Novos ventos ao sul dos EUA

Como pano de fundo das eleições está a crescente insatisfação popular contra anos de neoliberalismo. Uma prova disso é a heróica greve de professores de Oxaca, que já dura meses. Recentemente os grevistas foram vítimas de uma brutal repressão do governo federal, quando policiais reprimiram um protesto matando três professores, uma criança e deixando inúmeros feridos.

A polarização eleitoral mexicana reflete, de forma distorcida, o esgotamento do modelo neoliberal na América Latina e o sentimento de mudança por que clamam os povos do continente. É o que explica a onda de governos com verniz de esquerda pelo continente que, uma vez eleitos, traem a população e governam para os ricos e para o imperialismo.

O caso mexicano não é muito diferente. Embora tenha sido uma eleição bastante disputada, as polêmicas entre os dois principais candidatos à Presidência escondiam, de fato, que entre eles há mais acordos do que diferenças.
Com 107 milhões de habitantes e uma economia quase do tamanho da brasileira, o México é o país mais importante da América Latina, depois do Brasil. Também possui uma das principais reservas de petróleo do mundo, dada como garantia do pagamento da dívida externa do país.

Ao longo das décadas de 80 e 90, o México foi submetido aos planos neoliberais impostos pelos EUA e aplicados pelos sucessivos governos do PRI. Nesse período foi privatizada a grande maioria das estatais e foi liquidada a reforma agrária, conquistada na revolução de 1910.

Com a implementação do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), em 1994, houve uma explosão da miséria. Hoje cerca de 45% da população vive na pobreza. O Nafta devastou a economia mexicana, tornando-a extremamente dependente dos EUA. Cerca de 85% das exportações do país vão para o vizinho do norte.
O acordo também permitiu a instalação das maquiladoras, indústrias manufatureiras que importam os insumos industriais e exportam o produto final para os países centrais do capitalismo. Seus trabalhadores recebem salários miseráveis e não possuem direitos trabalhistas.

Envolvimento em assassinatos, tráfico de drogas e corrupção fizeram com que o PRI deixasse de ser uma “opção confiável” ao imperialismo e à burguesia mexicana. O ex-presidente Salinas de Gortari, por exemplo, que atacou os rebeldes zapatistas de Chiapas com ferocidade e negociou o Nafta, teve que fugir para os EUA com malas cheias de dólares. O resultado foi que o PRI nessas eleições amargou um minguado terceiro lugar.

Entretanto, o fim da “ditadura civil” do PRI não mudou a situação do país. Em 2000, o ex-executivo da Coca-Cola Vicente Fox, do PAN, foi eleito presidente. Desde então fez um governo “de empresários para empresário”, como o próprio Fox disse, e defendeu as políticas de livre comércio, como a Alca.

Felipe Calderón, ex-ministro de Fox, representou nas eleições a continuidade do atual governo. Como presidente tentará radicalizar o neoliberalismo e o livre comércio no país. Por isso, Calderón contou também com o apoio de Washington, e foi considerado a opção “mais segura” do imperialismo.

Candidatos dos ‘pobres’
Obrador, por sua vez, tentou capitalizar a insatisfação da população mais empobrecida e insatisfeita. Adotou como lema de campanha: “Pelo bem do México, primeiro os pobres”. Entre 2000 e 2005, Obrador administrou a Cidade do México, maior cidade das Américas. Nesse período criou uma série de programas sociais compensatórios, como o de distribuição de remédios. Também se aproximou de Carlos Slim, magnata dono da Telmex (e sócio da Embratel), e o terceiro homem mais rico do mundo.

Obrador, na sua campanha, fez um discurso de “esquerda”, criticando duramente Fox e seu governo corrupto. Tentou assim se apresentar como o portador da “mudança”. Mas seria um erro acreditar que Obrador defendia um programa nacionalista como o do general Lázaro Cárdenas, presidente que nacionalizou o petróleo nos anos 30.
Ao longo na campanha, Obrador deu provas suficientes de que não pretendia realizar nenhuma “ruptura” com o modelo neoliberal.

Não se opôs às políticas de livre comércio e defendeu a Alca e “seus benefícios” no seu programa de “50 Compromissos”.

Respondendo se seu eventual governo provocaria alguma mudança na economia, ele disse: “Não vamos atuar de maneira irresponsável, não vamos provocar nenhuma crise” – e completou – “em poucas palavras, haverá um manejo técnico, não ideológico da economia”.
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