Na casa dos patrões, manifestantes defenderam o emprego e rechaçaram redução salarial

Trabalhadores vestidos de Dito Bronca
Diego Cruz

Em frente à Fiesp, na Avenida Paulista, mil pessoas pararam o trânsito, organizadas pela Conlutas, por sindicatos de metalúrgicos e pela IntersindicalVeja as fotos do ato

Na Avenida Paulista, coração financeiro do país, cerca de mil pessoas se reuniram para dizer não aos ataques dos patrões em tempos de crise econômica. Representando dezenas de entidades e organizações dos movimentos sindical, estudantil e popular, os manifestantes repudiaram as demissões e a redução de salários e direitos. Para os que participaram, os lucros acumulados pelas empresas devem, agora, garantir os empregos.

O protesto foi organizado pela Conlutas, pelos sindicatos de metalúrgicos de São José dos Campos, Campinas, Limeira e Santos e Intersindical. Porém vieram ativistas de todo o estado de São Paulo e de outros estados – como comerciários do Rio Grande do Sul. De são José dos Campos, chegaram nove ônibus com manifestantes.

Os participantes se concentraram em frente ao Masp, de onde saíram em direção à Federação da Indústria de São Paulo (Fiesp). A Fiesp é o maior símbolo empresarial do país e a principal articuladora, atualmente, de acordos de redução jornada, salários e direitos. Duas pistas da avenida ficaram fechadas.

Puxando a passeata, operários fantasiados de Dito Bronca, davam um tom irreverente ao protesto. O Dito Bronca é um personagem histórico, criado por Henfil em 1979, que denuncia os patrões e virou símbolo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. Um boneco representando Paulo Skaf, presidente da Fiesp, levava uma foice na mão, simbolizando os cortes de empregos e direitos.

Apesar de a manifestação ser explicitamente pacífica, a presença da polícia foi ostensiva. Alguns policiais chegaram a passar de moto em alta velocidade no meio da passeata. Uma grade foi colocada em frente ao prédio da Fiesp, possivelmente para impedir a entrada de ativistas.

Reivindicações
Desde o início, a construção do protesto se deu em torno a alguns pontos comuns entre as entidades. O objetivo central é dizer que não será aceito nenhum acordo que prejudique os trabalhadores para ajudar os patrões a sair da crise.

“Os patrões, quando ganham muito dinheiro, não querem dividir os lucros com os trabalhadores”, disse Adilson dos Santos, o Índio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região. Ele citou exemplo de que é possível resistir e vencer, como no caso da GM e da Inox em São José.

As principais exigências dos manifestantes foram a estabilidade no emprego, a reintegração dos trabalhadores demitidos até o momento, a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, a não-retirada de nenhum direito trabalhistas, a estatização, sem indenização e sob o controle dos trabalhadores, das empresas que demitirem.

Apesar de chamada a construir e participar do ato, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) não compareceu. “A CUT diz que é contra, mas nos seus sindicatos tem feito acordos”, falou Emanuel Melato, da Intersindical. Eliezer da Cunha, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas, ressaltou que o ato foi “o resultado de uma organização de muitos anos daqueles que não se renderam”. Índio também criticou a CUT: “diz que tem de dar dinheiro para os empresários reduzindo imposto, e isso está errado, porque o dinheiro é dos trabalhadores”.

Já para Zé Maria de Almeida, da direção nacional da Conlutas, é um absurdo que “os empresários, sentados nas montanhas de lucros que acumularam, queiram demitir os trabalhadores”. “O único salário que estamos interessados em discutir a redução é o dele”, disse referindo-se a Paulo Skaf, presidente da Fiesp.

Zé Maria defendeu que os trabalhadores cobrem do governo Lula uma Medida Provisória que proteja os trabalhadores da crise, garantindo a estabilidade no emprego e estatizando as empresas que demitirem. “Lula tem de parara de fazer comentários como se não tivesse nada a ver com o assunto. Ele não é comentarista político, Lula é a principal autoridade do país”, concluiu.

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Unidade e diversidade
O ato foi uma grande prova de que é possível unir os diversos setores que não se entregaram ao governismo. Entre os presentes, além dos metalúrgicos, estavam estudantes, químicos, trabalhadores da indústria alimentícia, bancários, servidores públicos, comerciários, sem-teto, sem-terra, aposentados etc. Um operário argentino da fábrica de cerâmicas Zanon fez uma saudação aos presentes. A Zanon está ocupada e os trabalhadores controlam a produção desde a grave crise na Argentina, iniciada em 2001.

Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), destacou a importância de atingir também os trabalhadores dos movimentos populares, pois isso “permite a unidade entre empregados e desempregados”. Representando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Zé Batista falou que “não tem outro caminho a não ser construir a unidade de todos os setores”.

Os partidos políticos que se mantêm na oposição de esquerda ao governo Lula também saudaram o ato. Os partidos foram representados por Raul Marcelo, deputado estadual do PSOL, Beto, do PCB, e Dirceu Travesso, do PSTU.

“Se há algo irracional, é o capitalismo”, afirmou Dirceu Travesso. Ele acredita que a crise vai mostrara a verdadeira face do capitalismo, “vai jogar a humanidade na fome, no desemprego e na miséria”.

Dirceu lembrou o discurso neoliberal das últimas duas décadas, que dizia que o capitalismo era “a maior maravilha e que o socialismo havia morrido”. Em contraposição a essa idéia, ele apresentou como a única alternativa realmente benéfica para os trabalhadores o socialismo: “esse terreno se abre fértil na consciência da nossa classe”.

Aumentar as mobilizações
Além da estabilidade no emprego e da não redução de salários e direitos, os ativistas são contrários à destinação, por parte do governo, de qualquer recurso a mais para bancos e empresas e pedem a extensão do seguro-desemprego para dois anos. Eles também defenderam a isenção de impostos, taxas e tarifas públicas para desempregados, mais investimentos em saúde, educação, moradia, saneamento, etc., o não-pagamento das dívidas externa e interna e o cumprimento dos acordos feitos com o funcionalismo público, entre outras reivindicações.

Para a Conlutas e os organizadores do ato, esse é apenas um de uma série de protestos e mobilizações que devem ocorrer para garantir que os trabalhadores não paguem pela crise. O próximo passo é a construção de um dia nacional de paralisações e mobilizações em 1º de abril.

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    Atualizada em 13/2/2009