Não basta ser anti-Bush, é preciso ser antiimperialista

A vitória de Chávez na Venezuela é parte de uma situação mais geral da América Latina, com a eleição de diversos governos de frente popular (Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e Michelle Bachelet no Chile) e nacional-populistas (Néstor Kirchner na Argentina e Rafael Correa no Equador). E a vitória de López Obrador, no México, só não ocorreu por uma escandalosa fraude eleitoral.

Esses resultados expressam uma ampla rejeição do povo latino-americano aos governos de direita que implantaram planos neoliberais no passado. No entanto, esses governos, depois de eleitos, aplicam os mesmos planos pró-imperialistas.

Isso é muito claro no caso brasileiro, com Lula. Quando se fala em Chávez, uma afirmação como essa se choca com a consciência média da maior parte dos ativistas de nosso país. Afinal, ao contrário de Lula (que se declara amigo de Bush), Chávez faz ataques diários ao presidente dos EUA. O governo norte-americano financiou um golpe contra Chávez em 2002. Agora o imperialismo apoiou o candidato da direita tradicional, Manuel Rosales.

É importante que se diga que Chávez não tem uma postura antiimperialista, mas anti-Bush. Tem relações estreitas com o imperialismo europeu e grandes negócios com uma parte importante do imperialismo norte-americano, em particular com as petroleiras. Como se pode comprovar na matéria ao lado, as empresas petroleiras estão associadas diretamente ao governo na Venezuela.

O receituário neoliberal é aplicado a fundo também na Venezuela. As grandes empresas multinacionais controlam a economia, o desemprego e os baixos salários reinam e a dívida externa é paga religiosamente.

Chávez aplica a mesma receita de Lula no Brasil e de todo o neoliberalismo na América Latina para fazer com que as massas aceitem os planos econômicos neoliberais: garantir programas sociais compensatórios.

Aqui é o Bolsa-Família, lá as Missões. A diferença é apenas quantitativa. Com as grandes receitas do petróleo, Chávez pode ampliar ainda mais esses programas, com os quais consegue também apoio político e eleitoral.

A Alba é alternativa?
A proposta de Chávez para a América Latina, a Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), tampouco é uma alternativa real à Alca. Trata-se também de um projeto de “livre comércio”, o que manteria o predomínio das grandes empresas multinacionais instaladas em nosso continente. Seria uma espécie de Mercosul ampliado, incluindo Cuba, abrindo ainda mais as fronteiras de nossos países para as multinacionais da região.

Longe do socialismo
Chávez chama de “socialismo do século 21” a combinação de um plano econômico neoliberal com as Missões e os discursos antiimperialistas. O socialismo, no entanto, pressupõe a expropriação das grandes empresas e a ruptura com o imperialismo. Chávez é na verdade um governo nacionalista burguês, com relações estreitas com um setor do imperialismo.

Ele consegue obter grande sucesso junto à esquerda latino-americana pela capitulação completa de Lula e seus colegas ao governo Bush. Mas não podemos lutar contra o governo Lula e adotar Chávez (que não por acaso apoiou o petista nas eleições) como referência.

Não basta fazer discursos contra Bush, é preciso avançar na luta contra o imperialismo. O governo não deve pagar a dívida externa, tanto no Brasil como na Venezuela. Todo apoio à nacionalização do gás na Bolívia, ao fim dos leilões das reservas de petróleo no Brasil e à expropriação das petroleiras estrangeiras na Venezuela.

Post author
Publication Date