Não chores por Lula

“Não chore por Lula”, disse um banqueiro, “ele discursou para eles, mas trabalhouA corrupção devastou o governo Lula no Brasil. Cada setor do PT viu-se implicado em subornos, fraudes, compra de votos, roubo de fundos públicos, fracasso em depor sobre o financiamento ilícito das campanhas e um amontoado de outras condutas delituosas, reveladas quase diariamente (…)

O que seria a política de penetrante corrupção endêmica no PT? Por que teria um partido – que nasceu há um quarto de século como um movimento vibrante, democrático, participativo, baseado nas lutas e movimentos sociais – se degenerado em mais um partido das elites corruptas, respaldado pelos especuladores financeiros e interesses agroindustriais, e dirigido por gananciosos arrivistas profissionais?

Transformação
No início dos anos 90, o PT expulsou militantes, reconverteu o partido – que passou de um “partido-movimento” a um partido eleitoral – e transferiu o processo decisório das reuniões dos núcleos de base aos altos funcionários parlamentares e dos aparelhos estatais. O PT passou a ser dirigido por publicitários eleitorais-profissionais, marqueteiros políticos pagos a peso de ouro e aumentou progressivamente a dependência aos meios de comunicação de massas. O predomínio da política eleitoral e de campanhas realizadas nos meios de comunicação de massas interpostos pressupôs um maior financiamento, num momento em que menos militantes tinham vontade de contribuir com a máquina eleitoral. O partido e a elite parlamentar desenvolveram cada vez mais laços com “concessionários” do setor privado para garantir contribuições em troca de contratos públicos. Com a ascensão de Lula à presidência, essas práticas se multiplicaram, quando então milhares de funcionários do PT ocuparam cargos e começaram a desenvolver suas próprias fontes privadas de financiamento. A agenda neoliberal de Lula e a nomeação de grandes homens de negócios e banqueiros para as posições econômicas-chaves esteve baseada no pressuposto de garantir o apoio dos partidos de direita no Congresso, influindo negativamente, desta forma, nos movimentos sociais populares e sindicatos, sobretudo dos trabalhadores estatais do setor público (…)

O PT já não era mais um partido com ideologia de esquerda, adotou um programa para promover o agronegócio (que recebe 90% de créditos agrícolas), servir ao capital financeiro (com mais de US$ 90 mil milhões), desembolsando pagamentos de dívida durante 30 meses (gastando mais em pagamento de dívida num mês do que em educação, saúde e reforma agrária num ano), e financiando minas e petróleo. O que manteve o PT inteiro e de pé foi o “patrocínio de gabinetes”; a corrupção, a cooptação, o enriquecimento e o clientelismo. O poder político e os valores do neoliberalismo, “o enriquecimento individual”, converteram-se nas motivações determinantes para buscar posições influentes.

A oposição de direita, desde o PSDB ao PFL, não radica em diferenças programáticas. A oposição está tentando reafirmar a grande base de negócios, o apoio do FMI, do Banco Mundial e do capital financeiro internacional que Lula atraiu para a sua administração.

Lágrimas
Os principais grupos que “choram por Lula” não são os trabalhadores urbanos ou os despossuídos rurais, mas sim os banqueiros, investidores estrangeiros, milionários e especuladores que ganharam milhões durante sua administração. Os jornais econômicos Financial Times (FT) e Wall Street Journal estão enormemente preocupados com a hipótese de que as investigações de corrupção impeçam Lula de levar a cabo o resto de sua reacionária agenda neoliberal. Como o FT afirma: “o escândalo de corrupção parece postergar toda probabilidade de qualquer reforma importante da natureza das que robusteceram a reputação do Sr. Lula da Silva na Bolsa de Valores de Wall Street. Dia-a-dia o governo vai sendo paralisado pelo escândalo (…) as medidas que visam introduzir as Parcerias Público-Privadas seguiram estacionadas, assim como uma proposta para conceder autonomia ao Banco Central”.
Graças à investigação de corrupção e à “paralisia” do Congresso, Lula não poderá privatizar os serviços públicos e as infra-estruturas restantes, nem entregar o Banco Central ao capital financeiro (…)

Devido ao apoio a Lula em Wall Street, na Bolsa de Londres e no FMI, não há absolutamente qualquer possibilidade para um golpe de Estado. Como diz o refrão: os golpes militares nunca se dão contra o FMI.

Contramão
O maior perdedor na decadência do governo Lula foi o MST, que continuou apoiando o governo apesar das cifras de ativistas camponeses assassinados, de que dezenas de milhares de ocupações de terras foram forçosamente evitadas e de que Lula descumpriu continuamente cada promessa de reforma agrária. Durante o auge do escândalo de corrupção, Lula fez mais explícita sua ampliada coalizão com os partidos de direita, dos latifundiários e especuladores, e o MST uniu-se aos burocratas cooptados das centrais sindicais na organização de uma manifestação pró-Lula e contra a “desestabilização” e a corrupção.

As políticas pró-Lula do MST não só debilitaram gravemente as lutas dos camponeses sem-terra como dividiram a oposição de esquerda, fortalecendo assim a “velha direita”, o PSDB e o PFL (…)

Descartável
Enquanto os partidos da oposição e os meios de comunicação de massas seguem o escândalo da corrupção, afundando no círculo mais próximo de Lula, os grandes negócios e os interesses bancários não estão a favor de substituir Lula antes das eleições de 2006 (…)

Que Lula permaneça no cargo ou que seja obrigado finalmente a renunciar não depende tanto de quão intimamente esteja implicado nos escândalos de corrupção quanto do impacto que sua saída teria nos mercados financeiros. Em qualquer caso, se Lula renunciasse (ou sofresse impeachment) ou permanecesse, os principais consultores de investimentos esperam que a oposição continue com as políticas monetaristas neoliberais que Lula promoveu tão ardentemente, inclusive até o ponto de comprar votos no Congresso para reduzir aposentadorias, congelar o salário mínimo e subvencionar os exportadores do agronegócio. É a ironia suprema que o outrora independente e combativo MST una-se a Wall Street para defender um governo imerso na corrupção. Mas enquanto os banqueiros ao menos “colheram” US$ 100 bilhões em lucros e serviços, o MST tem mais de 40 mil ocupantes de terras desalojados, que se somam às 200 mil famílias que vivem em lonas de plástico à margem das rodovias. “Não chore por Lula”, disse um banqueiro, “ele discursou para eles, mas trabalhou para nós”.

Quando Lula já não for capaz de comprar, convencer, cooptar, subornar congressistas ou manipular o povo pobre, e já não for eficaz na implantação de reformas neoliberais, a elite governante não hesitará em descartá-lo.

* Artigo publicado nos sites:
www.counterpunch.org.
www.pstu.org.br
Adaptado da tradução de
Roberto Barros

Post author James Petras, sociólogo da Universidade de Binghamton, em Nova York*
Publication Date