Inflação e crise dos alimentos atingem trabalhadores em todo o mundo

Apesar do crescimento econômico, inflação faz renda diminuir cada vez maisGreves de trabalhadores da construção civil, motoristas, vigilantes, carteiros e professores de escolas públicas. O primeiro semestre de 2008 foi marcado por mobilizações longas e radicalizadas. Greves que enfrentaram os patrões, a imprensa e o governo e mostraram o atraso nos salários dos setores mais pobres da classe trabalhadora.

Por que isso estaria acontecendo no momento em que o governo e os patrões comemoram crescimento econômico e lucros recordes? A resposta está no contracheque desses trabalhadores. O salário continua o mesmo, enquanto os preços nas prateleiras dos supermercados e nas feiras aumentam cada vez mais. Com inflação e arrocho salarial, o crescimento é história de novela para a maioria de trabalhadores.

Fenômeno global
A inflação já é realidade na vida de bilhões de trabalhadores em todo o planeta. O preço dos alimentos tem subido, gerando revoltas em várias partes do mundo. Segundo o Banco Mundial, o preço médio dos alimentos no mercado internacional aumentou 82% entre março de 2006 e março de 2008. Só o trigo teria subido 152%. O banco reconhece que “o aumento do preço dos alimentos tem minado o poder aquisitivo da população pobre, em particular da que vive em zonas rurais e em situação de pobreza”.

De acordo com a FAO (organismo da ONU dedicado à agricultura e alimentação), nos últimos dois anos o arroz subiu 217%. O milho subiu 125% e a soja, 107%. A FAO estima que a inflação tenha provocado crises e protestos em pelo menos 14 países, como Haiti, Bangladesh e países do norte da África. Só na América Latina, o preço dos alimentos está jogando 10 milhões de pessoas na miséria.

A crise dos alimentos é o lado mais perverso da crise financeira e econômica que explodiu nos Estados Unidos e vem se espalhando por todo o mundo. Na América Latina, a inflação voltou com toda a força. No Peru, ela está na casa dos 5%, quando a meta do governo era 2%. Já no Uruguai, se aproxima dos 10%. Na Venezuela de Chávez, a inflação deve ficar entre 25% e 40% este ano.

O Brasil, ao contrário do discurso do governo, não está imune a essa crise. Anos de política econômica neoliberal tornaram o país ainda mais frágil diante de qualquer crise. O Banco Central mudou sua previsão de inflação de 4% para 6% em 2008. Os mais prejudicados, como sempre, são os trabalhadores.

A renda diminui
Os diferentes índices que registram a variação de preços no país comprovam o crescimento acelerado da inflação. O IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), divulgado mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas, registrou em março inflação de 1,98%. Foi o maior aumento desde fevereiro de 2003. Esse índice é o que serve como base para o reajuste dos aluguéis e da energia elétrica. Nos últimos 12 meses, a alta acumulada ultrapassa os 13%.

Os alimentos continuam sendo os principais responsáveis pela inflação. Principalmente aqueles que são base da alimentação de boa parte da população: arroz, feijão e carne. Comer fora também ficou bem mais caro. Os restaurantes populares, por quilo, aumentaram em média 15% o valor das refeições.

Além dos alimentos, a inflação contamina também outros produtos de primeira necessidade. Produtos de higiene pessoal aumentaram 1,26% só em junho. O gás de cozinha subiu 1,49%. Só no primeiro semestre, os preços de serviços e produtos, como educação e roupas, subiram 2,31%. Ou seja, não é apenas o preço dos alimentos que sobe. Há um aumento generalizado do custo de vida, que penaliza principalmente os mais pobres.

Com as contas mais altas e os salários sem aumento, os trabalhadores vêem sua renda diminuindo. Segundo pesquisa do IBGE nas principais regiões metropolitanas, a renda diminuiu em média 1% em maio. Em Recife (PE), a renda chegou a diminuir 5,7% e, em Porto Alegre (RS), 2,6%.
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