Massacre de Eldorado dos Carajás: 13 anos de impunidade

Em 17 de abril de 1996, trabalhadores sem terra marchavam rumo à Marabá (PA). Depois de alguns dias na estrada e do não-cumprimento das promessas feitas pelo governo do Pará, os manifestantes resolveram bloquear a PA-150 no trecho conhecido como Curva do S, no município de Eldorado dos Carajás, sul do Pará. Houve negociação com a polícia militar que se comprometeu, a partir de novo contato com o governo estadual, a ceder alimentos e transporte para que os manifestantes chegassem rapidamente a Marabá.

No entanto, na manhã do dia seguinte, o que se viu foi a chegada de dois batalhões armados e sem identificação pessoal nas fardas. Cada batalhão localizou-se num dos sentidos da rodovia. Os trabalhadores ficaram sem saída. O resultado foi o massacre que chocou o Brasil e o mundo: 19 trabalhadores mortos, 67 mutilados fisicamente e centenas traumatizados pelo que viram e sofreram.

Passados 13 anos do massacre, nenhum dos mandantes ou executores está na cadeia. Sabe-se que a ação era uma reivindicação de latifundiários locais e que a ordem de execução foi dada pelo governador Almir Gabriel (PSDB) que sequer foi indiciado.

No primeiro julgamento, os policiais e comandantes da operação foram absolvidos. Um novo julgamento foi realizado, novamente absolvendo os mais de 150 policiais, mas condenando os principais comandantes: major José Maria Oliveira e coronel Mário Pantoja. Contudo, eles conseguiram um habeas corpus e continuam transitando livremente.

Com a eleição de Lula e depois da governadora Ana Júlia Carepa (PT), alentou-se a esperança de reforma agrária e punição aos assassinos de Eldorado. Nada disso aconteceu. Segundo estimativa do jornal conservador O Liberal, no Pará há uma área de terras públicas do tamanho do estado do Paraná que poderia ser utilizada para efeito de reforma agrária. Permanece a enorme concentração fundiária e a impunidade no campo.

Segundo o MST, o megacorrupto Daniel Dantas dispõe de 49 fazendas no Pará. No dia 16 do mês corrente, um dia antes da data do massacre de Eldorado, foi assassinado Raimundo Nonato do Carmo, o Raimundinho, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tucuruí, que também fora organizador do movimento dos atingidos pela barragem da Hidrelétrica de Tucuruí. Para o latifúndio, a não punição dos assassinos de Eldorado representa a certeza a impunidade e o sinal verde para novos assassinatos.

Manifestações pedem reforma agrária e punição aos assassinos
Em 24 estados do Brasil, foram organizados atos para reivindicar a reforma agrária no país e lembrar o ocorrido em Eldorado, que deu origem ao dia internacional da luta camponesa. Na Curva do S, local do massacre, mais de mil pessoas se manifestaram contra a impunidade. Em Belém, algumas centenas de pessoas, com sindicatos e partidos, entre os quais o PSTU, também fizeram o mesmo. Seguiram em marcha pela cidade até o Tribunal de Justiça do Estado, criticando a proteção que este órgão dá aos latifundiários.

Para Ulisses Manaças, coordenador estadual do MST, além de reivindicar reforma agrária e punição aos assassinos de trabalhadores rurais, “é hora de perguntar de que lado você está? Do lado do movimento social ou dos latifundiários? O nosso lado é o dos trabalhadores”, referindo-se ao governo.