Multinacionais aprofundam terceirização e precarização da mão-de-obra

O avanço das terceirizações e a precarização cada vez maior das relações de trabalho em todo o planeta expressam o acirramento da competição entre as grandes multinacionais num período de crise. É o que se pode entender do estudo “A transnacionalização da terceirização na contratação de trabalho”, do economista e professor Márcio Pochmann, do Instituto de Economia da Unicamp e atual presidente do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Segundo o estudo de Pochmann, encomendado pelo Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros (Sindeepres) e divulgado no último dia 12, a grave crise econômica mundial desencadeada a partir da década de 70 aprofundou a concorrência, provocando uma profunda mudança no processo produtivo. Além disso, intensificou a internacionalização da produção.

Resposta à crise
Segundo o texto, “com o acirramento da concorrência intercapitalista se generalizando em várias partes do mundo por decorrência da desregulação da competição patrocinada pelas elites políticas neoliberais, as grandes empresas multinacionais procuraram modificar drasticamente a estratégia de atuação”.

Isso se traduziu em redução de custos e de trabalhadores diretamente contratados pelas empresas. Na década de 70, uma multinacional empregava em média 4,3 mil funcionários. Já em 2005, a média era de 1,3 mil trabalhadores para cada empresa transnacional. Inicialmente centrado no setor manufatureiro, a terceirização avança paulatinamente sobre o setor de serviços.

“Na maior parte das vezes, a terceirização encontra-se associada ao ambiente persistente de redução de custo em contraposição à ampliação dos investimentos, especialmente daqueles dependentes de recursos externos, mais concentrados nas economias avançadas”, afirma o estudo. Pochmann classifica o processo de terceirização como uma “reestruturação produtiva defensiva”, caracterizada pelo esforço de minimização de custos.

Modelo japonês
A terceirização é um fenômeno recente nos países periféricos, mas que se enquadram no conjunto de características da reestruturação produtiva toyotista. Isso quer dizer, salários mais baixos, jornada de trabalho mais longa e alta rotatividade da mão-de-obra.

O modelo toyotista, ou asiático, expandiu-se mundialmente após a década de 70. Ele substitui o antigo modo fordista de produção. Se o modelo fordista se caracterizava pela produção em série, com uma clara divisão de trabalho entre os operários e um grande estoque de produtos, seu sucessor customiza ao máximo todo o processo. Um trabalhador acumula tarefas, de produção e administrativa, por exemplo, e já não há tanto estoque. É o chamado just in time, ou seja, a produção de uma mercadoria para a venda imediata.

Dentro disso, a subcontratação e a terceirização reduzem os custos da mão-de-obra e, sem os empecilhos de um contrato de trabalho, permitem explorar ao máximo o operário.

As terceirizações, que apareceram primeiro nos países desenvolvidos, logo chegaram aos países periféricos. Hoje, grande parte da produção se dá através de trabalhadores subcontratados. Pochmann cita um exemplo da Nike, a maior produtora de calçados do mundo, com cerca de 600 mil trabalhadores empregados em 51 países. Desse total, quase 95% são terceirizados. A empresa mantém apenas 24 mil funcionários contratados.

Ataque
De 1978 a 2006, as multinacionais empregaram 52 milhões de trabalhadores. Desses, 40 milhões eram terceirizados. De acordo com a pesquisa, em 2006, nos 145 países estudados, havia 376,8 milhões de trabalhadores terceirizados, ou 15,5% de toda a mão-de-obra. Desses, 42,1 milhões eram empregados por multinacionais. Já as empresas multinacionais sozinhas empregam 98 milhões de trabalhadores, sendo 39,3 milhões, ou 40%, de terceirizados.

Com a grande procura por mão-de-obra barata, multiplicam-se as empresas especializadas em oferecer trabalho terceirizado. Tais empresas atuam como verdadeiros “gatos” internacionais do século XXI. A conhecida figura do gato alicia trabalhadores nas grandes cidades para o serviço no campo, em geral degradante.

Em 2006, o Brasil contava com 9% de todos os trabalhadores agenciados por empresas de terceirização, dentre os 33 países enfocados pela pesquisa.

“De maneira geral, a terceirização caracteriza-se por generalizar o padrão asiático de trabalho, cada vez mais associados à elevada rotatividade, à contida remuneração e à longa jornada de trabalho”, conclui o economista.

Pochmann, ex-secretário do Trabalho no governo de Marta Suplicy, propõe uma maior “regulação” do Estado no processo de terceirização, perspectiva ineficaz, pois a precarização da mão-de-obra se dá justamente com ajuda do Estado. Entretanto, o estudo ajuda a jogar luz sobre os ataques realizados pelo neoliberalismo no último período.

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