Governo e oposição montam operação para blindar Palocci

Denúncias de Buratti jogam lama em ministroNenhum evento deixou a tentativa de acordão entre governo e burguesia tão explícita como o operativo para blindar Palocci após as bombásticas denúncias de seu ex-assessor, o advogado Rogério Buratti. Com a lama atingindo o ministro da economia, desde os mais exaltados integrantes da oposição burguesa até a imprensa e os grandes empresários declararam seu total apoio a Palocci.

Não é à toa. As denúncias feitas por Buratti no dia 19 de agosto deixaram o plano econômico neoliberal vulnerável à crise política. Ainda no dia do depoimento, o dólar subiu mais de 4% e fechou em alta de 2,94%, a maior em quase 15 meses. A Bolsa também fechou em queda naquele dia. Diante disso, todos resolveram montar uma operação para salvar o ministro e a economia da lama. Isso porque não interessa à burguesia uma combinação entre crise econômica e institucional, ou a queda do presidente ou do ministro. A própria oposição burguesa, apesar de querer desgastar Lula com vistas às próximas eleições, não está interessada em impeachment e muito menos em comprometer o plano econômico.

Em resposta às estrondosas denúncias, Antônio Palocci deu uma entrevista coletiva de mais de duas horas no dia 21, na qual não respondeu nada, mas passou uma imagem de segurança, o que acalmou os mercados. Empresários, como Antonio Ermírio de Moraes, defenderam sua permanência e disseram não acreditar no teor das denúncias.

O governo Lula, por sua vez, decidiu montar toda uma estratégia pró-Palocci, desenvolvida em três frentes: acalmar o mercado financeiro, discutir com a oposição limites para as disputas políticas, resgatando a idéia de um acordão para a CPI, e tirar da Promotoria paulista (responsável pelo vazamento das informações e ligada ao governador paulista, Geraldo Alckmin) o comando jurídico das apurações sobre o tempo em que Palocci era prefeito de Ribeirão Preto (SP).

Buratti: a bomba
Buratti foi preso por causa de gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, que mostraram que ele tentava destruir provas de lavagem de dinheiro. O advogado resolveu beneficiar-se do recurso da delação premiada e prestou depoimento à Polícia Civil em Ribeirão Preto, dizendo que o atual ministro da Fazenda recebia R$ 50 mil por mês da empreiteira Leão Leão quando era prefeito, entre 2001 e 2002. Segundo Buratti, quem retirava o dinheiro era o ex-secretário Ralf Barquete Santos, morto em 2004. Os pagamentos eram contabilizados pelas notas fiscais frias e o dinheiro desviado era mandado ao diretório nacional do PT, por Delúbio Soares. As notas fiscais frias eram obtidas com fornecedores de cimento e de combustível.

A propina repassada pela Leão Leão era uma moeda de troca para que a prefeitura mantivesse com a empreiteira o contrato para a coleta de lixo. Mesmo com a saída de Palocci da prefeitura para assumir o ministério, a propina continuou a ser paga a Gilberto Maggioni, o vice que assumiu em 2002. Mas o esquema também funcionava em outras três prefeituras da região, de acordo com Buratti: Matão, Monte Alto e Sertãozinho. Esses prefeitos acusados de receber propina e que são parte do mesmo esquema organizado por Buratti são do PSDB e do PT. Como se vê, as diferenças entre o PT e a oposição burguesa estão cada vez mais dissolvidas.

Bingo!
Buratti também envolveu Lula nas denúncias. Segundo ele, a campanha de Lula em 2002 recebeu cerca de R$ 2 milhões das empresas que operam casas de bingo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Buratti disse que os bingos de São Paulo entraram com R$ 1 milhão e os do Rio teriam contribuído com um valor igual ou maior.

As casas de bingo teriam feito as doações porque tinham interesse na regularização do jogo de bingo no Brasil. Um projeto com essa finalidade havia sido feito pelo ex-ministro José Dirceu, mas foi abandonado após a divulgação de um vídeo no qual Waldomiro Diniz, ex-assessor de Dirceu, pedia propina ao bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Blindagem reforçada
Ficou claro que, para a burguesia do país, Palocci é intocável, muito mais do que o próprio Lula. O acordão para que as CPI’s terminem em pizza ganhou mais aliados. O medo de que as denúncias contra o ministro se fortaleçam unifica governo, imprensa, empresariado, o PT, o PSDB, o PFL e outros partidos.

Para a população, entretanto, a gigantesca massa de pizza que aglutina todos esses setores vai mostrando cada vez mais que eles são farinha do mesmo saco e que não é dos corredores do Congresso que sairá a solução.

o lixo que o ministro tentou esconder

1. Um levantamento telefônico entregue à CPI dos Bingos apontou pelo menos seis ligações feitas por Rogério Buratti para a casa do ministro Antonio Palocci em 2003. Foram apontadas também 12 ligações para o celular de Ademirson Ariovaldo da Silva, assessor especial de Palocci. Os telefonemas para a casa de Palocci e para o celular do assessor totalizaram quase 45 minutos. Buratti também telefonou pelo menos 14 vezes para Juscelino Antonio Dourado, chefe de gabinete do ministro. Palocci também é mencionado de forma direta ou indireta em pelo menos cinco conversas feitas entre maio e setembro de 2004. Nas conversas, o ministro é tratado como “chefe”, como confirmou Buratti no depoimento.

2. Um arquivo denominado “despesas diversas” foi encontrado no computador do ex-presidente da Leão Ambiental, Wilney Barquete. Protegido por duas senhas de oito dígitos, o arquivo traz referências ao pagamento de mensalidades entre R$ 3 mil e R$ 50 mil a cinco cidades (Ribeirão Preto, Araraquara, Sertãozinho, Matão e Monte Alto), para o Departamento de Estrada de Rodagem e para uma sigla Conter, não-especificada. Para a Promotoria e a Polícia Civil, isso é o “mapa do pagamento de propina” que Buratti ajudou a esclarecer. No documento, há menção ao pagamento de R$ 50 mil a alguém identificado como “dr.”.

3. A Leão Leão assinou oito contratos sem licitação e venceu uma concorrência de R$ 41 milhões durante a gestão de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Foram R$ 46 milhões em contratos com a empresa apenas entre 2001 e 2002. Palocci mentiu na entrevista. Ele havia dito que as licitações e o contrato com a Leão Leão para limpeza e coleta de lixo foram feitos antes de ele assumir a prefeitura.

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