Lenin e a Revolução de Outubro


“Revoluções são locomotivas da história, disse Marx. Revoluções são festas dos oprimidos e explorados. Em nenhum outro momento, as massas populares encontram-se em condição de avançarem tão ativamente enquanto criadores de uma nova ordem social como no tempo da revolução.”
Lenin

Na história da humanidade de todos os tempos, a Grande Revolução Russa de Outubro de 1917, enquanto prólogo da revolução socialista mundial, é o marco real e triunfante de maior relevância na longa luta de classes internacionalista, travada pelos trabalhadores e todos os seus aliados oprimidos por Pão, Paz e Terra, rumo à edificação de um novo mundo : um mundo sem fronteiras, autenticamente humanizado, imune a todas as formas de exploração do homem pelo homem e de nações por nações, livre de toda a opressão dos Estados e das dilacerações sociais sangrentas, emergentes das sociedades cindidas em classes irrenconciliavelmente hostis.

Entrevendo o jubileu dos 80 anos do desaparecimento de Lênin não como um evento estático, regulado por um calendário de um período definitivamente concluído, contemplamos sua morte e o Outubro Vermelho de 1917 como ocorrências dinâmicas de um fluxo permanente em que assumem colossal importância para a vitória das lutas revolucionárias de emancipação dos explorados e oprimidos, seja do nosso presente histórico, seja do futuro vindouro das novas gerações.

  • I.) DIREÇÃO MARXISTA DAS LUTAS PROLETÁRIAS NA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO
  • II.) DIALÉTICA DA TEORIA E DA POLÍTICA NO PROGRAMA DA REVOLUÇÃO DO PROLETARIADO HEGEMÔNICO
  • III.) TÁTICA REVOLUCIONÁRIA DO PROLETARIADO PARA A TOMADA DO PODER NA RÚSSIA DE 1917
  • IV.) ESTRATÉGIA REVOLUCIONÁRIA PROLETÁRIA
  • V.) DIALÉTICA DA LUTA DE CLASSES NA VITÓRIA DO PROLETARIADO HEGEMÔNICO
  • UMA CONCLUSÃO EM ABERTO: ABANDONO E DEFORMAÇÃO CONTRA A DEFESA DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO E DE LENIN


    I.) DIREÇÃO MARXISTA DAS LUTAS PROLETÁRIAS NA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

    Se a história da Revolução de Outubro de 1917 consagrou da maneira mais plena, em meio às atrocidades da I Grande Guerra Mundial, o método marcadamente consciente, programático e organizado de intervenção dirigente do Partido Bolchevique – vanguarda de luta do proletariado hegemônico – na revolução socialista internacionalista, Lênin, enquanto principal protagonista desse partido e de uma nova Internacional Revolucionária, Presidente do Conselho dos Comissários do Povo do novo Estado Proletário e autor dos primeiros Decretos do Governo Revolucionário Operário e Camponês, mentor ideológico da Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado e inspirador da Primeira Constituição da República Socialista Soviética, elevou o Outubro de 1917, ocorrido em um dos países mais atrasados no âmbito da cadeia européia do imperialismo capitalista, povoado por uma vasta massa de camponeses pobres, à condição de paradigma maior a ser tomado sempre em consideração por todos os modernos projetos de vitória proletária na revolução mundial contra o capital e o latifúndio.

    Em meio a legiões de centenas de milhares de lutadores operários e camponeses pobres, soldados e marinheiros, intelectuais e profissionais revolucionários, prodigiosamente perspicazes, tenazes e abnegados – entre os quais se destacaram Trotsky e Sverdlov, Smilga e Muralov, Frunze e Antonov-Ovseienko tal como tantos outros – Lênin foi a estrela guia de primeira grandeza no cenário da Revolução de Outubro de Toda a Rússia Soviética, a tal ponto que o próprio esplendor histórico dessa revolução encontra-se inseparavelmente associado ao seu nome, à sua vida e atividade.

    Ingressando no movimento revolucionário russo em 1887, aos 17 anos, e não abandonando jamais a concepção de mundo de Marx e Engels, Lênin emergiu, no cenário político contemporâneo, marcado pelo advento e agonia do imperialismo, como o mais expressivo dirigente partidário da conquista da hegemonia do proletariado sobre os demais setores, estamentos e classes sociais oprimidas, enquanto estratégia político-revolucionária de incorporação das mais amplas massas populares nos processos revolucionários violentos, voltados à tarefa histórica decisiva de destruição do Estado da ínfima minoria dos exploradores e opressores, na prolongada trilha de construção de uma sociedade sem classes e de emancipação de toda a humanidade confrangida.

    As vitórias que conduziram ao Outubro de 1917 e dela decorreram foram factíveis, em primeiro lugar, porque soube desenvolver, incansavelmente e com agudeza de espírito, a dialética no trato da teoria científico-socialista de Marx e Engels , compreendendo que os proletários, por não poderem, por seus próprios esforços, atingir senão uma consciência sindical-econômica mais ou menos nítida – em cujo quadro prevalece, então, inevitavelmente a dominação ideológico-burguesa, historicamente mais sólida, complexa e opulenta -, necessitam do partido marxista-revolucionário para transformarem em consciência toda a sua intuição acerca das novas tarefas que envolvem a luta revolucionária de edificação do socialismo .
    Assim como Engels, Lênin destacou que o socialismo, uma vez tornado ciência, exige ser tratado como tal, i.e. deve ser sistematicamente estudado, tudo dependendo de se propagar, com zelo crescente, entre as massas trabalhadoras a visão cada vez mais clarificada da luta socialista, fundindo, encadeando, unindo (zusammenschliessen), sempre mais firmemente, partido revolucionário e organizações sindicais.

    Em sua concepção, a educação efetiva das massas lutadoras não pode assumir jamais caráter escolástico ou acadêmico – o qual as desmoraliza e lhes insufla preconceitos burgueses-liberais e sociais-reformistas acerca da mitologia moderna das Deusas da Justiça, Igualdade e Fraternidade -, mas sim deve estar sempre integrada à sua própria luta política independente e especialmente revolucionária, posto que apenas essa é capaz de realmente formar as classes exploradas e oprimidas, desvendando-lhes a magnitude de seu próprio poder, estimulando suas habilidades e forjando sua vontade revolucionária.

    Por sua vez, o partido marxista-revolucionário deve aprender a descobrir, estimular, promover, dinamizar o enorme talento prático-organizativo possuído pelas próprias massas lutadoras, impedindo resolutamente que o capital e o latifúndio o golpeie, destruindo-o completamente.

    Lênin manejou a dialética de Marx e Engels sobretudo contra sua degeneração sofístico-metafísica, destituída de conteúdo revolucionário, promovida não apenas pelos próceres do socialismo da colaboração de classes nacional-chauvinista (no estilo Scheidemann, Plekhanov etc.), reformista-pacifista (Bernstein, Martinov) e paficista-democrático (Kautsky, Martov), mas também por renomados bolcheviques frente-populistas e defensistas da pátria burguesa reacionária na guerra imperialista (Stalin, Kamenev, Rykov), opositores declarados do método da insurreição socialista para a destruição do Estado Burguês e edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado (Kamenev, Zinoviev, Lunatcharsky, Riazanov), conciliadores de bolcheviques insurrecionais com antípodas da insurreição (Stalin), antagonistas da formação de um governo revolucionário exclusiva ou hegemonicamente bolchevique (Lunatcharsky, Kamenev, Riazanov), propugnadores do esquerdismo comunista, contrário ao defensismo da pátria socialista na Guerra Civil e Revolucionária com forças armadas proletárias realmente existentes e aptas a impulsioná-lo (Bukharin, Radek).

    Mais do que isso : sem qualquer temor de permanecer em minoria ou de modo até mesmo isolado, sem qualquer receio de resultar derrotado ou ser tachado de excêntrico no quadro do movimento revolucionário russo e internacional, Lênin combateu todas as diversas vertentes políticas que fomentavam direta ou indiretamente o socialismo pequeno-burguês e utópico, o terrorismo populista, o espontaneísmo criticista, o economicismo sindicalista, o reformismo social, o inorganicismo menchevique-partidário, a subalternidade ou o isolacionismo do proletariado na revolução em face do campesinato e da burguesia, o liquidacionismo do partido legal e clandestino, o eleitoralismo estatal-democratista, quer de linhagem chauvinista, quer de índole pacifista, como meios supostamente viáveis de atingir-se a vitória nas revoluções proletárias e o início da construção de uma sociedade socialista .
    Desmascarando, sempre com palavras simples e contundentes, não apenas os sociais-oportunistas de todos os matizes situados fora, mas também protagonizando resolutamente tendências, frações e rupturas contra bolcheviques sectário-abstencionistas, eclético-conciliadores, komitetchiks-burocratizados situados dentro do próprio partido revolucionário, como forma de depurar, fortalecer e aprimorar o instrumento orgânico de preparação e direção das lutas do proletariado contra a selvajeria do capital e do latifúndio, Lênin defendeu inabalavelmente o princípio maior da unidade do partido revolucionário proletário, fundado na rigorosa observância do centralismo democrático, exercido em congressos, conferências, comitês, células distritais e fabris, regularmente operantes e ocupados não exclusivamente com discussões sobre regras organizativas internas, mas sobretudo com o exercício concreto da apreciação marxista dos novos fatos objetivos e definição de tarefas revolucionárias atualizadas, com base em informações específicas sobre funções desempenhadas e a desempenhar no cenário da luta de classes.

    Nesse preciso contexto, estimulou constantemente processos de fusão das forças bolcheviques com novos agrupamentos combativos que, em dado momento histórico, regressaram ao legítimo sendeiro da revolução proletária.

    Entendendo que um partido marxista-revolucionário não pode ser erigido sem a mais perfeita e fiel clareza acerca dos matizes essenciais nele existentes, sem luta aberta entre suas várias tendências, sem informar as massas sobre que dirigentes e agrupamentos partidários perseguem essa ou aquela linha política em dado momento histórico , salientando, porém, a importância da disciplina de ferro do partido proletário enquanto forma de combater a desorganização e definindo-a como unidade da ação revolucionária, liberdade de discussão e criticismo – sendo apenas essa disciplina digna de um partido democrático da classe avançada -, a concepção de vida político-partidária de Lênin veio a revelar-se como sendo o oposto diametral do monolitismo cripto-partidário de Stalin e seus asseclas, praticado a pretexto de impulsionarem a “bolchevização” dos partidos da Internacional Comunista.

    Permanecendo sempre muito distante de ser adulado pela grei dos que alegadamente se reivindicavam como autênticos porta-vozes e defensores da causa dos trabalhadores, Lênin prestou com sua atividade perseverante e sagaz um valioso exemplo para a luta inquebrantável a ser impulsionada pelos marxistas revolucionários não apenas contra os paredros do oportunismo e do ecletismo teórico-politico, senão também contra os corifeus do indiferentismo crítico e do relaxamento organizativo, em questões relacionadas com as perspectivas de novos Outubro Revolucionários.

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    II.) DIALÉTICA DA TEORIA E DA POLÍTICA NO PROGRAMA DA REVOLUÇÃO DO PROLETARIADO HEGEMÔNICO

    E, com efeito : a personificação máxima de direção teórico-doutrinária e político-pedagógica do partido bolchevique e do Estado Soviético em sua fase efetivamente revolucionária encontra-se condensada na militância de Lênin.

    Lênin entendeu, em toda a sua mais profunda plenitude, que a genial teoria revolucionária do socialismo científico de Marx e Engels, por exigir permanentemente uma análise estritamente exata e concretamente verificável, não pode ser jamais considerada como uma crença doutrinária enrijecida, composta por categorias analógicas abstratas e genéricas, decoradas e recitadas irrefletidamente por centenas de vezes, profissão de fé apostólica, credo metafísico petrificado e imutável.

    Pelo contrário, operou com os ensinamentos do marxismo de modo dialético-revolucionário, considerando-os como um guia para a ação (Anleitung zum Handeln), orientação para o agir, instrução para a prática não de colaboração de classes e prostração diante da dominação burguesa e latifundiária, mas de organização, mobilização e luta permanente, independente e implacável das mais amplas massas revolucionárias, sob a direção hegemônica do proletariado.

    A derrubada do capitalismo e a construção do socialismo – por constituirem objetivos fundamentais e de maior alcance em nossa idade histórica – subordinam outros objetivos programáticos interconexos e condições específicas de agir revolucionário, estratégico e tático, de menor amplitude histórica e geográfica, emergentes de modificações e variações circunstanciais que alteram, mais freqüentemente, com energia e rapidez inusitadas, estágios, períodos e situações da dinâmica viva da luta de classes.

    Quanto ao critério de prova de sua vigorosa dialética do marxismo revolucionário, Lênin compreendeu inteiramente que a questão consistente em saber se dadas posições subjetivas correspondem à verdade objetiva pode ser apenas decidida enquanto questão prática, pois é na prática que se há de demonstrar a verdade, i.e. a realidade e o poder de determinado pensamento. Fora dela, a questão da realidade ou irrealidade do pensamento é uma questão puramente escolástica e acadêmica.

    Sem pretender reduzir a dialética materialista a uma simples filosofia da práxis, Lênin destacou que a prática é sempre superior ao conhecimento teórico : ela possui não apenas a dignidade da universalidade, senão também é portadora da atualidade imediata.

    Assim, ao chegar à Rússia em 3 de abril de 1917, poucos dias após a conclusão vitoriosa da Revolução Democrático-Burguesa Russa de Fevereiro de 1917, Lênin trazia consigo uma clara compreensão do novo estágio de contradições materiais e superestruturais do capitalismo, estágio esse surgido desde o início do século XX e agravado com a explosão da I Grande Guerra Mundial, em 1914.

    Considerando o programa da revolução como uma verdadeira conclamação de concepções e consignas – palavra de origem grega πρόγραμμα -, Lênin posicionou-se, então, em suas Teses de Abril, em favor de uma ampla revisão do antigo Programa do Partido Operário Social-Democrático Russo – Bolchevique (POSDR-B), adotado em 1903, no II Congresso de Bruxelas e Londres.

    Em seus escritos revolucionários, defendeu que, já no início do século XX, o capitalismo mundial atingira o estágio do imperialismo, um estágio em que os conglomerados capitalistas – cartéis, trusts, consórcios internacionais – haviam assumido decisiva importância, ao substituirem o capitalismo competitivo pelo capitalismo monopolista, sendo que o capital bancário enormemente concentrado fundira-se com o capital industrial, gerando o capital financeiro, a exportação de capital para países estrangeiros assumira vastas dimensões e todo o mundo havia sido dividido, territorialmente, entre os países mais ricos, iniciando-se a partilha econômica do mundo entre as grandes firmas internacionais.

    Na medida em que o imperialismo não modificara, entretanto, os caráteres essenciais do capitalismo, considerado enquanto sistema sócio-econômico, surgia propriamente como o estágio mais elevado e moribundo do capitalismo, no sentido de estágio de transição mais avançado rumo ao socialismo.

    Assim, os novos tremendos obstáculos situados no caminho da luta econômica e política do proletariado, a ruína, os horrores e a brutalização da I Grande Guerra Mundial haviam transformado o estágio imperialista de desenvolvimento do capitalismo na era da revolução proletária socialista, em que a vitória final do proletariado tornara-se inevitável.

    Fundando-se nos estudos militares de Marx e Engels e nos artigos sobre história e filosofia da guerra de Franz Mehring , Lênin comparou e diferenciou precisamente as diversas modalidades de conflagrações militares travadas entre nações e classes, contemplou as condições econômico-históricas, jurídico-diplomáticas e político-governamentais, os objetivos e o caráter de classe das guerras, constatou serem elas inseparáveis do sistema político que as engendraram, recuperando, com grande talento, para o marxismo revolucionário os ensinamentos dialético-hegelianos de Carl von Clausewitz, um dos mais expressivos teóricos militares do velho Império Prussiano.

    Assim, demonstrou nitidamente que, nas sociedades cindidas em classes irreconciliavelmente antagônicas, sendo toda e qualquer conflagração bélica fenômeno inafastável e continuação da política através de outros meios, i.e. com meios violentos, as guerras travadas entre as nações capitalistas industrializadas já a partir do início do século XX davam continuidade à política de suas burguesias reacionárias, decrépitas, rapazes, predatórias, dedicadas à pilhagem das colônias, opressão da nações e aniquilação dos movimentos operários, bem como redivisão de sua supremacia econômica e militar, política essa praticada já ao longo de diversas décadas anteriores à eclosão do conflito armado.

    As novas guerras pela dominação do mundo e de mercados para o capital financeiro, pela subjulgação de nações menores tornado-se inevitáveis, haviam adquirido a natureza de guerras imperialistas, i.e. guerras de continuação da política de anexações, conquista e roubo, dinamizadas por diferentes grupos de potências, gigantes supremos, bandos de ladrões capitalistas nelas envolvidos, em cujo contexto resultaria absurdo culpar ou defender o imperialismo de um ou de outro bloco.

    Apoiando-se no Manifesto da Basiléia de 24 de Novembro de 1912 e estigmatizando os sociais-patrióticos da II Internacional, Lênin desvendou corretamente os objetivos perseguidos pelos dois principais grupos inimigos de governos burgueses imperialistas reacionários na I Grande Guerra Mundial, secundados por seus aliados menores – o grupo de potências anglo-francês-russo e o austro-húngaro-alemão -, defendeu o derrotismo para todos esses governos – inclusive o desbarato do governo patriótico-beligerante de seu próprio país -, bem como a transformação da guerra imperialista em guerra revolucionária em prol da erradicação da dominação capitalista, como a única forma efetiva de por termo à guerra então em andamento .
    Além disso, Lênin defendeu a criação de uma nova Internacional Revolucionária, enquanto a melhor forma de aproveitamento da crise econômica e política gerada pelos recontros militares e intensificação da luta em prol da revolução socialista em todo o mundo e, em particular, na Rússia, elo mais débil da cadeia mundial do imperialismo capitalista.

    Destacando a sempre mais acentuada desigualdade de desenvolvimento econômico e político dos países capitalistas na época imperialista, Lênin confirmou a possibilidade de vitória insurrecional da Revolução Socialista, de início em alguns países capitalistas – ou, até mesmo, em um único deles, considerado isoladamente – os quais, dando os primeiros passos na trilha do longo processo de construção do socialismo, levantar-se-iam, em armas, contra o mundo capitalista restante .
    Assim, posicionou-se, programaticamente, em favor das consignas de “milícia” e “armamento do povo”, fundadas no fomento da instrução militar do proletariado pela organização marxista-revolucionária, visando à necessária deflagração da insurreição, repudiando, inversamente, as reinvidicações de “desarmamento”, “social-pacifismo” e “repúdio de todas as formas de guerra”.

    Divergindo de Rosa Luxemburg, a grande águia revolucionária do marxismo revolucionário, Lênin defendeu também a possibilidade e os objetivos das guerras de libertação das nações subjulgadas contra a anexação imperialista, praticadas em defesa de seu direito de secessão e auto-determinação, em plena época do imperialismo.

    Seguindo Marx e Engels, Lênin destacou que os marxistas revolucionários não são oponentes desqualificados de todas as guerras, senão muito pelo contrário: atuam como fervorsos adeptos e combativos participantes seja das Guerras de Libertação Nacional, seja das Guerras Civis e Revolucionárias, podendo conduzir essas últimas diretamente ao defensismo da pátria socialista.

    Repudiando a velha designação social-democrática, o novo nome partidário que, segundo Lênin, deveria ser doravante adotado pelos marxistas revolucionários russos, seja sob o ângulo científico, seja sob o aspecto da mais eficiente conscientização do proletariado, haveria de ser Partido Comunista (Bolchevique) .
    Ainda no domínio da dialética da teoria política marxista, Lênin foi capaz de concluir, genialmente, logo após o encerramento do período pacífico do processo revolucionário russo, em 3 e 4 de julho de 1917 , que, com a deflagração da I Guerra Mundial Imperialista, a reserva de Marx, contida no 18 Brumário de Luis Napoleão, concernente à necessidade de despedaçamento da máquina militar e burocrática do Estado Burguês apenas no quadro das revoluções proletárias do continente Europeu, estava, essencialmente, envelhecida.

    Na Inglaterra e nos Estados Unidos da América, últimos representantes da antiga liberdade anglo-saxônica – consagradora da ausência do militarismo e da burocracia administrativa existentes nos Estados Burgueses da Europa continental -, já haviam emergido as mesmas instituições militaristas e burocráticas características da violenta dominação burguesa.

    A partir de então, a condição preliminar de toda e qualquer revolução proletária também nesses dois países passava a ser, igualmente, a ruptura e destruição de suas máquinas estatais burguesas, engendradas para reprimir violentamente as classes dominadas.

    Essa sua nova formulação, posicionou, em escala incomparavelmente mais ampla, a tarefa de concentração de todas as forças da revolução proletária para a destruição do poder dos Estados Burgueses da atualidade.

    Não descurando jamais da imensa importância que possuem os métodos de esgotamento gradual das forças dos inimigos de classe, através do fortalecimento e conquista permanente de novas posições revolucionárias do proletariado na conquista da maioria das massas revolucionárias, Lênin destacou que se mostra ainda decisiva e atualíssima a política marxista-revolucionária de derrubada do capitalismo pela via insurrecional violenta da luta de classes, hegemonizada pelo proletariado no quadro de coalizão selada com seus mais autênticos aliados oprimidos, sendo que apenas com o despedaçamento do aparelho do Estado colocado a serviço das ínfimas minorias exploradoras e opressoras, autocráticas, latifundiárias e burguesas, resulta, pois, aberto o sendeiro de construção de um Estado tipo Comuna (Gemeinwesen), a Ditadura Revolucionária do Proletariado, incorporadora da mais ampla e mais avançada Democracia Proletária, forma transitória rumo ao atingimento de uma sociedade sem classes e sem Estado, i.e. o socialismo, fase inferior da sociedade comunista.

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    III.) TÁTICA REVOLUCIONÁRIA DO PROLETARIADO PARA A TOMADA DO PODER NA RÚSSIA DE 1917

    Propagandear o marxismo revolucionário como doutrina abstrata, deduzida a partir de uma fórmula lógico-imutável, como teoria da qual emerge uma gama de corolários universalvemente válidos para ascender à verdade a ser por todos finalmente admitida, significou sempre para Lênin difundir metafísica entre as massas exploradas e oprimidas, ignorando que também o socialismo científico encontra-se exposto à dialética da mutação histórica, partindo não de princípios, mas sim de fatos objetivos que avançam segundo processos vivos da luta de classes e do mundo circundante.

    Já nos primeiros dias após a mais completa conclusão vitoriosa da espontânea Revolução Democrático-Burguesa de Fevereiro de 1917 que, em meio à I Grande Guerra Mundial, trouxe novamente à luz os Sovietes, antes liquidados na Revolução de 1905 – 1907, e derrubou o milenar absolutismo czarista e sua nobreza latifundiária, levando ao poder um Governo Provisório de Capitalistas e Latifundiários, declaradamente pró-imperialista e patriótico-beligerante, encabeçado por Miliukov e Guchkov, Kerensky e Lvov -, Lênin compreendeu, ainda em seu exílio na Suíça, a necessidade de ser elaborada, imediatamente, em palavras simples e claras, uma nova tática revolucionário-permanentista de continuada transição na revolução russa, a ser desenvolvida nos meses a seguir, como forma de consolidar a aliança de poder entre o proletariado hegemônico e o campesinato pobre: nenhuma confiança, nenhum apoio ao novo governo provisório burguês-latifundiário; Kerensky é especialmente suspeito; o armamento e a milícia do proletariado são as únicas garantias; eleições imediatas para o Conselho Municipal de Petrogrado; nenhuma aproximação com outros partidos.

    Por não representarem, então, as eleições para a Assembléia Constituinte nada mais do que promessa vazia e distante, Lênin referiu-se muito mais às eleições imediatas para o Conselho Municipal de Petrogrado, destacando que serviriam para organizar e fortalecer as posições revolucionárias do proletariado.

    Em suas 5 Cartas de Longe, redigidas todas elas ainda na Suíça, Lênin desenvolveu essa sua nova tática revolucionária, posicionando-se, além disso, claramente, contra o patriotismo burguês, exigindo a denúncia dos tratados de aliança com os imperialistas, a transformação da guerra imperialista em guerra revolucionária, bem como a formação de uma milícia e uma República do Proletariado, apoiada pelos trabalhadores rurais, setores mais pobres dos camponeses e moradores das cidades, como meio de assegurar Pão, Paz e Liberdade.

    Lênin posicionou-se, então, em favor da luta por um Estado Proletário Revolucionário mediante o impulsionamento de uma segunda revolução na Rússia: uma Revolução Proletária, apoiada pela vasta maioria revolucionária dos camponeses pobres, que, destruindo completamente a velha máquina de Estado, transferiria o poder político dos capitalistas e latifundiários para um Governo dos Trabalhadores e Camponeses Pobres, organizado segundo o modelo dos Sovietes e baseado na organização da milícia proletária e de todo o povo oprimido em armas, a fim de serem empreendidos os primeiros passos rumo ao socialismo que, na Rússia, não poderia ser atingido de um só golpe, senão enquanto resultado de uma séria de medidas de transição.

    Para Lênin, o êxito definitivo da construção do socialismo na Rússia poderia, porém, apenas ser atingido se estimulado ativamente pela vitória da revolução proletária socialista nos principais países capitalistas da Europa Ocidental e dos EUA, emergindo das contradições insolúveis decorrentes da guerra imperialista .
    Em seu modo profundamente internacionalista de apreciar a luta de classes, Lênin entendeu que o proletariado russo não poderia, com suas próprias forças, conduzir a Revolução Socialista a uma conclusão vitoriosa, porém poderia, em certo sentido, iniciá-la, devendo tomar o poder e criar as melhores condições para que seu principal e mais confiante aliado de classe – o proletariado da Europa Ocidental e dos EUA – aderisse à batalha decisiva pelo socialismo.

    Tendo justamente em conta os prerequisitos econômicos de uma Revolução Socialista, sabia perfeitamente que, na Rússia, seria incomensuravelmente mais fácil para o proletariado iniciá-la e imensamente mais difícil continuá-la, ao passo que, no ocidente industrializado, mais difícil seria iniciá-la e mais fácil, continuá-la .
    Não lutando apenas em benefício próprio, senão em prol da construção do socialismo em escala mundial, o proletariado hegemônico e triunfante na Rússia haveria de perecer, a menos que fosse capaz de resistir até receber o poderoso apoio dos trabalhadores revolucionários vitoriosos nos principais países do imperialismo capitalista.

    Porém, se houvesse de sucumbir, teria iniciado a Revolução Socialista Mundial e servido de exemplo para que outros aprendessem com a sua exemplar experiência de luta.

    Em virtude de sua nova elaboração tática opor-se abertamente à orientação defendida pela maioria de seu próprio partido, composta, em março de 1917, por bolcheviques frente-populistas, irrestritos e condicionados, bem como etapistas-defensistas da pátria burguesa reacionária na guerra imperialista e apoiadores da mais indistinta unificação dos adeptos de todos os gêneros da Social-Democracia Russa (Stalin, Kamenev, Rykov, Noguin e seus seguidores), apenas a primeira das cartas de Lênin foi publicada no “Pravda (A Verdade)”, em 21 e 22 de março, ainda assim com diversas censuras.

    Por iniciativa desses bolcheviques, todas as demais cartas de Lênin não vieram a ser publicadas em 1917. Surgiriam apenas em 1924, ao passo que a redação integral de sua primeira carta viria a ser conhecida tão somente em 1949.

    Sobre a política inteiramente anti-marxista dos bolcheviques frente-populistas e defensistas do patriotismo burguês, pronunciou-se, com grande hipocrisia, Stalin, um de seus principais porta-vozes, fazendo-o da seguinte forma, sem demonstrar, porém, ter apreendido efetivamente algo de efetivamente revolucionário, a partir desse lamentável episódio histórico:

    “Tratava-se de uma poderosa virada na história da Rússia e de um giro jamais existente na história do nosso Partido. A velha plataforma prérevolucionária de derrubada direta do governo era clara e determinada, porém não correspondia mais às novas condições de luta.

    Agora, já não era mais possível orientar-se diretamente para a derrubada do governo, pois esse último se encontrava ligado com os Sovietes, os quais estavam sob a influência dos “defensores da pátria”, sendo que o Partido teria de conduzir uma luta superior às suas forças tanto contra o governo como contra os sovietes.
    Porém, não se podia impulsionar uma política de apoio ao Governo Provisório, pois era um governo do imperialismo. Era necessário uma nova orientação do Partido, nas novas condições de luta. O Partido (sua maioria) procurou, tateando, alcançar essa nova orientação.

    Adotou uma política de pressão dos Sovietes sobre o Governo Provisório na questão da paz e não se pôde decidir a marchar imediatamente para diante, saindo da velha consigna, Ditadura do Proletariado e do Campesinato, rumo à nova consigna Poder dos Sovietes.

    Essa política do meio termo havia sido calculada para dar oportunidade aos Sovietes de contemplarem, através das questões concretas da paz, a verdadeira essência imperialista do Governo Provisório, dela, assim, afastando-se.

    Porém, foi uma posição profundamente errada, pois fazia proliferar ilusões pacifistas, entornava água no moinho dos “defensistas da pátria”, dificultando a educação revolucionária das massas.

    Essa posição equivocada compartilhei, então, com outros companheiros do Partido, dela afastando-me inteiramente ao aderir às Teses de Lênin.”

    Lênin conseguiu negociar seu regresso à Rússia, independentemente de compromisso de sustentação do defensismo patriótico-burguês, após impedimentos de todas as espécies opostos seja pelos governos imperialistas da Inglaterra e da França, seja pelo novo Governo Provisório Burguês-Latifundiário Russo.

    Chegando em Petrogrado, na noite de 3 de abril, e defrontrando-se com a Dualidade de Poderes – Sovietes e Governo Provisório – então objetivamente existente, Lênin ouviu com atenção e apoiou-se na vanguarda proletária para defender, intrepidamente, a continuidade do processo revolucionário rumo ao socialismo e a luta pela conquista da maioria nos Sovietes, visando a tornar possível a passagem de todo o poder de Estado para as mãos do proletariado e de seus aliados de luta .
    Tendo em conta que as primeiras semanas posteriores à Revolução Democrático-Burguesa de Fevereiro de 1917 permitiram à Rússia tornar-se o país dotado da mais ampla liberdade política entre todos os demais beligerantes – não se recorrendo momentaneamente ao emprego de violência para repressão das massas exploradas e oprimidas -, Lênin entendeu que o primeiro passo a ser dado no sentido da Revolução Proletária seria a paciente e persistente conscientização das massas, adaptada às suas necessidades práticas, sobre a nova situação política e os erros táticos da direção soviética menchevique-chauvinista e socialista-revolucionária(SRs) que promovia voluntariamente a transferência do poder dos Sovietes à aliança burguesa-latifundiária e seu Governo Provisório.

    Sustentando-se sobretudo nas forças proletárias de Vyborg, em Petrogrado, dos Urais e de outros grandes centros da Rússia , Lênin seguiu precisando, em suas Teses de Abril, sua dialética tática em face da Dualidade de Poderes, de modo a conduzir o proletariado hegemônico à vitória na revolução: nenhuma concessão ao «defensismo», nenhum apoio ao governo provisório burguês-latifundiário; os Sovietes de Deputados Trabalhadores, Soldados e Camponeses são a única forma possível de governo revolucionário; nenhuma República Parlamentar, mas sim República dos Deputados Trabalhadores, Soldados e Camponeses da base ao vértice; confisco e nacionalização de todas as terras, a serem tomadas e colocadas à disposição dos Sovietes de Deputados Trabalhadores Rurais e Camponeses; fusão de todos os bancos em um único banco nacional, submetido ao controle dos Sovietes de Deputados Trabalhadores; criação de uma nova Internacional Revolucionária contra os chauvinistas e os centristas-conciliacionistas.

    E destacou: sem os Sovietes de Deputados Trabalhadores, Soldados e Camponeses, a convocação da Assembléia Constituinte é uma promessa vazia e o seu sucesso é impossível.

    Opondo-se à tática precipitada de simples e imediata transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista na Rússia de 1917, bem como à consigna de instauração de um isolado “Governo dos Trabalhadores”, Lênin frizou que a tarefa do proletariado na próxima revolução seria não a de “introduzir” imediatamente o socialismo, mas sim apenas permitir que, nesse domínio, a produção social e a distribuição dos produtos fossem colocados prontamente sob o controle dos Sovietes de Deputados Trabalhadores, enquanto sólidos passos iniciais rumo ao socialismo .
    Nesse sentido, ressaltou que seria necessário clarificar a consciência das pessoas e levar o proletariado e o campesinato pobre para adiante, para longe do “Poder Dual”, rumo ao Poder Total dos Sovietes, sendo esse poder a Comuna de Paris, no sentido de Marx, no sentido da experiência de 1871.

    Em aberta oposição às posições defendidas por Stalin e Kamenev, Lênin destacou a importância da dialética no domínio da formulação da tática revolucionária, demonstrando a mais plena inatualidade da velha fórmula bolchevique de luta por uma Ditadura Democrática Revolucionária do Proletariado e do Campesinato, em face do novo contexto histórico.

    Com efeito, em seu modo de ver, essa ditadura já havia, em certa medida e de maneira extremamente original, tornado-se realidade na revolução em curso, incorporando-se, a partir de Fevereiro de 1917, na instituição dos Sovietes dos Trabalhadores, Soldados e Camponeses, que cedera, porém, voluntariamente todo o seu poder ao Governo Provisório Burguês-Latifundiário, de tal sorte que uma nova tarefa haveria de ser encaminhada: efetuar a ruptura no interior dessa Ditadura entre os proletários revolucionários – anti-frente-populistas, anti-defensistas da pátria burguesa reacionária e favoráveis à transição para o regime de poder integral de tipo da Comuna de Paris – e os elementos pequeno-burgueses ou pequeno-proprietários – mencheviques-chauvinistas e socialistas-revolucionários (SRs), apoiadores da dominação burguesa-latifundiária e do seu Governo Provisório, na guerra imperialista.

    Sustentadas pela rápida dinâmica dos novos fatos objetivamente revolucionários, as Teses de Abril, formuladas por Lênin, prevaleceram, então, largamente, tanto na Conferência de Toda a Cidade de Petrogrado, ocorrida entre 14 e 22 de abril , como na VII Conferência do POSDR – Bolchevique de Toda a Rússia, realizada entre 24 e 29 de abril de 1917.

    Nessa última instância, as Teses de Abril venceram por 142 votos contra 7, na questão da luta pela transformação da guerra imperialista em guerra revolucionária; por 122 votos contra 3 e 8 abstenções, na questão da transferência de todo o poder aos Sovietes ; por 71 votos a 47, em favor de ingressar imediatamente na via da revolução proletária.

    Lênin resultou vencido apenas no ponto de abandono da designação social-democrática do partido para a adoção do nome Partido Comunista – Bolchevique .
    Apesar de a composição do novo órgão de direção partidária eleito não se ter demonstrado plenamente adequada à mais conseqüente implementação das Teses de Abril – entre 9 membros eleitos, 4 eram opositores (Kamenev, Noguin, Miliutin e Fiedorov) e 1 entre eles, Stalin, votara apenas no último momento pelas teses leninistas –, o Partido Bolchevique, valendo-se da direção de Lênin, foi capaz não apenas de apreciar e antever, justamente e com impressionante prontidão, as situações políticas subseqüentes, como também formular acertadas palavras-de-ordem de transição para que o proletariado e seus aliados marchassem rumo à tomada do poder.

    Exemplo disso foram as magistrais consignas dirigentes bolcheviques, levantadas por cerca de meio milhão de manifestantes, em 18 de junho de 1917, ponto de virada na história revolucionária de todos os tempos : “Todo o Poder aos Sovietes!”, “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas!”, “Nenhuma Paz em Separado com a Alemanha, Nenhum Tratado Secreto com os Capitalistas Anglo-Franceses!”

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    IV.) ESTRATÉGIA REVOLUCIONÁRIA PROLETÁRIA

    Lênin defendeu de modo aguerrido, ao longo de toda a sua vida, que o método histórico-materialista de Marx e Engels converter-se-ia em idealismo subjetivista supra-histórico, chave universal de teoria geral político-filosófica, molde doutrinário inteiramente oco e abstrato, se não fosse abordado enquanto fio condutor da análise de períodos e situações especificamente cambiantes no tempo e no espaço, fatos objetivos modificados e em processo de mutação, realidade omnilateral e incomensuravelmente multifacetada.

    Nesse sentido, um dos mais brilhantes aspectos da dialética de Lênin no domínio da estratégia revolucionária constituiu, inegavelmente, sua magistral compreensão da necessidade de construção de um partido proletário marxista-revolucionário de massas e de vanguarda, dirigido preponderantemente por revolucionários profissionais e trabalhadores conscientes jovens, assentado sobre o princípio organizativo do centralismo democrático, de modo que se tornasse efetivamente materializável, na época do imperialismo capitalista, marcado por regimes burgueses-oligárquicos à maneira de autocracias, a perspectiva formulada originariamente por Marx e Engels de derrubada violenta de toda exploração sócio-econômica e dominação intelectual-ideológica, geradas inevitavelmente pela subsistência das decrépitas leis internas, inerentes à barbárie do capital e do latifúndio.

    E, de fato : Lênin planejou, organizou, formou, construiu e impulsionou um partido dirigente de massas, democraticamente centralizado e largamente isento de traços burocráticos degeneradores, partido esse que se apoiou crescentemente na práxis revolucionária de Babushkin e Sverdlov , consagrou articulistas revolucionários do calibre de Vorovsky , bem como deu vida a brilhantes órgãos jornalísticos, legais e clandestinos – tais como ”Iskra(A Centelha)”, “Vperiod!(Avante!)”, “Proletari(O Proletário)”, “Svezda(A Estrela)”, “Rabotchaia Gazeta (Diário Operário)”, “Pravda(A Verdade)”, “Soldatskaya Pravda(A Verdade do Soldado)” etc. etc., concebidos eles mesmos como organizadores, propagandistas e agitadores coletivos da dialética do marxismo revolucionário -, constituindo-se, a partir de 1903, em fração interna bolchevique do POSDR, transformando-se, no início de 1912, como partido integral e irreversivelmente rompido com o oportunismo e o liquidacionismo de todos os matizes, em POSDR – Bolchevique.

    Lênin demonstrou que o partido revolucionário não pode cumprir jamais o seu papel histórico embrigando-se em suas próprias vitórias, deixando de reconhecer as deficiências de seu trabalho de ligação com as mais amplas massas trabalhadoras, proletárias e não proletárias, temendo tratar de seus erros e debilidades, renunciando a corrigí-los resolutamente e negando-se a dizer às massas revolucionárias o pleno conteúdo da verdade, em todas as circunstâncias, fornecendo-lhes respostas concretas a seus problemas concretos.

    No quadro da nova situação política russa e internacional, surgida com a Revolução Democrático-Burguesa de Fevereiro de 1917, os partidos dos socialistas-revolucionários (SRs) e dos mencheviques chauvinistas posicionaram-se publicamente, nos Sovietes e diante das massas, em favor do defensismo da pátria burguesa reacionária russa na guerra imperialista, vontando pelos créditos de guerra, e postularam seu próprio ingresso na composição do Governo Provisório Burguês-Latifundiário, alegando ser, assim, possível mudar a política imperialista por este praticada.

    Diante desse fato político objetivo, Lênin defendeu, tanto na Conferência de Toda a Cidade de Petrogrado, ocorrida entre 14 e 22 de abril, como na VII Conferência do POSDR – Bolchevique de Toda a Rússia, ocorrida entre 24 e 29 de abril de 1917, a estratégia de promover intensamente relações mais estreitas e até mesmo a fusão de suas forças apenas com grupos e tendências proletárias – advindas p.ex. dos mencheviques internacionalistas, dos sociais-democratas independentes, dos unionistas interdistritais -, que se encontravam sustentando posição política realmente revolucionário-internacionalista, fazendo-o com o objetivo de profligar a política de traição pequeno-burguesa do socialismo e alcançar a mais sólida hegemonia do proletariado na revolução.

    Desse modo, conseguiu derrotar a concepção estratégica colaboracionista de Stalin e Kamenev de composição de uma comissão mista, visando ao fomento da unidade de todos os sociais-democratas, incluindo os denfesistas da pátria burguesa reacionária na guerra imperialista.

    É precisamente essa concepção de Lênin concernente à hegemonia do proletariado que permite divisar, nitidamente, na Revolução de Outubro de 1917 seu inconfundível caráter de ação histórica impulsionada pelas mais largas massas exploradas e oprimidas da sociedade, resultando absolutamente vulgar e equivocado equipará-la a um Golpe de Estado de uma Minoria ou às iniciativas revolucionárias-insurrecionais de Auguste Blanqui, tal como celebremente o fez Max Weber , ou ainda concebê-la em paralelo com uma Revolução de Ultra-Esquerdistas Iluminados, tal como entrevista por Herbert Marcuse.

    A concepção de Lênin acerca da conquista da hegemonia do proletariado nos processos revolucionários da Rússia – não perdendo jamais de vista a necessidade inafastável de destruição do Estado Burguês para a edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado no sendeiro da luta pelo socialismo – encontra-se, plenamente, revestida da mais rigosa aplicação do materialismo histórico e da dialética materialista de Marx e Engels.

    Com efeito, para Lênin, a arte do político consiste em apreciar corretamente as condições e o momento em que a vanguarda do proletariado pode tomar o poder com sucesso, de modo que consiga contar suficientemente, durante e depois da tomada do poder, com um largo apoio de amplas camadas da classe trabalhadora e das massas semi-proletárias, afirmando e expandindo sua dominação, depois da tomada do poder através da educação, formação e incorporação de forças humanas cada vez mais amplas.

    Destacando que o grande mérito histórico de Marx e Engels foi o de terem indicado aos trabalhadores de todo o mundo sua tarefa de serem os primeiros a levantarem-se na luta revolucionária contra o capital e reunirem, em torno de si, nessa luta, todo o povo trabalhador e explorado, Lênin foi capaz de retomar a questão da hegemonia do proletariado, desde um ângulo dialético-materista, situando-se, assim, em diametral oposição ao que viria ser a versão idealista-subjetivista da hegemonia de Gramsci, para quem a estratégia revolucionária do “ataque frontal”, da “guerra de movimento” do proletariado revolucionário, subsistiria apenas “até quando se trate de conquistar posições não decisivas, não sendo, pois, mobilizados todos os recursos da hegemonia do Estado.”

    Embriagado em seu radical anti-trotskysmo e sem contar com suficiente experiência prático-revolucionária para versar sobre um tema dessa envergadura, Gramsci acaba opondo-se a Lênin e equivoca-se redondamente na apreciação da importância da luta insurrecional do proletariado para a tomada do poder e defesa de seu Estado Proletário Revolucionário, não a considerando como sendo a “fase culminante da situação político-histórica”, durante e depois da tomada do poder.

    Pelo contrário, Lênin nos indica que o “ataque frontal” do proletariado contra o Estado Burguês, visando à tomada do poder e a derrota das forças contra-revolucionárias mediante “guerra de movimento”, como forma de conquista e defesa de sua Ditadura Revolucionária – por exigir ele sim uma “concentração inaudita de hegemonia” é a “fase culminante” e como tal centraliza estrategicamente todos os demais esforços revolucionários despendidos em “guerra de posição”, i.e. em conquista de posições revolucionárias, “trincheiras, fortalezas e casamatas”, instituições sindicais, bastiões parlamentares, espaços culturais, políticos e econômicos, públicos e privados, que ampliam o potencial das lutas revolucionárias do proletariado.

    Na época do imperialismo capitalista, pretender propugnar a “guerra de posição” como “fase culminante da situação político-histórica”, em detrimento do “ataque frontal” significa difundir fantasias acerca de uma possível derrota do assim chamado “Império Biopolítico” e passagem ao socialismo, mediante abertura de “brechas democráticas” cada vez maiores na sociedade civil burguesa e “hiperbólica” democratização da cidadania e do Estado Burguês.

    Mesmo encontrando-se Lênin provisoriamente refugiado na Finlândia, teve lugar, entre 26 de julho e 3 de agosto, o VI Congresso da Unificação do Partido Bolchevique (POSDR-B), sob a presidência de Sverdlov, que, seguindo a orientação estratégica prédefinida e representando cerca de 240.000 militantes, reunidos em 162 organismos partidários, em contraste com os 80.000 militantes, reunidos em 78 organismos partidários, do mês de abril de 1917 -, formalizou solenemente a incorporação nas fileiras bolcheviques dos unionistas interdistritais – sem prejuízo do fato de Trotsky e Lunatcharky encontrarem-se, então, nos cárceres do Governo Provisório Burguês-Latifundiário, integrado, agora, também por mencheviques sociais-chauvinistas.

    A incorporação de novos agrupamentos e tendências realmente revolucionários e internacionalistas fortaleceu gigantescamente o potencial de luta do antigo partido bolchevique, aglutinando unificadamente todos os melhores lutadores do movimento proletrário russo de então na luta comum em prol da revolução proletária.
    Embora permanecendo ainda relativamente reduzido para a execução da imensa tarefa a ser cumprida, o novo partido de Lênin e Trotsky demonstrou que, em um cenário de profunda crise revolucionária, seu impacto de luta poderia aumentar exponencialmente, encabeçando ações muito superiores à sua dimensão puramente quantitativa.

    A duradoura e sistemática orientação dos bolcheviques de lutarem, constantemente, pela conquista da hegemonia do proletariado na revolução, no sentido estritamente dialético-materialista que Lênin conferia a essa concepção estratégica de Marx e Engels , permitiu ao proletariado russo, nos mêses subseqüentes, exercer a direção política sobre seus aliados revolucionários, i.e. camponeses pobres, soldados marinheiros, setores oprimidos em geral, na permanente e imediata luta por romper com a burguesia e o latifúndio, conquistar a maioria da população para si, concentrar todo o poder nos Sovietes, empreender medidas visando ao despedaçamento do Estado Burguês, mediante insurreição armada, e, no contexto de um novo processo revolucionário, edificar uma Ditadura Revolucionária, hegemonizada pelo proletariado e incorporadora da mais ampla e historicamente mais avançada democracia das classes exploradas e oprimidas daquele país.

    Nesse contexto histórico, emergiu o Estado Proletário Revolucionário, fundado em uma aliança de classes, entre o proletariado hegemônico – vanguarda composta pela maioria esmagadora dos trabalhadores da cidade e do campo -, e inúmeras camadas subalternas semi-proletárias (pequenos-burgueses arruinados, camponêses pobres, intelectuais sublevados etc.), uma aliança selada no quadro da insurreição armada e da guerra civil para a integral derrubada do capitalismo, repressão da resistência burguesa e latifundiária, bem como de suas tentativas restauracionistas: uma aliança entre firmes adeptos da revolução proletária e setores aliados vacilantes ou neutros, integrantes de classes distintas em sentido econômico, político, social e ideológico .

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    V.) DIALÉTICA DA LUTA DE CLASSES NA VITÓRIA DO PROLETARIADO HEGEMÔNICO

    Como se isso tudo por si só não bastasse para a configuração de um revolucionário marxista de colossal envergadura, Lênin foi também a expressão mais elevada de direção político-prática do partido bolchevique e do Estado Soviético na Revolução de Outubro de 1917.

    Apesar dos atos de traição pública e sabotagem interno-partidária praticados pelos bolcheviques Kamenev e Zinoviev contra a preparação por Lênin da insurreição proletária, apesar da permissão conferida por Stalin de publicação no “Pravda(A Verdade) de artigos abertamente anti-insurrecionais (“O Que não se Deve Fazer”, de Zinoviev) e sua tentativa de conciliação da “rispidez” de bolcheviques insurrecionais (Lênin, Trotsky, Sverdlov, Smilga e outros) com a condescendência dos bolcheviques anti-levante (Kamenev, Zinoviev e seus seguidores), o partido dirigente de Lênin mostrou-se capaz de intervir, com inigualável arte e talento prático-revolucionários, enquanto o estado-maior tático e estratégico das lutas de libertação do proletariado russo e seus aliados.

    Demonstrou-se apto a concentrar massas sempre maiores de explorados e oprimidos, calcular com grande precisão a correlação das diferentes forças envolvidas na luta, deslocando-as em inúmeros movimentos dirigidos e em variadas campanhas coordenadas, intervir em eleições burguesas, sindicais e soviéticas, como forma de fortalecimento e conquista de novas posições revolucionárias, manter linhas de defesa já conquistadas, comandar tanto recuos, desvios e evasões ordenadas em face de enfrentamentos provocativos e desvanjatosos, protagonizar reagrupamentos e ações militares insurrecionais e bélicas impetuosas que contribuíram para desferir pesados golpes de misericórida sobre pontos cardeais das formações políticas e militares capitalistas e latifundiárias, russas e intervencionistas.
    Com disciplina, ousadia, habilidade e moral revolucionárias, os bolcheviques sob a direção máxima de Lênin conseguiram combinar, dialeticamente, estratégia de esgotamento e estratégia de derrubada dos inimigos de classe (Ermattungs- und Niederwerfungsstrategie), operações ofensivas e defensivas, assaltos frontais e de flanco, frentes e reservas, linhas e pontos estratégicos nos teatros de luta, guerra de posição e guerra de movimento (guerre de position et de mouvement, Stellungs- und Bewegungskrieg), em meio à rapidez inacreditável do furacão revolucionário.

    Apenas desse modo, tornaram-se possíveis ações revolucionárias aparentemente irrealizáveis, tal como a dissuassão no Palácio Kshessinska do processo insurrecional espontâneo dos trabalhadores e soldados de Vyborg – após as demissões dos ministros burgueses Shingariov, Manuilov e Shakhovskoi -, o recuo organizado, diante da ofensiva contra-revolucionária da burguesia com Kerensky e os Sovietes ainda majoritariamente mencheviques e socialistas-revolucionários (SRs), em 3 e 4 de julho – conduzindo, provisoriamente, à retirada da ordem do dia da consigna de “Todo o Poder aos Sovietes!” -, a passagem para a clandestinidade e a rejeição de Lênin e Zinoviev – acusados de agentes do militarismo alemão – de entregarem-se à Justiça Burguesa e Latifundiária, a despeito da prisão de inúmeros dirigentes bolcheviques de grande prestígio, como Kamenev, Lunatcharky e Trotsky, entre 7 e 22 de julho, a eficiente reativação de toda a rede de clandestinidade do Partido Bolchevique, sem prejuízo do crescimento deste, a realização do VI Congresso da Unificação, entre 26 de julho e 3 de agosto, o repúdio à proposta de “armistício entre capital e trabalho” e à Conferência de Estado de Kerensky, a antecipada percepção da Kornilovada, a retomada das ações de luta dos bolcheviques e do proletário para o destroncamento da Divisão Selvagem de Cossacos, comandada por Kornilov, o “Salvador Supremo”, em 25 de agosto, a abertura das prisões, a reativação da Guarda Vermelha, o desferimento de golpes mortais em corpos de oficiais kerenkystas e kornilovistas.

    Apenas desse modo, foi possível, já em 31 de agosto, a conquista da maioria nos Sovietes pelos bolcheviques nas principais cidades – reinstituindo atualidade à palavra de ordem “Todo o Poder aos Sovietes!” -, a intervenção revolucionária no âmbito da Conferência Democrática e o boicote do Pré-Parlamento, a partir de 14 de setembro, bem como a eleição de Trotsky para a Presidência do Soviete de Petrogrado, em 23 de setembro, e a criação do Comitê Militar Revolucionário (CMR), quartel-general da insurreição armada, órgão esse situado sob o direto comando revolucionário de Trotsky.

    Uma vez obtida a maioria nos Sovietes, Lênin passou a defender, sob pena de demitir-se da direção partidária, que os bolcheviques deviam e podiam tomar imediatamente o poder, marcando antecipadamente a data para a deflagração da insurreição, sem deixarem escapar a ocasião, sem causarem a perda da revolução, sem aguardarem pelo início do novo Congresso dos Sovietes , destacando que a história jamais os perdoaria se o deixassem de fazer tempestivamente.

    Presente clandestinamente em Petrogrado já em 10 de outubro, Lênin contribuiu decisivamente para que sua proposta de preparação e desencadeamento imediato da insurreição fosse aprovada por 10 votos a 2, no âmbito da reunião do Comitê Central do Partido Bolchevique.

    Assim, o partido dirigente de Lênin, sob o comando imediato de Trotsky, foi capaz de desempenhar, em 25 de outubro de 1917, com talento e habilidade, a Arte da Insurreção Socialista , tendo em conta as experiências práticas da Comuna de Paris de 1871 e da Insurreição de Moscou de Dezembro de 1905, observando, com triplicada audácia, as regras de atuação revolucionária de Georges-Jacques Danton e recomendadas com perspicácia proletária por Marx e Engels.

    O impacto da vitória revolucionária pôde, então, ser lida nos olhos do bolchevique Antonov-Ovseienko, às 2 horas e 10 minutos da madrugada, de 26 de outubro de 1917, quando, na Tomada do Palácio de Inverno, exclamou, em nome do Comitê Militar Revolucionário : “- Comunico-lhes, membros do Governo Provisório, que vocês estão todos presos.”

    Varrendo da face da terra os órgãos de poder da burguesia e do latifúndio russos, o dispositivo insurrecional consagrou a passagem de todo o poder de Estado ao II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, composto por 650 deputados, eleitos entre as massas revolucionárias, ao mesmo tempo em que a maioria desse último, saudou-a entusiasticamente, aprovou os novos Decretos sobre Pão, Paz e Terra e elegeu o novo Governo de Comissários do Povo, representante da aliança selada entre proletariado e campesinato pobre de toda a Rússia Soviética.

    Encabeçada pelo partido dirigente de Lênin, a Revolução Russa de Outubro de 1917, dando os primeiros passos rumo ao socialismo, desencadeou energia revolucionária de explorados e oprimidos de todo o mundo em dimensão jamais vista ao longo de vários séculos, espalhando-se rapidamente pelas principais capitais e rincões do maior país do nosso planeta – com menor voragem revolucionária em Petrogrado e outras localidades, com maior violência libertadora em Moscou e alhures -, inspirando, desde então, novos movimentos revolucionários proletários, populares e nacionais-libertadores, em todo o orbe terrestre.

    Desse modo, demonstrou possuir uma criatividade gigantesca inigualável ao persuadir, conscientizar, organizar e dirigir massas revolucionárias, ao remodelar todo o sistema de Estado e de Direito, todas as relações sociais e econômicas, toda a estratégia e tática política, conhecidas até então pelo mundo burguês imperialista, rompendo com as velhas tradições e métodos militares, gerando novas forças armadas proletárias e populares revolucionárias, que converteram, sob o comando de Trotsky, Smilga, Frunze, Tukhatchevsky, a Guarda Vermelha Proletária em Exército Vermelho Revolucionário, instituindo resolutamente a Tcheka enquanto Comitê de Saúde Pública para a rigorosa repressão à contra-revolução e coroando com atos de elevada bravura a luta inicial pela edificação do socialismo, muito além das fronteiras nacionais-russas.

    Posteriormente à vitória de Outubro de 17, a continuação da política do proletariado hegemônico russo com meios violentos, seguiu, sob a direção de Lênin, não apenas derrotando efetivamente sua própria burguesia, seus próprios senhores latifundiários, socialistas pequeno-burgueses e anarquistas contra-revolucionários, no quadro da Guerra Civil de 1918 a 1921, mas também capaz de despedaçar a sagrada coalizão de exércitos imperialistas-intervencionistas, posta em marcha pelas principais nações imperialistas da Europa Capitalista Unificada contra a Rússia Soviética Revolucionária.

    „- Ленина неt. Неt более Ленина” : “Perdemos Lênin. Lênin já não mais existe”, exclamou Trotsky, por ocasião da morte de Lênin em 21 de janeiro de 1924 .
    Lênin tombou em meio à luta travada contra o ascenso operário-burocrático contra-revolucionário, encabeçado por Stalin e seus aliados, fazendo, porém, com que o legado de sua atividade revolucionária e da Revolução Russa de Outubro de 1917 demonstrasse a todas as novas gerações de revolucionários marxistas que a luta de classes internacionalista moderna, travada entre burguesia e proletariado, há de necessariamente conduzir à mais irrestrita vitória do socialismo em todo os pontos do planeta Terra:

    “Sabemos que os abutres capitalistas ainda são mais fortes do que nós.
    Podem ainda infligir amplamente danos, brutalidades e atrocidades sobre nosso país.
    Porém não podem derrotar a revolução mundial. (…)
    Não importam as desgraças que os imperialistas possam nos impor, isso não os salvará.
    Apesar de todas as eventualidades, o imperialismo perecerá e triunfará a revolução socialista mundial!”

    Lênin

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    UMA CONCLUSÃO EM ABERTO: ABANDONO E DEFORMAÇÃO CONTRA A DEFESA DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO E DE LENIN

    O mais total abandono dos ensinamentos do Outubro Vermelho de 17 e do legado revolucionário de Lênin, tal como empreendido por Ernst Mandel, e, atualmente, por seus epígonos do Secretariado Unificado, Bensaïd, Löwy e Vercammen, a deturpação da teoria e da prática da política revolucionária de Lênin, de modo a convertê-la em um guia para a ação (Anleitung zum Handeln) inteiramente oportunista, sustentadora de frente-populares e fomentadora de burocracias partidárias, sindicais e estatais-operárias, tal como o fez Stalin e seguem fazendo seus seguidores “marxistas-leninistas” dos velhos e novos “Partidos “Comunistas”, a veneração superticiosa de Stalin como se fosse o legítimo herdeiro histórico de Lênin e de sua política socialista e internacionalista, tal como o fazem Mao, Gramsci e seus sequazes, a conversão gramsciana da concepção histórico-materialista de Lênin sobre a conquista da hegemonia do proletariado na revolução em uma versão idealista-subjetivista, segmentadora e privilegiadora da “guerra de posição” para alcançar a “fase culminante” na luta pelo socialismo, em prejuízo da “guerra de movimento” e do “ataque frontal”, protagonizadas – segundo Gramsci – por Trotsky “em um período em que esse é apenas causa de fiascos“, todos esses aspectos demonstram-nos nitidamente que permanece sendo imprescindível, 80 anos após a morte de Lênin, seguir reivindicando e defendendo as “Lições de Outubro” e a “História da Revolução Russa”, como forma de prosseguir reconstruindo conseqüentemente a IV Internacional de Trotsky, sob pena de dever-se dizer com Marx: “tout ce que je sais, c’est que moi, je ne suis pas marxiste (tudo o que sei, é que marxista eu não sou)”.

    Ao mesmo tempo, é imprescindível conceber o marxismo revolucionário impulsionado por Lênin não como um conjunto de axiomas imutáveis a ser apreendido de memória, conformador de uma seita apriorista (pure Sekte), despojada de toda a realidade da vida prática e cambiante da luta de classes, de modo a transformá-lo em um “fenômeno cômico (komische Erscheinung)”.

    E, de fato: é inteiramente impossível compreeder-se bem as questões mais decisivas não só da Revolução de Outubro de 1917, mas também de todas as iniciativas revolucionárias subseqüentes e vindouras, a serem empreendidas pelas massas exploradas e oprimidas de todo o mundo na busca de sua emancipação socialista, sem um dedicado estudo da obra paradigmática e da vida revolucionária de Vladimir Ilitch Lênin.

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