Nove meses de sofrimento e resistência em Goiânia

Em fevereiro deste ano, Pedro Nascimento Silva e Wagner da Silva Moreira foram mortos pela polícia de Goiás, em uma violenta ação que despejou mais de 3 mil famílias da Ocupação Sonho Real, no Setor Parque Oeste Industrial. Depois de despejados, os sem-teto ficaram alguns meses em ginásios e agora estão acampados em um terreno provisório. Nestes nove meses, outras 12 pessoas morreram, em sua maioria crianças e idosos

Durante o dia, sob as barracas de lona, o calor é insuportável. Debaixo delas, resistem cerca de 1.200 famílias, a espera de uma solução. Agora que a chuva chegou com força, a maioria dos barracos vive desabando e, a cada tempestade, é preciso erguê-los novamente. Só em uma única semana, a chuva forte danificou cerca de 450 barracos.

As condições miseráveis no setor Grajaú, em Goiânia, impressionam. Esgoto a céu aberto, animais peçonhentos, muitas pessoas doentes, com casos de meningite, hepatite e de tuberculose. Nesta situação, estão 700 crianças, de até 5 anos, sendo que 80 já sofreram ou estão sofrendo com desnutrição e desidratação. Um bebê de nove meses, que nasceu pouco antes da ação da polícia, faleceu no fim do mês passado, em decorrência das péssimas condições em que vivia, com os pais e sete irmãos.

Caminhando pelo acampamento, a impressão que se tem é a de que o prefeito Íris Resende (PMDB) e o governador Marconi Perillo (PSDB) instalaram ali um sinistro jogo de vida e morte, oferecendo aos sem-teto a possibilidade de desistir ou simplesmente sucumbir diante das doenças.

Pela metade
Só agora, depois de toda esta espera, os dois governos estão comprando um terreno definitivo para alojar os sem-teto, que perderam todos os seus pertences com a “Operação Triunfo”, da PM goiana. Ainda assim, só autorizam o assentamento de 1.900 famílias, e, somando as que estão nas barracas de lona e as que esperam de favor na casa de amigos e parentes, o número total chega a 3 mil famílias.

Os dois governantes agem a favor dos latifundiários da soja, que expulsam a população para as grandes cidades, e dos especuladores do mercado imobiliário, que sobrevivem como parasitas do crescimento desordenado. Os dois negam-se a discutir com o movimento dos sem-teto uma solução que atenda o conjunto das famílias.

Repressão
No dia 26 de outubro, pouco antes da divulgação da lista com as famílias que seriam atendidas, foram presos dois sem-teto, Josuel Pereira Feitosa e Américo Novaes. Os dois são acusados de “coagirem testemunhas” nas investigações sobre os tiros que acertaram um policial, durante a desocupação. Novaes, o principal dirigente da ocupação, foi preso quando levava sua filha para a escola e foi libertado depois de uma intensa campanha de solidariedade. Enquanto isso, as investigações sobre a enorme repressão policial, que assassinou dois jovens, deixou um sem-teto paraplégico e deteve 800 pessoas, simplesmente não avançam.

Post author Gibran Jordão, de Goiânia (GO)
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