Quando falamos de gente do meio artístico, são raros aqueles que, com o avançar dos anos, mantêm a coerência em sua produção. Muitos se acomodam, deixando suas carreiras e obras serem moldadas e deformadas pelas regras do mercado, por modismos e concessões.

Esse, contudo, não é o caso de Ney Matogrosso que, em 1° de agosto, chegou aos 70 anos em plena forma. Dono de uma vitalidade física e de uma sensualidade que ainda causam furor, o avançar da idade não lhe tirou a incessante busca por aprimoramento e coragem de ousar.

“Ainda tenho um fogo aceso dentro de mim”
Foi assim que Ney definiu, em entrevista à revista Rolling Stones, sua vitalidade. Naquele momento, ele estava lançando o DVD e CD ao vivo Beijo Bandido e tinha finalizado as gravações de Luz e Trevas: a volta do Bandido da Luz Vermelha, dirigido por Ícaro Martins e Helena Ignez. Além disso, estava retornando à direção teatral, com a peça Dentro da Noite, monólogo que reúne dois contos do cronista homossexual João do Rio.

Em 38 anos de estrada, foram 34 discos, dez DVDs, 22 turnês, participação em 13 filmes ou peças teatrais e 14 trilhas sonoras, além de assinar direções de shows de artistas tão distintos como RPM, Cazuza, Chico Buarque, Nana Caymmi e Nelson Gonçalves. Tudo isso, feito com paixão e profissionalismo invejáveis, garantiu a Ney sucesso de crítica e de público das mais diversas culturas e gerações.

Nascido Ney de Souza Pereira, em 1941, em Bela Vista, interior do Mato Grosso, e filho de militar, Ney viveu em várias cidades até os 17 anos. Nessa época, alistou-se na Aeronáutica para fugir do autoritarismo paterno. Decidido a ser ator, foi para o Rio em 1966, onde mergulhou na cena hippie, vivendo da confecção de artesanato e circulando entre a capital carioca, São Paulo e Brasília.

Não é difícil ver as marcas que essa trajetória deixou na carreira de Ney. Busca pela liberdade, diálogo com a multiplicidade cultural do país, sintonia com as coisas do mundo e rompimento das fronteiras entre teatro e música são algumas de suas características. Muitos compositores que ganharam interpretações de suas músicas na voz de Ney o consideram, por isso, um co-autor.

Desbunde antropofágico
No final dos anos 1920, os modernistas formularam o Manifesto Antropofágico. A ideia era que a única forma de constituir uma identidade própria sem se submeter aos padrões impostos pelos setores dominantes seria agindo como canibais, ou seja, se alimentando da força e da energia do outro para criar algo novo.
Foi essa ideia que alimentou muito do que surgiu de melhor no final dos anos 1960 e início dos 70. Um dos melhores destes frutos foi o Secos & Molhados, cuja curtíssima duração é inversamente proporcional à sua importância para o cenário musical brasileiro. A história começou quando Ney encontrou o jornalista João Ricardo, que procurava um cantor para uma série de shows na Casa da Badalação e Tédio, no porão do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.

Durante um ano de ensaios, Ney, João Ricardo e o estudante de arquitetura Gerson Conrad promoveram um “banquete antropofágico”, misturando a androginia pop de David Bowie, os acordes dissonantes do rock progressivo, o escracho dos brasileiros Dzi-Croquettes, ritmos latinos, poesia contemporânea e cancioneiro popular. O resultado foram algumas preciosidades como “Sangue Latino”, “O vira”, “O patrão nosso de cada dia”, “Rosa de Hiroshima”, “Homem com H”.

Além da beleza das composições, cada apresentação servia de contraponto estético e político para os terríveis e tristonhos anos de chumbo da ditadura. Se o clima era sombrio, o palco se iluminava para a vida.

Com o fim do Secos & Molhados, em 1974, Ney partiu para a carreira solo e, desde então, lança um disco por ano. Os últimos dois são exemplares de personalidade camaleônica. Inclassificáveis (2009) foi um espetáculo cheio de trocas de figurinos, maquiagem e requebros, com belíssimas interpretações de Cazuza, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano e Gil.

Já em Beijo Bandido (2010), Ney surgiu sem maquiagem e de terno para centrar as atenções nas belíssimas letras de “Fascinação” (imortalizada por Elis Regina), “Bicho de Sete Cabeças” (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha), “Nada por mim” (Herbet e Paula Toller) e “Fala” (Secos & Molhados) entre outras.
Ney procura sempre a melhor forma para expressar sua arte, nunca a mais fácil. Esse caminho fez com que ele se tornasse a voz através da qual jovens conhecessem os trabalhos de Cartola, Carmem Miranda, Ângela Maria e tantos outros.

“Homem com H”
Apesar de derrapadas assumidas, como a gravação de “Telma, eu não sou gay”, ele tem sido há décadas porta-voz da luta contra o preconceito e pelas liberdades individuais. Avesso à ideia de uma arte-militante, mas antenado com o mundo à sua volta, o cantor manteve distância do engajamento político direto, mas nunca se absteve de dizer o que pensa sobre a opressão e a sociedade que a alimenta.

Em junho passado, em entrevista à jornalista Anna Carolina Lementy, do blog Mulher 7×7, declarou: “Eu ignoro o preconceito. É a minha vida, e não estou nem aí. Ignoro como ignorei a ditadura. Era como se eu vivesse no país mais livre do planeta. Sou uma pessoa que trabalha, que vivi bem a minha vida. É isso que me interessa. Quem vai regular a minha vida privada? O Estado? A Igreja vai opinar? Eu exijo respeito”. Ney soube impor respeito como poucos, não só através de seu talento artístico, que fez com que sua voz aguda e seus trejeitos soassem como pura beleza, mas também através de sua postura diante do mundo.

Felizmente, Ney não pretende parar tão cedo. Para comemorar os 70, vai lançar um projeto com músicas de compositores que entraram para a história com fama de malditos, rótulo que descarta. Entre eles, estão Jards Macalé, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio. O trabalho também vai apresentar mais um novato, Vítor Pirralho, exemplo inconteste da personalidade deste pavão misterioso que sempre soube dar voz e forma para os povos e as culturas deste país.

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