Mais um governo de frente popular, mais uma ilusão

Sandinistas voltam a governar a Nicarágua.Vice-presidente lutou com os “contras”O ex-guerrilheiro e candidato da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), Daniel Ortega, venceu as eleições presidenciais da Nicarágua no primeiro turno, realizadas no último dia 7. Com 91,48% dos votos apurados, Ortega obteve 38,07%, contra 29% do banqueiro Eduardo Montealegre, da Aliança Liberal Nicaragüense (ALN).

A campanha eleitoral expressou a profunda polarização social existente no país. A Nicarágua é uma das nações mais pobres da América Latina, ao lado do Haiti e de Honduras. A pobreza extrema atinge 5,2 milhões e o desemprego afeta 53% da população. A miséria é a causa do enorme fluxo de nicaragüenses que migram ilegalmente para os Estados Unidos.

A derrota do queridinho de Washington
A direita apresentou-se dividida nas eleições, o que favoreceu Ortega. Seus principais candidatos foram Eduardo Montealegre e José Rizo, do Partido Liberal Constitucionalista (PLC), que recebeu 26,21%. Ligado ao atual presidente, o latifundiário Enrique Bolaños, Montealegre foi o preferido por Washington. Ex-banqueiro, trabalhou para diversos bancos norte-americanos. Foi ministro da Fazenda e responsável pelo endividamento do país em mais de US$ 400 milhões.

As correntes sandinistas também se dividiram. O Movimento de Renovação Sandinista (MRS), racha da FSLN, teve como candidato Edmundo Jarquín, antigo funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que recebeu 6,44% dos votos.

Intervenção imperialista
Derrotado em três eleições consecutivas, Daniel Ortega despontou como favorito depois que assumiu o discurso de “candidato dos pobres” e prometeu realizar programas sociais compensatórios como o Fome Zero.

O imperialismo atuou durante toda a eleição, fazendo chantagens ao dizer que a eleição de Ortega seria um “desastre” para a Nicarágua. Os EUA não esquecem as expropriações feitas pela FSLN durante a revolução sandinista. Ortega, hoje com 60 anos, tentou parecer um candidato confiável ao imperialismo, moderou seu discurso (disse que estava disposto a manter boas relações com Washington), comprometeu-se a manter as políticas de livre comércio e fez alianças com setores oligárquicos, como o ex-presidente corrupto Arnoldo Alemán. Ortega fez ainda mais: seu candidato a vice-presidente é ninguém menos que Jaime Morales, um dos líderes dos “contra”, uma guerrilha financiada e treinada pela CIA, que lutou contra os sandinistas na década de 80.


A vitória de Ortega faz parte da situação revolucionária latino-americana, que produziu uma onda de governos de frente popular – coalizão entre partidos de esquerda e burgueses.

Sua campanha mostrou as profundas transformações da FSLN desde sua queda em 1990. E serviu como exemplo da rendição de ex-guerrilheiros que abandonaram as trincheiras e se integraram ao regime. Isso também ocorreu com os tupamaros do Uruguai, que participam do governo Tabaré Vasquez, e com a Frente Nacional de Libertação Faribundo Martí, hoje apenas um partido adaptado à democracia burguesa em El Salvador.

Como em outras frentes populares latino-americanas, Ortega diz que vai “combater as desigualdades” com políticas sociais compensatórias, sem rupturas com o neoliberalismo. “Quero dar segurança ao setor privado, aos investidores nacionais e estrangeiros”, disse o ex-guerrilheiro.

Ortega também pretende conquistar a confiança dos EUA. Evitou criticar o imperialismo na campanha e até mandou retirar o refrão do hino da FSLN: “lutamos contra os ianques, inimigos da humanidade”.

Outra demonstração da moderação do candidato foram as diversas aparições ao lado do ex-presidente dos EUA Jimmy Carter (1977-1981). Um dos principais jornais do imperialismo, o Financial Times, discordou da política agressiva norte-americana, recomendando que o imperialismo se aproximasse de Ortega. “Os EUA deveriam usar sua influência para convencer o novo governo a manter (…) a economia aberta. Os EUA talvez nunca aprendam a gostar de Ortega, mas têm muito a ganhar com um envolvimento tranqüilo”, publicou o jornal.

Ortega vai também aprofundar suas alianças com a direita tradicional do país, uma vez que não possui maioria no Congresso Nacional.

Os trabalhadores da Nicarágua, com sua larga experiência revolucionária, não devem depositar nenhuma confiança em Ortega, que já os traiu no passado. A Revolução Sandinista mostrou que apenas a luta direta e independente pode conduzir os trabalhadores a uma sociedade justa, igualitária e socialista.

Das trincheiras aos palácios

Jeferson Choma

Ortega foi um dos principais dirigentes da luta armada conduzida pela FSLN que derrubou a ditadura de Anastásio Somoza, em 1979. A revolução expropriou terras e as propriedades da família Somoza e iniciou a reforma agrária.

Em 1984, Ortega foi eleito presidente. Durante a década de 80, os sandinistas foram vítimas de uma forte campanha liderada pelo então presidente Ronald Reagan. Guerrilheiros anti-sandinistas, os “contras”, foram financiados pelo imperialismo para derrotar a revolução. A guerra civil vitimou mais de 30 mil pessoas.

A direção sandinista, apesar de lutar heroicamente contra Somoza, não quis avançar em medidas que apontassem para o socialismo. Recusou-se a expropriar toda a burguesia, deixando intacta uma importante base social para o fortalecimento dos “contras”. Nisso, seguiu os conselhos de Fidel Castro, que na época disse aos sandinistas: “não façam da Nicarágua uma nova Cuba”, ou seja, disse para não expropriar a burguesia.

Na época, os sandinistas lançaram a política de “reconstrução nacional”, junto com a burguesia. Essa parceria impediu que o povo nicaragüense seguisse tomando terras e fábricas para avançar em direção ao socialismo.

Os sandinistas também não adotaram medidas que permitissem a criação de sindicatos livres e a liberdade de expressão de organizações operárias e camponesas.
O boicote econômico imposto pelos EUA, a ação dos “contras” e a recusa da direção sandinista em expropriar toda a burguesia levaram à derrota da revolução. O desgaste fez com que a FSLN perdesse as eleições de 1990 para Violeta Chamorro, apoiada pelo imperialismo.

A FSLN transformou-se em um partido de esquerda legalizado e as conquistas da revolução foram gradativamente sendo perdidas. Vários dirigentes foram posteriormente acusados de corrupção e apropriação de bens expropriados pela revolução. Ortega mora em uma mansão confiscada de um parente de Somoza.

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