México: Muitas polêmicas, poucas diferenças

Neste domingo, dia 2 de julho, os mexicanos eleger seu próximo presidente, no processo eleitoral que já é o mais acirrado da história do país. Os dois principais candidatos, Andrés Manuel López Obrador e o conservador Felipe Calderón, estão tecnicamente empatados nas pesquisas, com cerca de 35% das intenções de voto. Como não há segundo turno, um deles pode virar presidente por poucos votos de diferença.

Como pano de fundo das eleições está a crescente insatisfação popular contra anos de neoliberalismo. Uma prova disso é a heróica greve de professores de Oxaca, que já dura meses. Recentemente os grevistas foram vítimas de uma brutal repressão do governo federal quando policiais reprimiram um protesto matando três professores, uma criança e deixando inúmeros feridos.

Com 107 milhões de habitantes e uma economia quase do tamanho da brasileira, é o país mais importante da América Latina, depois do Brasil. Também é dono de uma das principais reservas de petróleo do mundo. Contudo, as reservas petrolíferas mexicanas estão ‘hipotecadas´, quer dizer, foram dadas como garantia do pagamento da dívida externa do país com o Fundo Monetário Internacional. Esse caso ilustra com perfeição de como a dívida se transformou em um instrumento da intervenção contra a soberania nacional dos países latino-americanos.

Por outro lado, a miséria do país contrasta de forma radical com a sua riqueza. O México tem a terceira pior distribuição de renda da América Latina, depois de Brasil e Chile. Além disso, com a implementação do Nafta (Acordo de Livre comércio da América do Norte), em 1994, aumentou extraordinariamente a miséria do povo mexicano.

O tratado devastou a economia do país, especialmente a sua agricultura. Outrora, um grande produtor de milho, feijão e leite, o México hoje tem que importar esses produtos do Canadá e dos EUA. Recentemente o presidente Vicente Fox fez uma campanha para retirar todos os subsídios governamentais para os camponeses. Hoje o subsídio ao campo é dez vezes menor do que os dados aos fazendeiros nos EUA.

O acordo também permitiu a instalação da empresas maquiladoras que, durante toda a década passada serviram como uma válvula de escape para evitar a explosão social no campo, atraindo a população rural desempregada para os centros industriais. As maquiladoras são indústrias manufatureiras que importam os insumos industriais e exportam o produto final para os países centrais do capitalismo. Seus trabalhadores recebem salários miseráveis e não possuem direitos trabalhistas. Entre 1997 a 2001, o número de trabalhadores dessas fábricas aumentou de 800 mil para 1,2 milhão.

O preferido pelo imperialismo
Felipe Calderón, candidato do PAN (Partido da Ação Nacional), representa a direita tradicional nas eleições. Caso vença, todo o receituário neoliberal das ultimas décadas será mantido e aprofundado. Calderón conta com apoio de Fox, e também é a opção considerada ‘mais segura´ por Washington para dar continuidade aos seus planos de rapina do país. Calderón esteve comprometido com a privatização e a estrangeirização dos bancos nacionais e apóia explicitamente uma “parceria” entre o país e os EUA.

Candidatos dos ‘pobres´
Obrador é o candidato do PRD (Partido da Revolução Democrática), partido criado em 1988 por ele e por Cuauhtémoc Cárdenas, filho do ex-presidente Cárdenas. Considerado o “heroi dos miseráveis”, o candidato adotou como lema de campanha: “Pelo bem do México, primeiro os pobres”. Entre 2000 a 2005, administrou a Cidade do México, maior cidade das Américas. Nesse período criou uma série de programas sociais compensatórios, como o de distribuição de remédios. Também se aproximou de Carlos Slim, magnata dono da Telemex (e sócio da Embratel), e considerado o terceiro homem mais rico do mundo.

Obrador na sua campanha faz um discurso de “esquerda”, criticando duramente o atual presidente Vicente Fox e seu governo corrupto totalmente subordinado ao imperialismo norte-americano. Tenta assim capitalizar um descontentamento popular com sucessíveis governos que rezaram sob a cartilha neoliberal e do livre comércio e se apresenta como o portador da “mudança”.

A imprensa burguesa do país o compara a Hugo Chávez e muitos o apresentam como um perigoso populista. Nada mais falso. Obrador já deu provas suficientes de que não pretende realizar nenhuma ‘ruptura´ de fato com o modelo neoliberal. Obrador não faz cerimônia para tranqüilizar o imperialismo e o empresariado mexicano. Respondendo se seu eventual governo provocaria alguma mudança ‘irresponsável´ na economia, Obrador respondeu; “Nada disso, não vamos atuar de maneira irresponsável, não vamos provocar nenhuma crise”- e completa – “em poucas palavras, haverá um manejo técnico, não ideológico da economia (…) haverá controle do déficit público, será garantida a autonomia do Banco de México e se evitará a inflação”.

Obrador também não questiona o livre comércio. Pelo contrário, defende e apóia a Alca e “seus benefícios” para o México no seu programa de ‘50 Compromissos´. Portanto, caso ganhe, Obrador vai manter a essência do atual modelo e a subordinação do México com os EUA.

Novos ventos
A conjuntura eleitoral mexicana reflete os novos ventos que sopram na América Latina. Uma vitória de Obrador expressará, de maneira distorcida, o sentimento de mudança que clamam os povos do continente. Tal sentimento explica a onda de governos com verniz de esquerda pelo continente afora que, uma vez eleitos, traem a população e governam para os ricos e para o imperialismo.

O sentimento de mudança no México tem particular relevância depois do fim da ditadura civil do PRI. Por mais de sete décadas, esse partido esteve no poder. Nos anos 80 e 90, o PRI voltou-se à política neoliberal imposta pelo seu vizinho do Norte e durante o período privatizou a grande maioria das empresas estatais, acabou com a reforma agrária e mesmo com direitos dos camponeses conquistados desde a Revolução de 1910. O resultado é que seu candidato, Roberto Madrazo, amarga um minguado terceiro lugar nas eleições, não tendo a menor chance de se eleger.

Contudo, é preciso fazer um alerta. Seria uma ingenuidade acreditar que Obrador assumirá, se eleito, um programa antiimperialista ou nacionalista semelhante ao do general Lázaro Cárdenas. Tudo indica que não resistirá à pressão dos EUA para desmantelar a Pemex e privatizar o essencial do setor energético, além de levar a cabo a política de livre comércio.