Lucia Pádua: “A epidemia de dengue era uma tragédia anunciada”

O Opinião Socialista entrevistou Lucia Pádua, agente de saúde mata-mosquito que esteve na linha de frente da luta pela reintegração funcionários demitidos em 1999 pelo então ministro da Saúde, José Serra. Lucia também é diretora da Federação Nacional dos Trabalhadores em Previdência Social, Saúde e Trabalho (Fenasps) e do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência do Rio de Janeiro (Sindsprev-RJ). Na entrevista, ela revela que os governos sabiam do risco iminente de epidemia e que, mesmo assim, não tomaram nenhuma providência.

Opinião Socialista – Qual é a responsabilidade dos governos na epidemia? Era possível evitá-la?
Lucia Pádua –
Totalmente. A epidemia era uma tragédia anunciada desde 2005. O ministro da Saúde [José Gomes] Temporão, quando assumiu o cargo, declarou que o Rio de Janeiro estava perdendo a guerra contra o vetor da dengue, o mosquito aedes aegypti. Disse também que uma de suas prioridades seria resolver esse problema, com investimentos públicos, com uma política coordenada entre os municípios para combater o aedes, além da contratação de mais agentes de saúde. O secretário de saúde do Estado [Sérgio Côrtes] também reconheceu o problema da dengue no Rio. Todos eles tinham a noção exata de que isso poderia acontecer. Mas o que foi feito efetivamente nos últimos anos? Nada.

Os governos ignoraram o problema. Não implementaram nenhuma política permanente de combate ao mosquito. O trabalho necessário e permanente, como o controle dos focos do mosquito, não foi realizado.

Muitos especialistas já previam, inclusive, o retorno da dengue tipo 2. Hoje a mortalidade da atual epidemia é muito maior do que a última epidemia de dengue em 2002. A dengue tipo 2 torna a doença mais agressiva. Isso explica também o índice de letalidade que está ocorrendo.

O ministro Temporão anunciou medidas para combater a epidemia. Como você vê isso?
São medidas formais. Nós alertamos o ministro. Nosso sindicado e a federação realizaram uma audiência com o ministro Temporão, na qual entregamos um documento mostrando o problema e propondo medidas que deveriam ser tomadas para impedir a epidemia.

Mas o governo federal se recusou tomar qualquer medida para impedir o avanço da dengue. Alegaram na ocasião que não estariam dispostos a realizar algum tipo de ação que se assemelhasse a uma intervenção do governo federal na cidade do Rio de Janeiro. Diziam que isso poderia se chocar com o prefeito César Maia. Na verdade, eles priorizaram o jogo político e não a saúde da população.

O ministro anunciou a criação de um gabinete, além de medidas para combater a epidemia. Como você vê isso?
De fato, circulou pela imprensa que estava sendo formado um gabinete de crise, pelo governo federal, estadual e a prefeitura. Nós tivemos uma reunião com esse gabinete e levamos uma série de questionamentos. Uma das coisas que eles não querem fazer é taxar esse gabinete como o “gabinete da crise”, porque pra eles não existe crise alguma. Não existe uma epidemia. Como [para eles] não tem crise, não existe gabinete de crise. Foi isso que nos falaram há dois dias atrás na reunião [realizada no último dia 26/03].

As medidas que eles anunciaram, como convocar o exército, o corpo de bombeiros etc, na reunião fechada conosco, eles admitiram que tais medidas são apenas factóides, cujo objetivo é mostrar para a população que eles estão fazendo alguma coisa. Mas eles sabem claramente que essas medidas não vão resolver nada.

Qual é a situação dos trabalhadores “mata-mosquitos”?
É uma situação de perplexidade. É importante lembrar que o governo FHC demitiu cinco mil agentes de saúde de combate à dengue em 1999, o que levou a uma epidemia violenta em 2002. Depois de uma árdua luta, esses trabalhadores foram reintegrados em 2005.

No entanto, os 3.500 agentes que atuavam na capital não foram aceitos pela prefeitura. A ausência de trabalhadores fez com que a prefeitura mudasse sua metodologia de trabalho e adotasse um procedimento completamente fora dos padrões para combater o aedes e os focos geradores da dengue. A prefeitura não entrava nos bairros e favelas, pois dizia que não queria se expor ao tráfico de drogas. Na verdade, isso foi apenas uma desculpa para não contratar mais agentes de saúde.
Outro argumento utilizado é de que os servidores federais da Funasa [Fundação Nacional de Saúde] poderiam ser um “mau exemplo” aos servidores da prefeitura, em função do seu histórico de lutas e mobilização. Diziam que esse “mau exemplo” contaminaria os funcionários da prefeitura. Quer dizer, é de uma irresponsabilidade completa e absoluta.

E a crise da saúde no Rio de Janeiro?
Independente da epidemia, a situação do sistema de saúde é caótica por si só. O Rio é o estado com mais capacidade instalada. No entanto, a maioria das unidades tem atendimento insuficiente. Em função da falta de investimento do poder público, o sistema de saúde opera apenas com 20% ou 30% da sua capacidade. A atenção básica de tratamento de saúde praticamente não existe. Não existem consultas de especialidades médicas nos postos de saúde e não há uma rede básica para atender a população pobre. O que resulta em sobrecarga dos hospitais de emergência, que acabam atendendo os casos mais simples, que poderiam ser resolvidos num posto de saúde.

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