Ministro da Saúde repete discurso criminoso de Bolsonaro

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, confirma a primeira morte por Covid-19 em São Paulo, durante entrevista à imprensa

Mandetta se rende à política de Bolsonaro que significa milhares de mortes para manter os lucros dos grandes empresários

No momento em que o Brasil registrava 57 mortes pelo novo coronavírus, numa contagem certamente subestimada, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ia para a imprensa apoiar o discurso criminoso de Bolsonaro. O ministro que vinha sendo apontado por muitos como uma espécie de contraponto à política assassina do presidente, diante do pronunciamento de Bolsonaro nesta terça, 24, mudou seu discurso passando agora a relativizar a pandemia e a necessidade de quarentena.

Temos que melhorar esse negócio de quarentena, foi precipitado, foi desarrumado“, disse o ministro em coletiva na tarde desta quarta. Se existe um consenso entre especialistas no tema, é o de que o Brasil demorou muito a tomar qualquer atitude diante da pandemia, e ainda assim de maneira bastante insuficiente. A evolução da contaminação no país segue a dos países que vivem uma verdadeira catástrofe humanitária, como Itália e Espanha (com um sistema de saúde que não é comparável a esses países). Ou seja, enquanto Bolsonaro insuflava o povo a ir às ruas defender ditadura, e colocava centenas de pessoas em risco ao interagir com elas em Brasília, deveria estar preparando o país para a crise.

O próprio Mandetta, em longa entrevista coletiva realizada no último dia 20, havia previsto que o sistema público de saúde entraria em “colapso” em abril. Agora, realinha seu discurso com o de Bolsonaro, de adotar o que chama de “quarentena vertical”, ou seja, isolar apenas os grupos considerados de risco, como os idosos, numa estratégia que o Reino Unido tentou e logo abandonou diante de estudos que mostravam a mortandade que isso significaria. “Antes de adotar o fecha tudo, existe a possibilidade de trabalhar por bairro, existe a possibilidade de fazer redução em determinados aparelhos”, disse Mandetta à imprensa, mesmo sabendo que isso não resolve o próblema.

Decretando a morte de milhares

O discurso assassino de Bolsonaro fez muitos considerarem o pedido de demissão de Mandetta. No entanto, o ministro não só reafirmou sua permanência no cargo, como se contradiz a ele próprio e adere integralmente à tese negacionista de seu chefe. Numa fala irresponsável, Mandetta defendeu até mesmo a abertura das igrejas: “Que as igrejas fiquem abertas, mas não se aglomerem.”

Bolsonaro, Mourão, Paulo Guedes e Mandetta, que é médico inclusive, sabem muito bem da real gravidade da pandemia que já produziu mais de 21 mil mortes em 187 países. A própria Abin (Agência Brasileira de Inteligência), em documento divulgado pelo Intercept Brasil, projeta 5.571 mortes pela Covid-19 até 6 de abril, coincidentemente o mesmo dia em que a equipe econômica de Paulo Guedes defende o fim das medidas extraordinárias para conter o vírus.

O que o governo Bolsonaro faz é escolher, entre as milhares de mortes no Brasil, a maioria de pobres, e a economia funcionando normalmente e a manutenção dos lucros dos grandes empresários e banqueiros, a segunda opção. Nisso, encontra respaldo em setores da cúpula das Forças Armadas, que temem uma situação de instabilidade social com uma quarentena generalizada.

A verdade é que essa pandemia expõe de forma crua, em seu mais alto grau, os elementos de barbárie desse sistema capitalista. Expõe o grau de exploração, precarização e absoluta falta de cobertura de quase 40 milhões de trabalhadores. Mostra, ainda, que são os trabalhadores que produzem as riquezas desse país, e que os patrões não suportam sequer 2 ou 3 meses de paralisação que afete seus lucros. Preferem que morram milhares.

Para manter o carro andando, a economia funcionando e os lucros acontecendo, Bolsonaro e Mandetta mentem descaradamente, pintando um cenário de caos inevitável. Confunde de forma intencional os serviços essenciais com os não-essenciais, reverberando um discurso utilizado pelos grandes empresários e multinacionais, que colocam todas as fábricas como se fossem “essenciais” ao bem-estar do povo, só para manter os operários trabalhando colocando em risco a saúde e a vida da população. De forma hipócrita, tenta aparecer como defensor do pequeno empresário, sendo que este já sofre com as medidas de seu governo.

O governo teria todas as condições de organizar a produção e a distribuição de produtos realmente de primeira ordem, decretando a paralisação de todas as atividades não-essenciais, e a manutenção dos serviços essenciais de forma segura aos trabalhadores. Poderia, por exemplo, tomar o controle das empresas que possam produzir álcool em gel e respiradores. Ou estatizar o setor da saúde privada para garantir os leitos de UTI necessários à crise. Assim como suspender o pagamento da dívida aos banqueiros para garantir os investimentos necessários à saúde e à subsistência dos 40 milhões de trabalhadores informais com dignidade, e não com a esmola de R$ 200 ou R$ 300.

O governo, porém, prefere decretar a morte de milhares de trabalhadores.