Movimentos populares protestam contra alta no preço dos alimentos

Movimentos sociais e populares de diversos estados realizaram uma jornada de mobilizações no último dia 19, dia de luta contra a carestia. As manifestações ocorreram em cidades de 7 estados do país.

Em São Paulo, capital, mais de 500 famílias do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) e da APA (Associação Periferia Ativa) ocuparam simultaneamente dois supermercados, do Extra e Carrefour. Os movimentos reivindicam, entre outras pautas, redução e congelamento dos preços dos alimentos, restaurantes populares e subsídios para abaixar o custo de vida.

Nos supermercados, os manifestantes encheram carrinhos de supermercados, passaram no caixa e, ao pagar, apresentaram um cheque de R$ 160 bilhões, assinado por Lula e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. A intenção era criticar a ajuda bilionária dada pelo governo aos bancos, enquanto os trabalhadores e o povo pobre sofrem com o aumento do custo de vida.

São José dos Campos
Na principal cidade do Vale do Paraíba, cerca de 2 mil pessoas marcharam pelas ruas da cidade. Eram mulheres e homens, crianças, idosos, enfim, trabalhadores que saíram da ocupação do Pinheirinho, na Zona Sul da cidade, e foram até o hipermercado Carrefour, na Via Dutra, para protestar. A manifestação foi organizada pelo Movimento Urbano de Trabalhadores Sem Teto (Must) e pela Conlutas.

Coordenados com a Jornada Nacional contra a Carestia, os moradores do Pinheirinho levantaram sua bandeira por habitação. O Carrefour foi escolhido por ser a segunda maior rede de supermercados do mundo, perdendo apenas para o Wal-Mart, ou seja, um dos maiores símbolos do capitalismo mundial. A crise econômica foi um dos temas mais citados.

O número de mães com carrinhos de bebês chamava a atenção. Mesmo sem ter com quem deixar seus filhos, elas não se intimidaram e foram à passeata com as crianças. Meninos em bicicletas também seguiam a multidão. O Pinheirinho, que em fevereiro próximo completa cinco anos, é um símbolo de luta por sobrevivência.

Greice, 20 anos, casada e mãe de um filho, mora no Pinheirinho há três anos. Entretanto, participa do movimento desde a ocupação em 2004, pois seu companheiro foi um dos ocupantes. A casa onde mora é habitada por seis pessoas. Ela conta que estava no ato porque não tem “onde morar e o aluguel esta muito caro, então a gente tem que lutar por moradia”. Mas não é só isso. Para ela. O protesto “tem a ver com a crise mundial e pra mostrar nossa união, que a gente também pode fazer alguma coisa”.

Durante a caminhada, Donizete de Almeida, do Sindicato dos Metalúrgicos de São José e da Conlutas, lembrou que “o preço do pão está lá em cima, e o salário lá embaixo” e que “é preciso investir em primeiro lugar no povo, na construção de casas para a população”. Uma moradora contou que há 19 anos está inscrita num programa da Prefeitura para obter uma habitação. Sem alternativa, se tornou uma das bravas lutadoras do Pinheirinho.

Um aviso aos banqueiros e empresários
Chegando ao Carrefour, a Polícia Militar, comandada pelo capitão PM Félix, já aguardava a passeata. Esse policial é o mesmo que comandou a ação violenta contra os operários da Johnson & Johnson no dia 11.

Os manifestantes, no entanto, entraram no estacionamento do hipermercado, onde houve um ato com falas e palavras-de-ordem. Marrom, um dos coordenadores da ocupação, explicou a razão da escolha pelo Carrefour para protestar. “Hoje, Carrefour e Wal-Mart são as maiores empresas que vendem alimentos e controlam os preços. O povo que está lá na roça vende barato e o Carrefour aumenta o preço e vende muito caro”, afirmou.

“O governo federal tem dinheiro para salvar banqueiros falidos, mas nós trabalhadores já estamos falidos há muito tempo e não vemos o governo dar dinheiro. Se tem dinheiro pra banqueiro, então tem que ter para construir casas”, disse ainda Marrom.

Toninho Ferreira, candidato a prefeito pelo PSTU nas últimas eleições, estava presente. Ele também é um dos advogados que representa a ocupação. “Queremos um pacote econômico para salvar pobres e não para salvar ricos”, disse. Sobre a possibilidade de saques, temida pelos empresários e que deixou a PM de prontidão, Toninho afirmou categoricamente que “se a população tiver fome, ela vai sim buscar onde tem”.

Para finalizar o ato, Paulão, também da coordenação do Pinheirinho, apresentou uma pauta de reivindicações que incluía a regulamentação do terreno ocupado, a estabilidade no emprego, a redução de jornada de trabalho sem redução de salários, a não-retirada de direitos, entre outros pontos. A pauta foi votada por unanimidade pelos ativistas.

Post author Luciana Candido, enviada especial a São José dos Campos (SP)*
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