No vale-tudo petista, nasce a “neo-homofobia”

Partido faz ataques homofóbicos na disputa pela prefeitura de São PauloHá muito temos dito e escrito que um dos aspectos mais asquerosos resultante da propagação da ideologia neoliberal pelo mundo, e particularmente no interior das organizações e partidos que se reivindicavam de esquerda, foi a adoção daquilo que chamamos moral do vale-tudo.

Prima-irmã de práticas econômicas e políticas ditadas pela lógica do mercado, que submete todas as relações humanas ao lucro e a mesquinharia, esta moral penetrou nos movimentos sociais e em partidos duramente construídos nas lutas dos trabalhadores. No Brasil, PT, PCdoB, CUT e UNE foram apenas algumas das siglas que mergulharam neste lamaçal. Fraudes, ataques morais e físicos a adversários, calúnias e a crescente reprodução de práticas opressivas foram alguns dos sintomas da degeneração destas organizações.

Práticas que causaram ainda maior estrago na medida em que foram acompanhadas pelo abandono das bandeiras históricas dos movimentos feminista, negro e GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). O último exemplo dessa moral do vale-tudo veio com o lamentável episódio protagonizado pela candidata petista à prefeitura de São Paulo, a ex-sexóloga e autodeclarada madrinha do movimento GLBT brasileiro, Marta Suplicy, e seu ataque homofóbico ao seu opositor, o igualmente deplorável Gilberto Kassab, candidato do DEM.

A “neo-homofobia” petista
Como muita gente já sabe, na semana passada, a campanha petista, ao constatar a vantagem eleitoral de Kassab no segundo turno, divulgou uma propaganda no horário eleitoral fazendo uma série de questionamentos vagos sobre o passado de Kassab: “Você sabe mesmo quem é o Kassab? Sabe de onde ele veio? Qual a história do seu partido?”, perguntava o narrador em tom solene, deixando para o final duas perguntas feitas com uma entonação de voz descaradamente maliciosa, “Sabe se ele é casado? Tem filhos?”. Em outro vídeo, o mesmo tom foi utilizado na pergunta “Será que ele esconde mais coisas?”.

Como se não bastasse o ridículo da insinuação de que estado civil e paternidade sejam critérios para se exercer cargos públicos, é evidente que o objetivo da campanha é jogar lenha na boataria que, há muito, cerca a orientação sexual do atual prefeito. E, neste sentido, foi tão homofóbica quanto às insinuações maliciosas que recheiam cotidianamente a mídia em programas como o Zorra Total e outras porcarias do gênero.

Para começo de conversa, queremos deixar claro que não estamos nos colocando na posição de defender Kassab de qualquer coisa. Ele é nosso inimigo de classe, um burguês a serviço da exploração e da opressão de todos que são nossos verdadeiros aliados. Um exemplo, bastante medíocre, diga-se de passagem, de tudo o que combatemos.

Contudo, também não iremos cair na armadilha fajuta dos petistas e seus aliados que, em nome de um mal menor, justificam e, hoje, fecham os olhos para o real significado do ataque homofóbico desferido por Marta.

Para nós, denunciar a baixaria petista é uma questão de princípio da tradição política da qual fazemos parte. Não nos calamos quando Lula foi atacado por Collor, que, em 1989, utilizou um aborto feito por uma antiga namorada do atual presidente como arma de campanha. Como também não deixamos de denunciar quando a própria Marta foi alvo de uma galinha jogada por estudantes em um debate político realizado na época de sua separação do senador Eduardo Suplicy.

Não nos calamos porque estamos convictos de que denunciar qualquer ataque homofóbico, racista ou machista é um dever de todos aqueles que entendem que estas práticas são deploráveis no debate político. A denúncia também é fundamental por um motivo muito mais importante: o combate à ideologia opressiva que contamina as mentes da enorme maioria da população jovem e trabalhadora do país.

Por isso não temos dúvida alguma de que Marta e o PT enveredaram de forma vergonhosa pelo odioso caminho da homofobia. Ao fazer coro com a baixaria que alimenta as piadas fáceis, a insinuações maliciosas e todo tipo de preconceito e discriminação que cerca a homossexualidade – ou até mesmo aqueles que não se submetem aos padrões da família tradicional – a campanha petista demonstrou o quanto este partido se degenerou e, mais ainda, o quanto, apesar de qualquer discurso, conferências ou suposto apoio à causa GLBT, Lula e seus companheiros nada mais têm a ver com a luta contra a opressão.

Desculpas esfarrapadas e silêncio cúmplice
Depois de perceber o estrago em sua própria base, Marta saiu-se com desculpas que revelam tanto a hipocrisia quanto a submissão deste partido à lógica mercadológica. Em declarações à imprensa, Marta disse que acusá-la de praticar preconceito era absolutamente indigno, que sequer havia visto a propaganda (que, diga-se de passagem, ela não achou abusada) e que toda responsabilidade tinha sido de sua equipe de marqueteiros.

Em sua defesa, Marta não cansou de apresentar sua folha de serviços em defesa da comunidade GLBT. O que é no mínimo ridículo. Posturas tomadas no passado de forma alguma podem servir como garantia em relação ao presente. Principalmente no caso do PT. Afinal estamos falando de um partido que, no seu passado, já foi contra as privatizações, defendeu a independência da classe operária e, até, se dizia socialista.

Infelizmente, foi essa mesma idolatria do passado que justificou a postura adotada pela maioria do movimento que se diz representar o movimento de gays e lésbicas na luta contra a opressão. Foram pouquíssimas as exceções ao silêncio cúmplice que calou a maioria destas ONGs e entidades.

Como também foi, no mínimo, vergonhoso o pronunciamento de Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (ABGLT). Em mensagem que está circulando pela internet, Reis, depois de se gabar de ter recebido um telefonema pessoal de Marta elogiando sua postura diante do episódio (obviamente em defesa incondicional da candidata), afirma que a história toda não passou de um “deslize por parte da coordenação da campanha”.

Uma postura que, apesar de não nos surpreender, é inaceitável. Tão inaceitável quanto foi a responsabilidade destes mesmos setores pelo violento ataque policial que militantes do PSTU e do Grupo de Trabalho GLBT da Conlutas sofreram na Parada do Orgulho Gay, em São Paulo, simplesmente por fazerem oposição às suas políticas e à mercantilização do movimento.

Digas com que andas…
Independentemente de seja qual for sua orientação sexual, o prefeito Kassab deu sua parcela de contribuição para a homofobia petista. Sua postura diante de toda a história só reforça isto. E não esperávamos que ele tivesse agido de forma diferente. Afinal, é prática comum e exemplo permanente da hipocrisia burguesa, a fuga de qualquer situação que coloque em dúvida sua heterossexualidade.

É parte da lógica desta asquerosa moral, o incentivo à mentira, à farsa ou a qualquer outra coisa que sirva para ocultar a homossexualidade. E, mesmo no caso de que a acusação maliciosa não se aplique a Kassab, seria uma ilusão, senão um delírio, esperar que ele aproveitasse a oportunidade para sair em defesa de gays e lésbicas.

Ao contrário, em seu direito de resposta, o DEM ressaltou a “vida limpa” do prefeito e mostrou indignação diante da ofensa de sua honra. Isso pra não falar da repetição, à exaustão, de que, agora, “tem um monte de mulher querendo casar” com ele. Seria cômico se não fosse trágico. Afinal, estas insinuações são tão homofóbicas quanto as de Marta.

Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros não têm nada de sujo em sua vida. Diferentemente de Kassab, cuja vida foi emporcalhada pelos anos de serviços prestados a Maluf, Pitta, Serra e toda a cambada que se beneficia cotidianamente com este sistema cada vez mais podre.

Uma podridão cada vez mais visível, também, nas fileiras do PT e seus aliados. Algo que, também, não poderia ser diferente. É conseqüência direta da moral do vale-tudo assimilada por Marta e seus companheiros em sua cada convivência cada vez mais promíscua com o que há de pior no mundo: dos ultraconservadores do PL e da Igreja Universal do Reino de Deus ao fundamentalismo homofóbico, racista e machista de gente como Bush.