Em 2007, Chávez aconselhou governador a “apagar chama” no estado

Em programa de rádio, presidente mandou recado ao governador. Repressão veio em seguidaEm outubro de 2007, os petroleiros da estatal PDVSA estavam em luta, para recuperar perdas de mais de 20% no salário. Eles estavam cansados de esperar e iniciaram as mobilizações. Lotaram quatro ônibus e viajaram até Caracas, imaginando ser recebidos pela direção da empresa. Deram com a porta fechada. Protestaram do lado de fora.

De volta a Puerto La Cruz, no estado de Anzoátegui, fizeram uma marcha pelas ruas. Lado a lado, trabalhadores de macacão e trabalhadores de gravata. Os mesmos que, em 2002, ocuparam a PDVSA para impedir o golpe contra Chávez. Isto foi numa quarta-feira. Na semana seguinte, haveria nova passeata.

No domingo, pelo programa Alô Presidente, Hugo Chávez mandou um recado ao governador Tarek Saab: “Tarek, você está com um problemão em Anzoátegui. Não se esqueça: Chama que se acende…chama que se apaga…”

Ninguém entendeu bem a mensagem. No dia da marcha, a polícia do estado já rondava os manifestantes. No dia seguinte, em um novo protesto, desta vez menor, veio a repressão. A polícia de Tarek reprimiu violentamente. Sem entender a razão, trabalhadores foram espancados e baleados pela polícia do governo “revolucionário” de Anzoátegui. Tarek havia feito a lição de casa.

Petroleiros defenderam Chávez do golpe de 2002
Os petroleiros de Puerto La Cruz têm uma historia fantástica. Em dezembro de 2001, ao mobilizar-se por salários, viram a Guarda Nacional, a principal policia do país, algemar e deter três de seus principais dirigentes.

Meses depois, em abril de 2002, um fato político sacudiu o país. A Igreja Católica, a burocracia sindical, os setores conversadores do país, aliados ao imperialismo norte-americano, deram um golpe de Estado que tirou Chávez do poder por 48 horas. A população saiu às ruas para lutar contra o golpe. Entre eles, os petroleiros da Refinaria de Puerto La Cruz.

O golpe foi derrotado pela ação das massas. Em dezembro, um ano depois da prisão dos dirigentes sindicais petroleiros, houve uma nova tentativa de golpe de estado. Desta vez o golpe teve a forma de um locaute, isto é, uma greve nacional de patrões, que fecharam suas fábricas e principais comércios, com o objetivo de estrangular economicamente o governo chavista.

Mais uma vez, os petroleiros de Puerto La Cruz foram a vanguarda. Durante o chamado “Paro Petrolero”, de dezembro de 2002 a fevereiro de 2003, a refinaria funcionou sem os diretores, gerentes, engenheiros de alto nível, etc. Os operários começaram a trabalhar em auto-gestão. Organizaram-se em várias frentes de trabalho, recebiam o petróleo, refinavam e repartiam para a população.

Foram três heróicos meses. Ao final, a nova tentativa de golpe foi derrotada. Os trabalhadores petroleiros se tornaram heróis nacionais. Foram tema de livros, entrevistas, filmes e o próprio Chávez, em pessoa, foi a Puerto La Cruz condecorar os trabalhadores.

Como na música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, passado o risco de golpe tudo voltou ao normal. Os trabalhadores seguiram com seus salários baixos. Os filhos dos operários brigavam por um vaga na estatal enquanto os filhos dos novos gerentes entravam sem grandes exigências. As doenças profissionais e os acidentes de trabalhos se sucediam. Foram oito mortes em menos de um ano e eles mesmo diziam: “quando nós gerimos a empresa não houve um só acidente”.