Itália: trabalhadores iniciam onda de greves contra planos de austeridade

Uma onda de greves começa a paralisar a Itália nesta semana. A paralisação vai envolver praticamente todos os setores econômicos do país. O alvo é o plano de austeridade apresentado pelo governo de Mario Monti, que substitui o combalido Silvio Berlusconi.

Os protestos iniciaram no último dia 12, quando eclodiu a primeira de uma série de greves contra o plano com a paralisação da importante indústria metalúrgica e da principal automotiva do país, a Fiat. Milhares de trabalhadores tomaram conta das ruas de Roma, Milão, Turim e Bolonha. A greve provocou até o cancelamento do espetáculo no mais famoso teatro de opera do país, o Scala de Milão.

Nos próximos dias, o país assistirá novas paralisações. Estão programadas greves dos transportes públicos, dos bancários e tipógrafos, o que poderá levar a paralisação da tiragem dos jornais do país.

Economia combalida
A Itália é um dos países mais atingidos pela crise na Zona do Euro. Para salvar os banqueiros, o governo do país não poupou esforços e destinou bilhões do dinheiro público para impedir a quebra do sistema financeiro.

O resultado foi uma enorme dívida pública que representa 120% de seu Produto Interno Bruto (PIB — soma de todas as riquezas do país). O país hoje está no centro de crise da Europa, depois que os juros de seus títulos de 10 anos subiram para a casa dos 7% anuais, nível semelhante ao de países como Grécia e Irlanda.

Recentemente, o governo Monti anunciou o novo pacote que prevê cortes orçamentários de 33 bilhões de euros, à custa dos salários dos trabalhadores e dos aposentados. Somam-se aos 33 bilhões do plano de Monti a dois outros ajustes aprovados pelo governo Berlusconi neste ano. No total, os cortes chegar a 70 bilhões de euros, ou seja, 4% do PIB do país.

O plano de austeridade se insere no marco do chamado “acordo histórico”, finalizado pelos governos da União Europeia na semana passada. O acordo prevê medidas “necessárias” para “combater a crise”, isto é, déficit inferior a 3% do PIB e dívida de no máximo 60% do PIB.

Salvar quem?
O chamado plano “Salva Itália” não foge do tom geral dos planos de austeridade aplicados por todos outros governos da Europa. Como todos os outros, o plano prevê uma séria de ataques aos direitos históricos e joga os custos da crise sobre as costas da população trabalhadora.

Um dos principais ataques do plano é a realização de uma nova reforma de Previdência com a elevação da idade para se aposentar. Caso seja aprovado, a aposentadoria para as mulheres será a partir dos 62 anos e para os homens aos 66 anos, com uma penalização de 3% anual para aqueles que quiserem retirar antes, enquanto a equiparação total de idades será de 66 anos em 2018. Além disso, o plano visa congelar as aposentadorias superiores a 960 euros mensais.

Além disso, o “Salva Itália” prevê o aumento do Imposto de Consumo (equivalente ao ICMS no Brasil), que, como cada taxa de alíquota fixa, atinge majoritariamente as rendas mais baixas, ou seja, aquela que recai sobre o consumo cotidiano. O governo também tenta emplacar uma reforma do mercado de trabalho, com menos garantias para quem trabalha e maior facilidade para as empresas demitirem os trabalhadores. Privatizações de estatais e liberalizações financeiras também estão no pacote, assim como a famigerada “reforma” Gelmini, que significará a destruição da escola pública.

O desenvolvimento do processo de lutas na Itália, porém, pode colocar em risco todo o plano da burguesia europeia em aplicar os planos de austeridade. Nesse sentido, é necessário alertar sobre a atitude das principais centrais sindicais do país, que elogiaram a nomeação de Monti, logo após sua posse, e até disseram que estavam dispostos a aceitar uma “trégua sindical”. A política conciliatória da burocracia sindical poderá levar o movimento à derrota. Por isso, os trabalhadores precisam dar um passo à frente e chamar uma greve geral por tempo indeterminado para derrotar o governo Monti.

É preciso também um programa dos trabalhadores para responder a crise, que inclua o não pagamento da dívida; não às demissões dos trabalhadores públicos; não as privatizações dos serviços e estatais; escala móvel dos salários; e nacionalização, sem indenização, do sistema financeiro.