Novas lutas começam a polarizar o país

O segundo mandato de Lula está apenas começando, mas bem diferente do primeiro. Não estamos nos referindo à longa lista de escândalos de corrupção. Neste terreno, pouca coisa mudou, a não ser a quantidade maior de casos e de dinheiro envolvido.

O que realmente começa a mudar tem a ver com as lutas do movimento sindical, estudantil e popular. Três fatos marcam essa nova realidade: o dia nacional de lutas de 23 de maio, a ocupação e greve vitoriosa da USP e a mobilização dos controladores do vôo.

O dia 23 mobilizou 1,5 milhão de trabalhadores na maior mobilização do país em muitos anos. Na sua direção estavam a Conlutas, o MST e a Intersindical. Um dado político completamente novo, com a ascensão da Conlutas como articuladora da mobilização. Outro elemento fundamental: o MST se descola do governo, ainda que sem romper com ele, e está sendo parte da construção deste plano de lutas. A CUT, central chapa-branca, foi amplamente derrotada, não conseguindo evitar a mobilização nem desviá-la para um apoio ao governo.

A ocupação vitoriosa da USP marca o nascimento de um novo patamar do movimento estudantil. A mobilização utilizou um método de luta avançado e radicalizado, com a ocupação de uma reitoria, que logo se estendeu a várias universidades do país. Conseguiu uma vitória política sobre o governo Serra, como há muitos anos o movimento estudantil não via. Realizou uma plenária estadual e um encontro nacional que ampliaram a reorganização do movimento para todo o país. Na direção da mobilização, mais uma derrota do governismo: a UNE esteve ausente e foi amplamente repudiada na USP. A Conlute, que defende a construção de uma nova entidade estudantil por fora da UNE, foi uma das principais direções da mobilização na USP.

A mobilização dos controladores de vôo rompe com a hierarquia militar ao se chocar com um dos pilares do regime e do Estado. Só o fato de estar ocorrendo indica que algo profundo se passa no movimento.

Além desses exemplos, dezenas de mobilizações ocorreram ou estão em curso no país. No funcionalismo federal, a greve dos técnico-administrativos das universidades expressa uma disposição de luta incomum. Na Philips de São José dos Campos (SP), os trabalhadores estão controlando a produção em uma experiência muito importante na luta por seus empregos. Em praticamente todo o país muitas greves e mobilizações populares estão ocorrendo.

O governo e a oposição burguesa estão enroscados em novos e novos escândalos de corrupção. Um desgaste lento vai tomando conta das instituições novamente. Não se trata de uma crise aguda como a de 2005, mas da retomada de um desgaste lento, porém profundo, do Congresso e da Justiça. Por enquanto Lula vai escapando, mas também sai respingado.

Existe um ascenso das lutas no país. Uma fase que dá seus primeiros passos, consegue suas primeiras vitórias (como a da USP) e conquista um grau de unidade que não existia no primeiro mandato de Lula. E vai também incorporando métodos de luta mais radicalizados – como as ocupações das reitorias e do Cindacta, na primeira greve dos controladores –, reivindicações ofensivas e não só defensivas.

O governo e a burguesia reagem numa escalada repressiva para enfrentar o ascenso. Nesse sentido, um fato merece ser destacado e marcado a ferro e fogo na consciência dos ativistas e dos setores mais combativos e esclarecidos do movimento sindical, estudantil e popular: Lula chamou as Forças Armadas para reprimir uma greve. Apoiou-se na cúpula da Aeronáutica para mandar prender os controladores de vôo. Já tínhamos visto inúmeras vezes prefeituras e governos estaduais do PT fazerem o mesmo, mandando a polícia reprimir piquetes de greves. Mas Lula vinha se preservando de uma ação como essa.

Não foi um fato isolado. O governo tentou cortar o ponto dos funcionários do Ibama e do Incra e apresentou um projeto de regulamentação das greves, o que na prática significa uma proibição das mesmas. A polícia invadiu o campus da Unesp de Araraquara (SP) para reprimir uma ocupação estudantil. A Volkswagen havia demitido Rogerinho e a Prefeitura de Maringá (PR) havia despedido 28 dirigentes sindicais, mas essas manobras que foram depois derrotadas.

A repressão de Lula e da Aeronáutica aos controladores de vôo é símbolo da reação autoritária ao ascenso. Uma tentativa de retomar o controle que está sendo perdido com o enfraquecimento da CUT e da UNE. O governo quer reprimir para poder impor a reforma da Previdência no segundo semestre.

É preciso rodear as lutas em curso para que haja vitórias como as da USP. O movimento como um todo deve reagir para defender os controladores e apoiar sua luta. E apostar na unificação das lutas, com o plano de mobilização acertado entre Conlutas, MST e Intersindical. Entre as atividades estão um ato no dia 13 de julho (na abertura dos Jogos Pan-americanos, no Rio de Janeiro) e uma grande marcha a Brasília no segundo semestre, contra a reforma da Previdência e o plano econômico do governo.

É possível lutar e vencer!
Post author Editorial do Opinião Socialista nº 303
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