Na CPI, o acordão ganha corpo

Como era de se esperar, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, instalada no Congresso em resposta ao escândalo Demóstenes, já começa a dar mostras de não ser capaz de ir até o fim nas investigações. Como resultado de um acordo entre o governo e a oposição burguesa, a CPI decidiu por não convocar os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ) para depor.

Em um período pré-eleitoral, o desgaste dos mandatários de Goiás, Rio de Janeiro e Distrito Federal poderia comprometer aquilo que PT, PMDB e PSDB têm como especialidade: o vale tudo para eleger seus candidatos. É por isso que, apesar de tamanha contundência na troca mútua de acusações, governo e oposição burguesa demonstram uma sólida unidade no que tange a restringir ao máximo a abrangência das investigações.

O aguardado depoimento de Carlinhos Cachoeira certamente poderá trazer à tona novos ingredientes ao lamaçal que inunda Brasília – especialmente se seus relatos escaparem ao controle do acordo que se costura na CPI. Mas o enredo que destina a comissão a uma investigação parcial e limitada já parece definido, particularmente no debate sobre os sujeitos a serem chamados a depor.
Além dos governadores, também escapou de ter que prestar depoimento o jornalista Policarpo Junior, redator-chefe da revista Veja. As centenas de ligações registradas entre Policarpo e Cachoeira não pareceram evidências dignas de apuração aos parlamentares.

Delta é poupada
Apesar de ter definido pela quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da construtora Delta em suas filiais na região Centro-Oeste, os parlamentares isentaram a filial carioca da empreiteira da mesma medida. A todo custo, o governo federal quer preservar seu aliado Cabral, contra quem foram levantadas suspeitas sobre sua relação com Fernando Cavendish, ex-dono da Delta.

O desejo em preservar o que for possível dos numerosos contratos da Delta pode estar relacionado com o interesse de compra da empresa por parte do grupo J&S, que controla o frigorífico JBS e tem participação do BNDES. Caso se concretize o acordo, teremos um desfecho emblemático para o caso. A empresa envolvida em incontáveis irregularidades seria objeto de um grande negócio de compra e venda, com participação de dinheiro público.

“Nós somos teu”
Se não bastasse tudo isso, os brasileiros ainda estão sujeitos a conferir o acordão para proteger governantes, com direito a ares de deboche. Tão à vontade se sentem os deputados para trocar por quilo as maracutaias de seus aliados que já nem prestam atenção se há alguém olhando.

Flagrado pela câmara de uma emissora de TV, o deputado Cândido Vaccarezza (PT) enviava uma mensagem de texto de seu celular ao governador Cabral, diretamente da sessão da CPI, assegurando-o de sua blindagem. No texto da mensagem, um verdadeiro ultraje ao povo, Vacarreza dizia ao governador: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI, mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu”. O trabalhador brasileiro que durma com um barulho desses.

Nas ruas, governadores são alvos dos protestos

Goiânia
Goiás é o estado em que os tentáculos da organização de Carlinhos Cachoeira mais se estenderam. Além de Demóstenes Torres, há fortes evidências de relações escusas do bicheiro com parlamentares de um amplo espectro de legendas partidárias. O próprio governador Marconi Perillo (PSDB) está na berlinda.

Em resposta, já houve quatro manifestações contra a corrupção no centro de Goiânia. Tendo sobretudo os estudantes à frente, os atos levantaram a bandeira pelo “Fora Marconi”. No último dia 19, a organização do ato, convocado para a Praça Cívica, combinou o uso das redes sociais com a convocação das organizações do movimento. Compareceram cerca de 1.000 manifestantes.

Na capital goiana, sindicatos e entidades dos movimentos sociais conformaram uma Frente para a intervenção unitária nos atos. PSTU, PSOL e PCB apóiam essa Frente e esperam, com ela, fortalecer a mobilização contra Marconi e todos os corruptos.

Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, os holofotes se concentram no governador Sérgio Cabral (RJ), suspeito de favorecimento à empresa Delta, de seu amigo Fernando Cavendish. A blindagem do governo federal sobre Cabral é forte, mas o desgaste do governador vem aumentando.

Além das suspeitas de corrupção, Cabral tem sucateado os serviços públicos, militarizado as comunidades e escolas, além de reprimir fortemente as greves em seu estado, notadamente a dos bombeiros e policiais militares.

No último domingo, dia 20, uma ato na Praia de Copacabana expôs as relações de Cabral com a Delta e denunciou seu governo. Com a presença dos bombeiros grevistas que foram expulsos de sua corporação, os manifestantes exigiam a reintegração dos militares que lutaram por melhores salários.

Convocados pelo movimento SOS Bombeiros, pela CSP-Conlutas, ANEL, SEPE (trabalhadores em educação) e outras entidades, cerca de 300 manifestantes marcharam até a rua Constante Ramos, no tradicional bairro carioca. A principal palavra de ordem expressava o desgaste crescente do povo fluminense com seu governo: “Fora Cabral”.
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