Nossa homenagem ao camarada Bruno Coga

Carta enviada pelo Comitê Executivo do PSTU ao ato realizado na manhã deste dia 28 de setembro em homenagem a Bruno Coga

O PSTU está de luto. Nosso querido camarada Bruno Coga se foi.

Sua partida prematura nos comoveu a todos e mais ainda, e especialmente, nossa aguerrida militância da mineração em Minas Gerais e toda uma jovem geração, que militou e conviveu com Bruno desde os tempos em que ele morava, estudava e atuava no Paraná.

Todo o PSTU sente uma enorme tristeza, mesmo aqueles e aquelas que não o conheceram pessoalmente. Mas como ele mesmo pediu, devemos seguir adiante.

Os que o conheciam pessoalmente e, especialmente, os que estavam mais próximos, sentiram um grande choque. É que nunca estamos preparados para perder um camarada, um amigo, alguém que amamos, para aceitar assim de cara a morte de alguém, além de tudo tão especial e tão jovem. Menos ainda, alguém como Bruno, que dedicou toda sua vida à causa da revolução socialista. Um companheiro dedicado, abnegado, consciente, verdadeiro, coerente e feliz com suas escolhas. Um comunista e revolucionário convicto.

Dono de uma personalidade forte, muito inteligente e sensível, era companheiro e solidário, daqueles que se pode contar nos momentos mais difíceis. Mas também era metódico, quase sempre ácido, e às vezes podia ser até um pouco cruel. Como qualquer um de nós, tinha qualidades e defeitos, e é justamente isso que fazia dele um dos melhores e mais maravilhosos seres humanos que eu já conheci” ;  “ A  minha  melhor lembrança é dele rindo. Tinha uma risada característica! Lembro-me do Bruno militante, abnegado em disputar ideias, em querer mudar o mundo e as injustiças. Metódico, às vezes obsessivo, assertivo, melhor dizendo: bolchevique”.

Essa era a descrição dos muitos que conviveram com ele. Era uma pessoa de amigos, apesar de às vezes se isolar.

Como professor, era dedicado. Adorava contar piadas de matemática, que muitas vezes só ele entendia, e dava gargalhadas – tinha uma risada só sua.  Na escola onde lecionava, Dom Silvério, em Mariana (MG), sua morte foi recebida com tristeza e sua memória celebrada com um minuto de silêncio. A equipe Vila do Carmo esporte Clube, na final da copa AMF, prestou-lhe também uma homenagem: o time das meninas escreveu num cartaz uma frase que Bruno sempre lhes dizia: “Acreditem em vossos sonhos meninada. Corram atrás. Eu acredito em vocês!

Os camaradas do Opinião Socialista se lembram dele os acompanhando em Brumadinho e da sua acolhida. Ele atuou também durante um tempo, como assessor no sindicato da mineração.

Bruno começou a militar no início dos anos 2000, na Universidade Estadual Maringá (UEM), onde cursou matemática e foi servidor.  No movimento estudantil, fez parte do Centro Acadêmico de Matemática e do DCE – Gestão Caminhando. Como trabalhador da categoria, foi membro eleito do Conselho Universitário e da diretoria do SINTEEMAR – Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimento de Ensino de Maringá, em cuja nota de homenagem foi lembrado por sua presença ativa nas lutas, especialmente, pela “forte atuação nos movimentos sociais de Maringá e em especial nos movimentos de paralisação e greves da UEM”.  E por isso também foi perseguido e respondeu processo administrativo por denunciar irregularidades no serviço público.

Não duvidava da necessidade de mudar o mundo e da necessidade de construir as ferramentas necessárias para mudá-lo. Fez parte do CAS (Construção Socialista), grupo político local que, em 2007, decidiu como organização aderir ao PSTU. Em 2012, foi candidato a vice-prefeito de Maringá pelo PSTU.  Posteriormente, assim como outros camaradas que orgulhosamente tinham ido construir a militância em outros estados do país, deixou a cidade para viver em Mariana e Congonhas (MG), como fizeram também outros jovens companheiros, para atuar junto à classe operária, com os camaradas da mineração.

Em 2016, no aniversário de 22 anos do PSTU, depois da dura ruptura que sofremos, Bruno estava lá, com seu sorriso característico e com sua força, defendendo o projeto revolucionário e o partido que escolheu.

Valorizava a luta teórica combinada com a intervenção nos processos da realidade. Adorava vender livros. Organizou várias bancas. Sempre tinha um exemplar à mão para te vender ou te estimular a ler. Era um comunista convicto e queria convencer a todos disso.

Mas se na vida política queria construir uma nova sociedade, no âmbito de sua vida psíquica, lutava contra a autodestruição provocada por um transtorno mental.  Não tinha apenas depressão. Sua doença era ainda mais complexa e difícil. Por anos, fez tratamento e acompanhamento médico, clínico, profissional.

Como disse em sua carta de despedida “tenho uma doença e parte dessa doença é autodestruição”. E com toda sua força, inteligência, abnegação, destemor, com sua maneira metódica e sua atenção aos outros, sua solidariedade e camaradagem, travou por anos vários embates para amenizar o sofrimento. Nunca foi “fraco”. Era muito forte, era grande e intenso.  Mas dessa vez a doença venceu.

E nós, revolucionários, comovidos, tristes e prestando hoje essa homenagem ao nosso companheiro Bruno, precisamos falar desse tema e deixar de tratá-lo como um tabu.

O suicídio mata em silêncio uma pessoa a cada 40 segundos e na enorme maioria dos casos pode ser evitado. Temos hoje uma sociedade doente. Esse sistema infernal, perverso e odioso, adoece as pessoas de todas as formas e mentalmente também. Com certeza cada um de nós conhece hoje um familiar, um amigo (a), um colega de trabalho, um ativista ou militante com algum tipo de transtorno mental. A depressão hoje é generalizada. Talvez seja a maior expressão de como o sistema capitalista destrói a humanidade e causa, a cada dia mais, barbárie e infelicidade.

Mas, não bastassem as mazelas que o sistema produz, ele cria e estimula também o preconceito contra as doenças mentais, muitas vezes, vistas com desconfiança e discriminação, como se fossem uma questão moral ou uma fraqueza de determinado indivíduo. Mas elas não são. São doenças e o companheiro que adoece precisa de acolhimento e de tratamento médico, como em qualquer outro tipo de enfermidade.

E assim como ocorre com outros tipos de preconceitos que essa sociedade produz e reproduz, lamentavelmente, também as relacionadas aos transtornos mentais adentra nossas fronteiras, por falta às vezes de discussão aberta e franca.

Por vezes, quem está doente se questiona se o que sente ou faz não é de alguma maneira um indício de fraqueza moral, ou de pouco compromisso com a revolução e o socialismo. E, pior, muitas vezes, para fugir desse preconceito e tentar ser “forte”, muitos minimizam ou escondem o que sentem e relutam em buscar tratamento psiquiátrico e psicológico. Como se apenas o fato de lutar de forma consciente contra esse sistema capitalista que adoece e massacra a classe trabalhadora, evitasse por completo que muito de nós, por inúmeras circunstâncias, seja da vida social ou particular, e às vezes mesmo por problemas biológicos, não pudéssemos adoecer.

E não é assim. Evidentemente que ser militante e lutar de forma consciente contra esse sistema que só produz alienação e desumanidade, é um enorme privilégio e um exercício de desalienação. E com certeza, dá às nossas vidas, maior sentido. Mas não somos uma bolha fora da sociedade e da classe trabalhadora. O fato de entendermos o mundo e lutarmos para mudar esse sistema não significa que não estejamos submetidos a ele e, portanto, sujeitos aos seus efeitos.

Bruno, em sua carta de despedida pediu para seguíssemos em frente. E vamos seguir. Recordá-lo com admiração, respeito e carinho.  E para que essa luta em frente seja mais forte, precisamos estar mais atentos conosco mesmos e com cada camarada em especial. Não devemos ter vergonha ou qualquer vacilo em conversar, acolher e buscar ajuda e tratamento profissional, sem nenhum preconceito, frente a qualquer transtorno psíquico.

Estamos de luto, estamos tristes. Ao mesmo tempo estamos orgulhosos de termos tido o privilégio de ter entre nós um camarada tão valioso como Bruno. E muito orgulhosos também e, sobretudo dos nossos companheiros da mineração, por toda luta que travamos pela vida e saúde de nosso companheiro. Embora, como bem sabemos, nem sempre todo o possível é o suficiente.

Se um misto entre tristeza e impotência nos afeta, não nos paralisemos. O suicídio provoca dor e angústia. É preciso saber entender os limites com os quais nos defrontamos. Não há culpados para algo assim. Mas acima de tudo, vamos nos esforçar para compreender e coletivamente encararmos esse desafio. Temos convicção de que Bruno queria e acreditava na revolução socialista. Enquanto seguirmos lutando em sua causa, ele seguirá entre nós.

Estamos dizendo tudo isso, porque a comoção que nos causou a todos a morte do nosso companheiro Bruno pode e deve servir também para não tratarmos como tabu nem as doenças mentais e nem a questão do suicídio, por várias razões.

Primeiro, estarmos tristes e de luto é humano, faz parte da nossa vida revolucionária e diz bem de nós. Segundo, Bruno não era um fraco ou covarde, pelo contrário, foi um camarada extraordinário, que lutou muito, inclusive contra sua própria doença, e de quem temos orgulho e devemos homenagear. Dizemos e vamos repetir, Bruno, presente, sempre! Terceiro, não romantizamos o suicídio e temos orgulho de ter lutado pela vida do Bruno. O que também demonstra que não perdemos a ternura e nem o senso de cuidado para com os nossos.

Mas, por fim, a partida do Bruno deve nos levar a todos e todas a sermos mais atentos conosco mesmos e com cada camarada em especial. Não devemos ter nenhum preconceito, diante de qualquer indício de doença mental. Nós socialistas podemos e devemos estar na vanguarda também nisso.

Devemos estar conscientes da necessidade de no interior da nossa organização revolucionária não tratarmos nem as doenças mentais nem o suicídio como tabu, para que qualquer companheiro ou companheira doente possa sentir-se acolhido (a), não ser julgado e nem sentir vergonha, considerar como fraqueza ou como um problema moral, o que é uma doença. E, sobretudo, para que possa ser orientado (a) a buscar tratamento médico, psiquiátrico e psicológico, e a ter apoio emocional e tranquilidade para buscá-lo. Que camaradas doentes, com nosso apoio, busquem assumir com seriedade e responsabilidade tratamento médico, evitando atitudes autossuficientes.

Que coletivamente tenhamos consciência, abertura e orientação para essa questão.

Camarada Bruno, presente!

Um forte abraço aos camaradas da mineração, aos camaradas do Paraná que conviveram com Bruno, à sua família e a todos e todas nós que estamos tristes; estamos em luto e que também saberemos transformar o luto em luta.

Comitê Executivo do PSTU