Xavier G.

Os velhos morenistas, aqueles que compartilharam uma parte de sua vida política e pessoal com Nahuel Moreno (um dos maiores dirigentes trotskistas internacionais depois da morte de Trotsky), contam que o “velho” ou “Hugo” era desse ou daquele jeito. Que ria muito alto, que sim era grande e corpulento, que sim era muito atraente, e que sim, por outro lado, era uma enciclopédia humana, era humilde em comparação aos grandes dirigentes trotskistas de sua época, ou era especialmente autocrítico.

Relatos que, em geral, tendem a confundir aqueles que não chegaram a conhecê-lo. Há muitos que sequer chegaram a nascer quando ele estava vivo. Tampouco quando existiu o velho MAS (Movimento Ao Socialismo, a maior organização trotskista do mundo) e quando sua organização internacional , a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) pendia de um fio e eram poucos os quadros que ainda defendiam sua existência.

Afinal, somos todos filhos da história e vivemos e interpretamos o período histórico que nos cabe viver. Alguns tiram conclusões mais ou menos acertadas, outros se deixam levar pelo espírito do momento e fazem do impressionismo sua filosofia política, e outros se agarram à teoria e às lições dos velhos mestres, como quem se agarra a um salva-vidas em uma tormenta.

Mas o legado teórico de Marx sempre prevalece quando terminam as modas políticas da vez e nunca foi tão palpável sua afirmação de que a realidade é obstinada, e no final podemos ver que tudo acaba se chocando com ela de forma inevitável.

Então um jovem trotskista hoje, nascido na década do desmoronamento e da capitulação, na década da virada oportunista de praticamente todas as organizações da esquerda, na década do rearmamento do capitalismo e da capitulação à democracia burguesa, se pergunta: Que aconteceu com os velhos morenistas? Aqueles que contavam inúmeras histórias de “Hugo”?

Há quem os veja pela rua Corrientes em Buenos Aires em 25 de janeiro (data de sua morte), distribuindo panfletos reivindicando sua figura histórica e organizando uma visita ao cemitério de Chacarita para deixar uma oferenda de flores a cada ano.

Também são vistos mencionando em alguma revisão histórica de sua organização, a influência que seu legado teve, mas ao mesmo tempo, rechaçando categoricamente elementos centrais de seu pensamento político.

Há quem o recorde com muito carinho como seu mestre político, mas que se conduzem a outra meta política totalmente diferente e centrada na realidade exclusiva de seu país.

Depois disso estão os jovens que só conheceram Moreno através dos livros. Que fomos aprendendo sobre trotskismo em grande parte graças à sua grande obra e à sua discussão permanente com Ernest Mandel. E me atrevo a dizer que hoje, para um jovem, é até cômodo ler Moreno, porque supõe ver uma interpretação trotskista e ortodoxa com o marxismo revolucionário sobre os fatos mais recentes da história. Fatos e discussões que ainda nos dias de hoje estão presentes no debate nas organizações de esquerda.

Mas lógico, aqueles que somente o conhecemos pelos livros, tendemos a ser bastante cautelosos na hora de falar de Moreno, especialmente na hora de falar com aqueles que compartilharam mate, conversas e infinidade de encontros pessoais com ele.  A pessoa se educa naquilo de “melhor não falar daquilo que não se viveu” e no final tende a não envolver-se muito na discussão com estes setores.

Até que um dia, pensando e discutindo, chega à conclusão de que já basta de se deixar impressionar pelos velhos morenistas. Pela mesma razão pela qual Trotsky assinalava que a obra mais importante de sua vida, não foi seu papel na Revolução Russa, nem seu papel criando e organizando o exército de operários que derrotou 14 potências imperialistas que vieram acabar com o triunfo histórico do proletariado russo.

Trotsky dizia que a obra mais importante de sua vida era a construção da Quarta Internacional, uma organização que não chegava nem a 5000 militantes em todo o mundo, e que vivia sufocada pelo triunfo do stalinismo e do nazismo.

Essa foi sua maior obra, precisamente porque priorizou, acima de todas as demais, a construção de uma organização internacional, seu principal objetivo.

E por acaso o mesmo não acontece com Moreno?

É importante reivindicar sua figura histórica e seu legado político, mas mais importante ainda é reivindicar a necessidade primária de todo partido trotskista, a Internacional. E foi precisamente a LIT-QI o legado mais importante que Nahuel Moreno nos deixou, que longe de querer proclamar-se uma “Internacional” em si mesma, como fazem algumas organizações, colocou-se como objetivo primário a reconstrução da Quarta Internacional! E resulta que a obra e o legado mais importantes de Moreno foram salvas por um punhado de militantes!

Para um trotskista hoje, e mais se ele se considera morenista, é muito importante escutar todos seus velhos alunos, mas para além de todo impressionismo com respeito à sua figura, é ainda mais importante defender sua principal obra e a tarefa prioritária e fundamental de toda organização trotskista.

A realidade, como dizíamos, é obstinada. Hoje, precisamente pela inexistência de uma Internacional, vemos como a maioria das organizações trotskistas acabam caindo no nacional trotskismo (a construção de um partido trotskista simplesmente em um país), capitulando às pressões das novas organizações reformistas da burguesia,  deixando-se levar pela nefasta influência do castro-chavismo ou diretamente deixam-se levar pelas pressões do stalinismo e sua ultrajante simples redução da análise política a um campo progressivo “bom” e um campo mal.

Sem o rigor de uma Internacional, não somente é quase impossível não acabar deixando-se levar pelas pressões do momento, pressões dos movimentos sociais ou pressões de outras organizações políticas, mas também que, em última análise, é diretamente impossível chegar à máxima “proletários de todos os países, uni-vos!”. Que é, sem dúvida, a principal e mais reconhecida proclamação de Marx.

E a pergunta é muito simples, como vão unir-se se não existe nenhuma internacional?

Tradução: Lilian Enck

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