“Minha verdade”

Depois de seqüestrada pela resistência iraquiana, a jornalista italiana Giuliana Sgrena foi libertada na sexta-feira, 4 de março. No momento que era levada até o aeroporto de Bagdá, o carro em que viajava se tornou alvo de militares norte-americanos, e foi atingido por centenas de tiros. Giuliana foi atingida, e sobreviveu graças a um agente italiano, que usou seu corpo como escudo. A jornalista publicou no jornal Il Manifesto o artigo “Minha Verdade”, do qual o Opinião reproduz trechos em que ela acusa os EUA de tentarem matá-la.

“Ainda estou confusa. A sexta-feira foi o dia mais dramático de minha vida. Havia passado muitos dias seqüestrada. Havia falado pouco antes com meus seqüestradores, que há dias diziam que iam me libertar. Vivia horas de espera. Falavam de coisas das quais somente depois entendi a importância. Falavam de problemas ‘relacionados com as transferências’.

(…) uma voz amiga me chegou aos ouvidos: ‘Giuliana, Giuliana, sou eu, Nicola, não se preocupe, falei com Gabriele Polo, fique tranqüila, está livre’. Comecei a tirar a venda de algodão e os óculos escuros. Senti um alívio, não pelo que estava ocorrendo e que não entendia, mas pelas palavras do tal ‘Nicola’. Falava, falava, era impossível de conter, uma avalanche de frases amigas, de brincadeiras.

(…) O carro continuava seu caminho, atravessando um túnel cheio de poças, e quase derrapando para desviar delas. Inacreditavelmente, todos rimos. Era libertador. Dar voltas em uma estrada cheia de água em Bagdá podendo sofrer um acidente de carro depois de tudo o que havia passado era algo inacreditável. Então, Nicola Calipari sentou-se ao meu lado. O motorista havia avisado duas vezes à embaixada e à Itália que estávamos indo para o aeroporto, que eu sabia que estava supercontrolado pelas tropas americanas, falta menos de um quilômetro, me disseram… quando… Me lembro apenas do fogo. Neste momento, uma chuva de fogo e projéteis caiu sobre nós, calando de vez as vozes divertidas de poucos minutos antes.

O motorista começou a gritar que éramos italianos, ‘somos italianos, somos italianos…’. Nicola Calipari jogou-se sobre mim para me proteger, e, então, pude sentir o seu último suspiro, e ele morria sobre mim. Senti uma dor tísica, mas não sabia por quê. Mas uma forte lembrança fulgurante me saltou à mente, voltaram imediatamente em minha cabeça as palavras que me disseram os seqüestradores. Eles diziam que fariam de tudo para libertar-me, mas eu teria de estar atenta ‘porque há os americanos, que não querem que você volte’. Quando me disseram isso, considerei aquelas palavras como superficiais e ideológicas. Naquela hora, para mim, corria o risco tornarem-se a mais amarga das verdades”.
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