As lutas começam a esquentar na França

Trabalhadores da PSA, Arcelor Mittal, Renault e Goodyear protestam no dia 9 de outubro

Crise econômica começa a afetar o país com mais intensidade e governo parte para medidas de austeridadeA polarização da luta de classes na Europa está tendo também a sua versão francesa. No dia nove de outubro, cerca de 90 mil trabalhadores (de acordo com a CGT) se manifestaram por todo o país contra os planos de demissões e as medidas de austeridade tomadas pelo governo. Esta manifestação juntou-se com a manifestação do dia 30 de setembro (cerca de 80 mil em Paris de acordo com os organizadores) e outras pequenas manifestações que estão ocorrendo, como a dos trabalhadores da Sanofi – empresa do ramo farmacêutico que pretende fechar parte das suas sedes – e dos trabalhadores da PSA Peugeot de Aulnay-sous-bois, cujo fechamento é planejado pela empresa em 2014. Nas últimas semanas, os trabalhadores destas empresas protagonizaram manifestações, reuniões públicas e paralisações contra os planos de demissões, todas reunindo algumas centenas de manifestantes.

A situação francesa não difere muito do conjunto da economia europeia: a economia francesa está em desaceleração (não deve crescer este ano) e o desemprego em alta (cerca de 3 milhões de trabalhadores), próximo a 10 % da população. De acordo com o próprio governo, cerca de 400 mil trabalhadores devem ser demitidos ainda este ano, através dos vários planos de demissão em empresas como a PSA Peugeot, Renault, Carrefour, Doux, Arcellor Mittal, etc.

A política do governo Hollande também não é muito diferente: de uma forma ou de outra ele busca baixar o “custo do trabalho”, isto é, tirar direitos para aumentar o lucro dos patrões. Neste sentido, o ministro do trabalho já declarou a intenção de uma reforma trabalhista e as primeiras medidas do governo vão no sentido da austeridade: redução do gasto para aumentar o pagamento da dívida pública (próxima a 90% do PIB), programas de precarização do trabalho para os jovens, entre outras coisas.

Infelizmente, a política dos sindicatos e dos principais partidos de esquerda não se dão no sentido de romper com esta política de austeridade. Do lado dos sindicatos, o governo organizou uma “conferência social” para estabelecer um diálogo entre sindicato, governo e patrões sobre as formas de baixar o “custo do trabalho”. Apesar da manifestação do dia nove, convocada pela CGT, ser contra algumas das medidas de austeridade, a CGT continua a dialogar com o governo sobre medidas como a reforma trabalhista, além de uma outra reforma da previdência, etc. Além disso, a CGT, ao contrário de unificar as lutas existentes, está organizando manifestações separadas de cada setor: no dia nove foram os trabalhadores dos setores industriais, principalmente do setor automobilístico; no dia 11 foram os aposentados da SNCF (empresa pública do setor ferroviário); o setor público se mobilizará no dia 23 de outubro; e assim vai…

Já os dois principais partidos de esquerda, o Partido Comunista Francês e o Partido de Esquerda (PG em francês) têm uma política dúbia. Apesar de se declararem contra a austeridade e apoiarem as mobilizações, como a do dia 30, por exemplo, eles votaram a favor da correção do orçamento de 2012 proposta por Hollande, correção esta que continua no mesmo sentido do governo anterior de Sarkozy: corte de verbas, não contratação de funcionários públicos, etc. Os dois partidos, apesar da crítica a algumas medidas do governo, se declaram do lado da “maioria de esquerda” que governa, isto é, objetivamente eles são apoiadores do governo.

Esta política conduzida pelas centrais sindicais e pelo PCF e PG de fazer “pressão” ao governo, num momento em que a crise aperta, não tem outro resultado do que o isolamento das lutas e a derrota das mesmas. Somente a convergência das lutas e a rejeição total das medidas de austeridade poderão apontar uma saída para a classe trabalhadora francesa.