Leia artigo da União da Juventude Árabe para América Latina sobre o Líbano

A seguir, publicamos o artigo de Ali Nakhlawi, da União da Juventude Árabe para América Latina (UJAAL), organização que luta pela libertação dos povos árabes e com a qual o PSTU tem relações fraternaisA tarefa dos movimentos revolucionários brasileiros perante a nova situação no Líbano

Hoje, sabemos muito bem que, o Hizbollah (1) é o principal inimigo dos EUA no Oriente Médio. Se o derrotam, então alcançarão outras metas – como controlar Palestina e Iraque – e logo se lançarão contra Síria e Irã. Também alcançarão, indiretamente, o avanço dos movimentos revolucionários de todos os paises.

A geoestratégia imperialista no Oriente Médio não pode prosperar muito, enquanto não se pacifica a Palestina, Iraque e o Líbano. Isto significa que os movimentos populares nesses países têm de ser derrotados: Hamas, na Palestina; Hizbollah, no Líbano; e a Resistência no Iraque.

Perante esta nova situação, qual deve ser o papel dos movimentos da esquerda brasileira em relação à crise política atual no Líbano? Essa pergunta formulamos nesse momento preciso, em que o Líbano assiste à crise política que ameaça a continuação e o futuro da luta contra os interesses imperialistas no Oriente Médio, já que a maioria dos movimentos da esquerda de todos os países apoiaram a resistência libanesa em sua defesa contra a invasão israelense, em julho de 2006, falaram sobre a sua vitória como um triunfo revolucionário internacional contra o imperialismo, e sobre a possibilidade real da destruição do Estado sionista de Israel.

Para entender melhor esta questão, devemos analisar, em primeiro lugar, a situação complexa da política libanesa. Hoje, no Líbano, o “conflito democrático” representa uma luta histórica entre duas forças de peso político e importância social ampla. Uma, por sua parte, representa o governo fantoche de Fuad Siniora, primeiro ministro libanês, e está ligada diretamente aos EUA, com o apoio de todos os estados e governos do mundo, inclusive do Estado sionista de Israel. É a coalizão do 14 de Março (2), que defende a idéia de que o Líbano pertence ao Ocidente e deve estar a favor da posição norte-americana.

A outra força tem o apoio da Síria e Irã. Representa a resistência libanesa, defende os interesses das massas do Líbano e a luta armada pela destruição do Estado Sionista de Israel. Eles crêem que os EUA provocam somente guerras e divisões e que o Líbano pertence ao mundo árabe e muçulmano e deve estar ao lado da Síria e do Irã. Sua reivindicação é chamar novas eleições por um governo de unidade nacional, com as reformas que possam se adequar às necessidades atuais da sociedade libanesa.

As duas forças sabem que o eixo desse conflito é o tema do futuro da luta armada contra o Estado Sionista de Israel, já que, no fundo, trata-se do desarmamento militar do Hizbollah.

O conflito
As forças do 14 de março, sob as orientações norte-americanas, européias e sionistas, através dos diálogos com o Hizbollah durante vários meses, dentro do que se chamava diálogo Nacional entre os representantes de todos os partidos libaneses, não conseguiram convencer este último a entregar as suas armas para o exército do Líbano.

Se continuarmos a nossa análise, vamos entendendo melhor. No meio da crise que vive o imperialismo no Iraque, Olmert encabeça o governo sionista, enfrentando a vontade do povo palestino expressa na vitória do Hamas, que representou um verdadeiro desafio para o projeto impeialista-sionista na Palestina. Israel inicia, em julho de 2006, um genocídio contra o Líbano, com o objetivo de desarmar o Hizbollah e enfraquecer seu peso político no país, matar as esperanças das massas árabes, que lutam pela libertação e a autodeterminação, paralisando, assim, a resistência no Iraque e na Palestina e, desta forma, impondo à força as condições imperialistas na região, para negociar seu projeto de paz. Mas a derrota do exército sionista de Israel no Líbano mudou totalmente a fórmula. O Hizbollah saiu da guerra fortalecido com mais peso político e amplo apoio do povo libanês e árabe, já que demonstrou para os povos árabes e muçulmanos que a derrota e a destruição do Estado sionista de Israel é possível, só basta unificar a luta.

Breve história e formação do governo
Devemos lembrar, aqui, que o colonizador francês, em 1943, desenhou um sistema segundo um censo populacional de 1932. Em virtude da correlação de forças até então existente, o presidente e o chefe supremo do exército libanês tinham de ser católicos maronitas, o primeiro ministro, sunita, e o presidente do parlamento, shiíta. As elites maronitas e sunitas sempre têm os melhores cargos e status, enquanto os shiítas têm os escalões mais baixos (3). A essa distribuição injusta, o Hizbollah reclama e pretende apresentar modificações sem interesse em cargos de qualquer nível, conforme declarou o Líder do Hizbollah Hassan Nassralah, no dia 9 de dezembro de 2006, em discurso ao público.

Início da crise
A crise atual no Líbano começou quando foi criado um tribunal internacional pelas Nações Unidas para se encarregar de investigar o assassinato do ex-primeiro minstro libanês, Rafeeq al Hariri, o que Hizbollah considerou uma violação contra a soberania nacional. Em protesto a esse tribunal, seus ministros se retiraram do governo junto a outros da aliança.

Desde então, formou-se a oposição entre a aliança de Hizbollah, Movimento Esperança, Movimento Livre Patriótico, Partido dos Rebeldes, Partido Democrático, União Socialista Árabe, Sindicato dos Trabalhadores do Líbano, os Nasseristas e o Partido Comunista Libanês (encabeçado por Khaled Hadad) que logo após ter começado as manifestações nas ruas de Beirute, se retirou da oposição.

Um conflito de classes
As reivindicações do Hizbollah são por um governo de unidade nacional. Após o triunfo na guerra contra Israel, Hizbollah está numa posição de força e exige que a situação do país seja adequada à nova realidade. Este novo governo tem de ser mais representativo, devido às demandas do país, que exigem uma justiça nesse sentido, começando por novas eleições que possam pôr fim à corrupta elite política que vem governando o país desde a sua independência.

O primeiro ministro, Fuad Siniora, tem fortes laços políticos e amizades empresarias com as altas finanças internacionais. Ele é um sólido partidário do “livre mercado” e vem aplicando as manobras de uma política neoliberal que esta fazendo mais ricos os ricos e mais pobres os pobres.

Ante esta situação o país esta desenvolvendo um racha classista nunca visto antes e abre o caminho perante o conflito de Classes, que será inevitável no futuro próximo, mesmo com todas as reformas representadas hoje por um ou por outro lado.

A tarefa dos movimentos revolucionários
Numa luta de resistência com as complexidades presentes no Líbano, Palestina, Iraque e Afeganistão, é necessário hoje superar as divergências que possam surgir nos âmbitos religiosos, étnicos e nacionais para apresentar uma frente unificada e uma forte aliança que enfrente os interesses regionais e mundiais do imperialismo e seu aliado o sionista.

É necessário unificar todas as formas de resistência à ocupação colonial e neocolonial que propagam os EUA e Israel, considerando que a unidade do povo tem sido a clave nas recentes vitórias contra a ofensiva sionista-imperialista no Oriente Médio. É necessário reconhecer que o Oriente Médio, em particular o Líbano, a Palestina e o Iraque, formam atualmente à frente de batalha contra o imperialismo e seus aliados – os sionistas –, e sua derrota depende do avanço dos movimentos de resistência na região e do papel de apoio dos movimentos da esquerda mundial.

Chamamos a todos os movimentos amigos da esquerda para um diálogo amplo, onde possamos analisar esta situação, e pôr um projeto de apóio e solidariedade à resistência árabe contra o plano imperialista-sionista no Oriente Médio.

São Paulo, 24 de janeiro de 2007

NOTAS:
1. O Hizbollah (Partido de Deus, em árabe) nasceu como uma milícia islâmica após a invasão israelense no Líbano em 1982. Sua atuação no país está longe de se limitar a um movimento de resistência militar à presença israelense. Apesar de ser o principal movimento de combate à presença israelense no sul, o Hizbollah desenvolveu uma série de atividades sociais que se refletem em assistência para 10% da população libanesa, consolidando-se como uma importante força política que, possivelmente, crescerá após a retirada israelense. Os serviços sociais do Hizbollah concentram-se em cinco áreas: ajuda a familiares de mártires, saúde, educação, reconstrução e agricultura. O Hizbollah conta com cinco hospitais, 43 clínicas e duas escolas de enfermagem. Segundo a ONU, ao menos 220 mil pessoas em 130 cidades libanesas se tratam nesses locais. Na área da educação, o Hizbollah possui 12 escolas com 7 mil alunos e 700 professores. Centros culturais franceses auxiliam no aperfeiçoamento do corpo docente. Na reconstrução, existe uma instituição exclusiva para reparar danos causados por ataques israelenses, enquanto na agricultura, engenheiros agrônomos formados em Beirute, na Síria, no Irã e na Alemanha desenvolvem importantes projetos agrícolas para garantir a base da economia do sul do país.
2. Assim se denomina a raiz das manifestações nacionais do 14 de Março de 2005, contra o assassinato de Rafeeq Al Hariri e a presença da Síria.
3. 70 % da população libanesa é muçulmana e 30% é cristão; 40% do total da população libanesa é shiita.

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