?Não vamos dar um minuto de sossego na Câmara?

Candidata a vereadora pelo PSTU em Natal, a professora Amanda Gurgel conversou com o Opinião Socialista sobre o crescimento de sua campanha, os problemas da cidade e o papel que teria um mandato socialista.Opinião Socialista – Como está a campanha?
Amanda Gurgel – Desde o primeiro dia estamos no meio da rua, com panfletos, bandeiras e conversando muito. Os políticos tradicionais abandonaram esse corpo a corpo porque não têm coragem de encarar a população. Estamos fazendo uma campanha bem bonita, com envolvimento da militância e apoiadores. Uma campanha honesta, sem mentiras, pautada na vida dos trabalhadores. 

Eu já esperava simpatia por conta do vídeo, da repercussão. Mas está maior do que imaginava, com muitos apoiadores. Pessoas que nem imaginavam que poderiam se envolver numa campanha, porque sempre tiveram certa aversão a política ou são ligadas a outros partidos. Fizemos uma plenária na qual vieram 70 apoiadores de fora do partido. Gente abrindo as casas para reuniões. É um sentimento renovador. 

No Nova Natal, onde trabalho, fomos panfletar na fila da unidade de saúde e fiz um discurso denunciando o descaso, responsabilizei os políticos, a prefeita. No final, as pessoas aplaudiram e vieram conversar. Em outra ocasião, estava na sala de espera de um consultório, encontrei uma amiga, conversamos sobre a campanha e pedi uma doação. Aí uma moça disse que havia escutado e também queria contribuir. Fiquei impressionada.

Natal, como todas as cidades, está tomada pelos cabos eleitorais. Como vocês estão fazendo para aparecer no meio dessas campanhas milionárias?

Amanda – Aos sábados, fazemos o Corredor Vermelho. Escolhemos uma avenida e ocupamos uns oito locais. Distribuímos panfletos junto aos ônibus e carros, colocamos adesivos… Sempre voltamos com cadastros de apoio. Na Zona Norte, uma mulher veio falar comigo. “Eu conheço você. Está sempre lá na fábrica. Meu voto é seu.” Era uma operária de uma grande confecção que havíamos visitado naquela semana. É muito bom quando uma operária te para na rua desse jeito.

O IFRN está na greve nacional. Como tem sido a participação do PSTU nessa greve?

Amanda – Esse movimento é histórico. Nós tomamos a greve como uma prioridade e tenho ido aos principais atos. No do dia 31, fiz um discurso e depois, alguns estudantes vieram conversar, foi juntando gente… Combinamos uma reunião para esta semana, e um deles foi dizendo: “vou criar um evento no facebook”… Há também vários professores do IF apoiando.

Por falar em internet, muitas pessoas nas redes lamentam não votar aqui…
Amanda – É muito bom saber que as pessoas mantém a chama da confiança, do respeito e da admiração acesa. Mas no país todo existem candidaturas que, como a minha, defendem os trabalhadores e uma alternativa socialista. Agradeço muito o carinho e deixo esse recado. Procurem conhecer as nossas candidaturas Brasil afora.

Há muito ceticismo, descrédito com a política. Você tem sentido isso?
Amanda – As pessoas estão cansadas, desconfiadas. Me perguntam se também não mudaria, se fosse eleita. Tenho dito que um mandato socialista não serve para mudar a vida do vereador ou vereadora. Mas, sim, para que a nossa luta fique mais forte, para transformar a realidade. Conversava sobre isso com uma senhora outro dia e ela me disse. “Entendi, minha filha, você quer entrar lá pra mudar, e não pra ser mudada”. É exatamente isso. 

Tenho dito ainda que outra diferença é que não estou sozinha. Tenho meu partido e isso é o mais importante. Um parlamentar nosso vai continuar recebendo o mesmo salário, continua sendo um de nós. 

Um mandato socialista não vai ser dentro de gabinete. Tem de servir para apoiar as lutas, as greves e denunciar os outros vereadores, que autorizam o aumento da passagem, protegem a cassação da prefeita. Serve para mostrar para as pessoas o quão sórdido é o trabalho desses senhores e senhoras. Sei que eleger um vereador não vai resolver o caos na Educação, por exemplo. Mas se a gente conseguir o mandato, não vamos dar um minuto de sossego na Câmara. Eles tornam nossas vidas infernais e nós iremos fazer o mesmo. Aquela calmaria vai por água abaixo.

Na campanha, o PSTU defende as cidades para os trabalhadores. Quais os principais problemas de Natal?
Amanda – A educação precária, a grave falta de saneamento, a espera no transporte, a crise na saúde… Temos várias unidades de saúde em prédios improvisados e outras despejadas. Outro problema dramático é o lixo deixado, literalmente, como presente para as pessoas nas ruas. A campanha da Frente de Esquerda, com Robério [PSOL] e Dário Barbosa [PSTU] tem sido uma alternativa para derrotar a velha política e governar para os trabalhadores, enfrentando os contrastes que marcam nossa bela cidade. A campanha tem conseguido espaço, até porque as outras candidaturas já estiveram ou participaram da prefeitura.

Todos os candidatos falam que vão melhorar a educação. O que é preciso para isso?
Amanda – O principal é o que disse no vídeo. Investimento. Propomos a aplicação imediata de 30% do orçamento na educação. Hoje, a prefeitura não gasta nem 18% da arrecadação. Não cumpre nem a lei! Seria um passo para que professores não precisem trabalhar três horários e recebam o piso nacional… 

Esse investimento maior poderia garantir mais creches. Muitas mulheres não têm onde deixar os filhos. São 35 mil crianças sem creche e há outras em casas alugadas, precariamente… E isso é assim em um governo de uma mulher, de Micarla. O que mostra que não basta ser mulher. Se fosse, estaríamos bem demais: temos mulheres na prefeitura, no governo do estado e do país…

Os candidatos falam que vão salvar a educação. Mas recebem doações de empresas e bancos e, quando eleitos, ficam comprometidos até a medula. Então, quando dizem isso, pode desconfiar… Para defender a educação, é preciso independência. Senão é promessa…

Quais as perspectivas para a campanha?
Amanda – Estamos otimistas. Não tenho dúvida de que vamos sair com o partido fortalecido. Temos encontrado quem queira conhecer o PSTU, participar de uma reunião, ler o Opinião. Queremos filiar muitas pessoas, jovens, mulheres, que façam esse gesto mostrando que concordam com o partido. E também acho que conseguiremos muitos votos, mesmo em uma eleição difícil, enfrentando a barreira eleitoral, compra de votos… 
No mínimo, a gente vai sair com o partido forte e com uma onda diferente na cidade, de pessoas que compreendem que esse modelo, feito para os ricos e empresários, simplesmente não serve.
Post author JOÃO PAULO DA SILVA, de Natal (RN)
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