundidade da crise que viveu o importante dirigente
do PC. Mas não é o único, é por assim dizer o símbolo de uma
geração.
O problema, é que junto com a crítica ao estalinismo, as correntes
castro-guevaristas fizeram uma profunda revisão do marxismo-leninismo
e dois aspectos basilares foram questionados e postos de lado:
1 - A centralidade da classe operária para a revolução;
2 - A necessidade de um partido nos moldes leninistas para
dirigir a revolução.
Assim os aspectos amplamente progressivos dos "cubanos" ao
estalinismo (bem entendido antes deles mesmo se estalinizarem),
aspectos esses que vinham mais de sua prática do que de uma
teoria, seriam engolidos por uma nova teoria que atacava as
bases mesmo da teoria marxista. Estes aspectos negativos por
assim dizer, da revolução cubana seriam assimilados de maneira
mais ou menos acritica pelo grosso das dissidências brasileiras,
bem como por uma importante vanguarda latino americana. Em
um sentido, as conclusões equivocadas da revolução cubana
esterilizaram as progressivas rupturas de quadros e militantes
com o PC e com o estalinismo.
O complexo ano de 1968
O ano de 1968 é não só um ano crítico é um ano dividido entre
vitórias e derrotas para as forças que se enfrentaram com
a ditadura. Em 16 de abril de 1968, eclodiu a greve de ocupação
na siderúrgica da Belgo Mineira (1.200 trabalhadores) em Contagem/MG,
que foi vitoriosa, com o governo assinando um decreto concedendo
10% de aumento. A vitória em Contagem encorajou Osasco. Em
16 de junho de 1968 iniciou-se uma greve com a ocupação da
Cobrasma (autopeças com 10 mil operários), expandindo-se para
a Braseixos, Barreto Keller, Granada, Lona Flex e Brow Boveri.
A greve foi decretada ilegal e o sindicato caiu sob intervenção.
Forças militares controlaram as saídas da cidade e as fábricas
foram invadidas. A greve foi derrotada em seu quarto dia.
No mês outubro, os metalúrgicos de Contagem se levantaram
novamente contra o arrocho, mas dessa vez a repressão foi
violenta. A greve foi derrotada e o sindicato ficou sob intervenção.
Já no movimento estudantil, após uma série de atos e lutas
parciais, explode em 26 de junho uma enorme manifestação,
o ato dos 100 mil, na Av. Rio Branco, no centro do Rio de
Janeiro contra a ditadura militar. Com participação de intelectuais,
artistas e ativistas políticos, a passeata ocorreu em protesto
ao recentes atos de repressão contra estudantes e reivindicava
o fim da ditadura e a redemocratização do país. O evento não
foi reprimido pelos policiais e foi viabilizado depois de
muita negociação entre um grupo de intelectuais e artistas
e os militares. Foi dedicado à memória do estudante Edson
Luís, morto três meses antes. É o ápice do ascenso estudantil,
que se enfrenta vitoriosamente com a ditadura militar.
É como se existissem dois mundos, quem militava no movimento
operário via um gigantesco refluxo pela frente, quem militava
no movimento estudantil tinha certeza de que se tratava de
um ascenso revolucionário e que a queda da ditadura era questão
de dias.
Estas visões tão divididas da realidade, que se apoiavam nos
fatos concretos de que o movimento operário realmente estava
derrotado e de que o movimento estudantil vivia um ascenso,
que logo seria isolado e atacado pela ditadura, levou a visões
de luta política, de etapa da luta de classes, de correlação
de força e de método organizativo e de lutas contrapostos.
A vanguarda estudantil e os quadros oriundos das rupturas
do PC começariam a gestar as experiências guerrilheiras no
Brasil. E a confluência desses vários fatores levariam a que
toda uma geração de ativistas brasileiros fizessem a opção
pela "luta armada" e tentassem aplicar no Brasil, muitas vezes
de maneira mecânica e reducionistas, os ensinamentos de Mao
Tse Tung, Che Guevara, Ho Chi Min e outros teóricos da guerrilha
e passassem por auto tanto o que havia de especifico nestes
teóricos, quanto os erros de apreciação embutidos nas sua
teorias.
Os que quiseram assaltar os céus
Diante deste caldeirão de tensões e tendências, já nas manifestações
estudantis começaram a surgir as diferenças que dividiria
essa "nova" esquerda, nova no sentido de ter rompido com o
velho PCB em duas tendências. A dos que acreditavam que o
povo organizado derrubaria a ditadura, e uma outra que dizia
o povo armado derrubaria a ditadura.
Dito assim, como era gritado nas ruas pelas diferentes vertentes
do movimento aparece como algo reducionista, mas na verdade
o que se estava discutindo era o balanço geral dos anos 60
e, por conseguinte, o balanço da estratégia revolucionária
da esquerda marxista.
Este balanço, que começou a ser desenvolvido com a queda de
Jango e o início da ditadura, significou a morte do PCB como
partido hegemônico da classe trabalhadora e a crise do nacionalismo
burguês radical da ala esquerda do PTB . E, em que pese não
ter sido a única opção feita pela esquerda e talvez nem a
majoritária, um setor importante dessa esquerda passou a luta
armada.
Com maiores ou menores ênfases estas organizações encaravam
a guerrilha rural como o modo correto de desenvolver a luta
contra a ditadura e o capitalismo. Para todas estas organizações
a guerrilha urbana era só um momento, de acumulo de quadros,
armas dinheiro e experiência para a tarefa central, organizar
a guerrilha rural.
A partir de 1967, em um movimento ascendente cujo ápice foi
o seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick em 1969,
a guerrilha urbana se desenvolveu em número e ações. Assaltos
a bancos, justiçamentos e propaganda armada marcaram as ações
dos diversos grupos guerrilheiros no país. De todos, apenas
o PCdoB, que praticamente não fez guerrilha urbana, chegou
a implantar uma guerrilha rural que ficou conhecida como a
guerrilha do Araguaia.
Mas após o seqüestro do embaixador americano, que começou
no dia 4 de setembro de 1969, a ditadura ganhou novo fôlego
e as organizações da esquerda armada não estavam preparadas
para o que viria. Dois meses depois, em 4 de novembro de 1969,
Carlos Marighela, o principal dirigente da organização guerrilheira
ALN, foi destroçado a balas na Alameda Casa Branca, em São
Paulo. A guerrilha entrava, sem saber, no seu ocaso.
Nos anos seguintes, em que pese organizações guerrilheiras
terem seqüestrado outros dois embaixadores e um cônsul e terem
tentado instalar várias guerrilhas rurais, cuja mais perene
foi a do PCdoB no Araguaia, era a derrota e a morte que esperava
a cada esquina. O balanço da chamada esquerda armada é neste
sentido inequívoco, embora o indiscutível heroísmo dessa geração,
o espírito de sacrifício e abnegação que ia até a morte, seu
projeto político e seus métodos fracassaram.
As inspirações positivas que vieram da revolução cubana, em
especial a ruptura com as crenças pacifistas dos PC, trouxeram
no seu bojo um elemento que, ao não ser devidamente combatido
levou a morte milhares de ativistas honestos no Brasil e na
América Latina. Um voluntarismo levado até as últimas conseqüências
e que negava a necessidade do partido e, em última análise,
das massas para fazer ou pelo menos para iniciar a revolução.
Era a vontade heróica dos guerrilheiros que garantiria o triunfo
da revolução. Essa visão estava errada, fracassou, foi um
fracasso heróico e é importante, inclusive por isso, aprender
com esses erros.
Para além disso, a guerrilha jamais gestou de fato uma alternativa
à esquerda existente. Foi mais uma proposta organizativa e
tática que uma re-análise política e estratégica. Os grupos
que fizeram a dita "opção pela luta armada" iam a esta opção
com as mesmas concepções anteriores, só que acrescentando
que seus objetivos só poderiam ser alcançados por meio da
guerra revolucionaria.
Conclusões
Todas as guerrilhas, ou pelo menos uma boa parte delas, foram
movidas por um certo voluntarismo de seus dirigentes. O voluntarismo,
aliás, foi para muito deles elevado a categoria de ideologia,
em frases mais ou menos de efeito que diziam coisas como "para
fazer uma revolução é necessário três coisas, meter chumbo,
meter chumbo e meter chumbo" ou que "não é necessário que
as condições objetivas estejam madura para iniciar a revolução,
um grupo de homens armados e dispostos podem aceleram o seu
amadurecimento". No entanto, o surgimento da guerrilha no
Brasil não se explica apenas por esse elemento, e foi isso
que tentei demonstrar neste artigo.
A guerrilha no Brasil se explica porque:
1 - Houve um governo de características frente populistas
no Brasil que não conseguiu derrotar o forte ascenso da classe
trabalhadora brasileira
2 - Após a derrota desse governo de características frente
populistas por um golpe militar e da principal organização
de esquerda, o PCB, não conseguir prever o golpe nem fazer
nada para impedi-lo um setor de quadros e militantes começaram
a questionar a capacidade dessa organização de dirigir a classe
trabalhadora e a revolução Brasileira.
3 - Surgiu paralelo a crise que se abriu na esquerda brasileira
uma alternativa de direção revolucionária e inclusive de "modelo"
de revolução. A revolução cubana que encantou e ganhou todo
um setor dos quadros que questionavam o PCB
4 - O ano de 1968 separou tragicamente a vanguarda estudantil
que acreditava ser necessário seguir adiante, em função das
vitórias que o Movimento estudantil obtivera naquele ano e
a vanguarda operaria quer acreditava ser necessário recuar,
em razão de suas derrotas. Seria o encontro dessa vanguarda
estudantil com os quadros em ruptura com o velho PCB que dariam
origem as organizações guerrilheiras no Brasil
5 - O processo de crítica ao PCB e de assimilação das lições
da revolução cubana se deu em um marco geral de dispersão
de quadros e refluxo na luta de classe o que impediu o surgimento
de um partido que sintetizasse as principais experiências
daquele período e a partir daí respondesse aos desafios que
a ditadura militar lançava.
6 - É impossível deixar de ver que os erros cometidos pela
guerrilha levaram a que toda uma geração morresse. E que somente
mais de 10 anos depois de seu surgimento é que foi possível
responder ao fim da hegemonia do PCB e do PTB na classe trabalhadora
brasileira com a abertura do ciclo PT - CUT.
7 - A ausência de uma profunda critica do PCB levou com que
muitos dos sobreviventes da guerrilha uma vez abandonada essa
opção, voltasse a defender mais ou menos as mesmas coisas
do velho PCB, a saber: a aliança com uma suposta burguesia
nacional progressista, a via pacifica e gradual ao socialismo
a defesa da democracia burguesa.
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O 1º de Abril de 1964: o governo Jango e o golpe
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