No Iraque, sapatos contra fuzis

A cena do jornalista iraquiano jogando seus sapatos contra Bush é o mais poderoso símbolo da derrota do imperialismo no Iraque. O jornalista Muntazer al Zaidi reagiu após o norte-americano dizer que sua última visita ao país seria um “beijo de adeus”. “Tome aqui seu beijo de adeus, cachorro”, vociferou Zaidi, atirando seus dois sapatos. O gesto é a pior ofensa que pode sofrer uma pessoa segundo os costumes da cultura árabe.

Muntazer al Zaidi, que trabalha para uma cadeia de televisão Al Bagdadia, foi detido imediatamente e está sob custódia das forças iraquianas. Ele poderá ser condenado a 15 anos de prisão, pena prevista para quem agride chefes de Estado.

Mas o mundo árabe já reagiu à prisão. Centenas de advogados se ofereceram para defendê-lo de graça. Em Bagdá, milhares foram às ruas de Sadr City exigindo a libertação. No lugar das bandeiras e faixas, sapatos eram exibidos. Zaidi já é novo herói do povo árabe, particularmente dos iraquianos e seu gesto está sendo repetido nas ruas de Bagdá. Sapatos são atirados pela população em patrulhas das tropas ocupantes.

Para Bush, o final de sua administração não poderia ser mais melancólico. O republicano foi eleito para tornar o século 21, o “novo século americano”, isto é, para dirigir a reação do imperialismo contra os questionamentos do neoliberalismo nos países ricos (movimentos antiglobalização) e na América Latina (levantes e revoluções que botaram abaixo governos servis).

Os atentados de 11 de setembro de 2001, porém, forneceram a desculpa ideal para que Bush lançasse sua ofensiva dominadora, anunciada como “guerra contra o terror”. Invadiu o Afeganistão, supostamente atrás de Osama Bin Laden, para depois entrar no Iraque, sob a farsa de acabar com armas de destruição em massa.

Sete anos depois, sua tentativa em estabelecer em escala internacional uma feroz dominação imperial, com direito a suspensão de direitos democráticos elementares e inclusive legalização da tortura, fracassou completamente. Nem os bilhões despejados na guerra, nem o envio de mais soldados e mercenários foram capazes de derrotar a resistência do povo iraquiano. A crise econômica e o início da recessão mundial vieram apenas coroar este fracasso espetacular.

No dia 27 de novembro, o parlamento iraquiano votou majoritariamente a favor de um acordo de segurança com os EUA. O acordo prevê a retirada de 150 mil soldados norte-americanos do Iraque entre junho de 2009 e dezembro de 2011. Isto significa que o povo iraquiano terá de suportar a ocupação criminosa por pelo menos mais três anos.

O governo títere de Malik festejou, enquanto o Irã também disse apoiar o acordo. Apenas Exército do Mahdi, a poderosa milícia de Muqtad Sadr, o denunciou. A grande incógnita é: será que os sapatos dos iraquianos expulsarão as tropas invasoras antes do prazo acertado?

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