Indignação contra Bolsonaro cresce entre caminhoneiros

Caminhoneiros pedem impeachment de Bolsonaro em vídeo divulgado por whatsapp

 Vídeos chamando Bolsonaro de traidor e pedindo seu impeachment circulam por whatsapp

A suspensão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do julgamento sobre a constitucionalidade do piso do frete, que ocorreria no dia 4 de setembro, revoltou a categoria e acendeu o estopim de uma nova mobilização. Esquentou ainda mais a temperatura num cenário de crescente fervura.

Por pouco uma nova greve não havia ocorrido em abril, e por menos ainda em julho, quando o governo foi obrigado a chamar uma reunião de emergência diante da iminência de uma paralisação nacional. Por trás dessa situação, as condições de vida dos caminhoneiros que não melhoraram de um ano para cá, e a absoluta falta de vontade do governo de atender as reivindicações dos trabalhadores, em detrimento dos interesses do agronegócio e dos grandes investidores da Petrobrás.

Neste dia 4 houve mobilização em cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e do Paraná. As duas entidades apontadas como as principais da categoria, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) e a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) desautorizaram as paralisações. Ao que parece, as entidades que tiveram papel fundamental para o fim da greve em 2018, e para que ela não se repetisse este ano, não vem conseguindo segurar uma base cada vez mais radicalizada.

Vídeos de caminhoneiros declarando que “gastaram o que tinham e o que não tinham” para eleger Bolsonaro e que agora foram traídos, pululam em grupos de whatsapp. Rapidamente, parte da categoria vai percebendo que o discurso do então candidato Bolsonaro durante a greve em 2018 não passou de balela. Uma vez no governo, Bolsonaro se coloca de forma incondicional do lado do agronegócio e dos megainvestidores da Petrobrás. Ou seja, não vai impor um piso de frente com preço digno aos caminhoneiros que onere os grandes produtores rurais, e tampouco vai alterar a política de preços da Petrobrás que, hoje, beneficia os especuladores estrangeiros.

Submissão a Trump: dolarização do diesel
A situação dos caminhoneiros não é um fato isolado em meio ao aprofundamento da barbárie e da guerra social contra os trabalhadores que vivemos de forma acelerada no último período. O desemprego em massa, o avanço da precarização, a destruição da Previdência pública, o desmonte do Estado com privatizações a rodo, e a própria entrega da Amazônia fazem parte de um projeto político imposto a ferro e fogo pelo governo Bolsonaro. Projeto este que prevê, num cenário de crise capitalista, o aumento da exploração e da entrega do país ao capital estrangeiro, fazendo o Brasil retroceder a uma condição de quase colônia.

No caso dos caminhoneiros, isso funciona da seguinte forma: o preço do diesel que abastece os caminhões, cotado em dólar no mercado internacional, flutua ao sabor do mercado. Assim, se o diesel sobe na Bolsa de Nova Iorque, o caminhoneiro aqui vai pagar por isso. Foi essa situação que desatou a crise em 2018. O frete defasado muitas vezes não pagava sequer os custos com combustível e manutenção dos veículos. Mas, por que o Brasil, que tem a quinta maior empresa petroleira do mundo e figura no 15º lugar de maior reserva, tem o diesel atrelado ao dólar? Porque a maior parte de suas ações está nas mãos de grandes investidores estrangeiros.

Segundo o Relatório Anual da Petrobrás de 2016, 52% do capital social da empresa está nas mãos de acionistas privados. Desses, 36% de estrangeiros. O governo tem só 46% dessas ações. Ou seja, o alto preço do diesel, e também da gasolina comum e do gás de cozinha que pagamos aqui vai para os lucros de uns poucos bilionários em Nova Iorque. Calcula-se que algo em torno de 40% do lucro da Petrobrás seja remetido para fora.

A privatização da Petrobrás teve início quando o governo FHC acabou com o monopólio do petróleo e abriu o capital da empresa, teve sequência com os governos petistas, com o avanço da terceirização e os leilões dos campos de petróleo do Pré-Sal, incluindo aí o maior deles, o megacampo de Libra vendido pelo governo Dilma, e agora com Bolsonaro que acabou de privatizar a BR Distribuidora e colocou no balcão oito refinarias.

Em abril, diante da ameaça de uma nova greve dos caminhoneiros por conta do aumento do combustível, Bolsonaro telefonou ao presidente da Petrobrás mandando suspender. Levou um enquadro de Paulo Guedes e voltou atrás, reafirmando o compromisso do governo com os investidores estrangeiros. O plano do governo é, num primeiro momento, deixar para o país apenas a extração do petróleo cru, desfazendo-se das refinarias para importar o petróleo já refinado, e depois a venda completa da Petrobrás.

Se o governo já indicou que não vai mexer na política de preços do combustível, tampouco vai compensar isso com o tabelamento do frete que garanta condições dignas de vida aos caminhoneiros. Em sua proposta de tabelamento, o caminhoneiro praticamente pagava para trabalhar. Isso porque quem depende do transporte rodoviário para escoar seus produtos é principalmente o grande agronegócio, que não está disposto a abrir mão de parte de seus lucros.

Agronegócio de um lado, e os grandes banqueiros e investidores estrangeiros de outro. Esses são os setores beneficiados dentro do projeto de recolonização do Brasil, que prevê um país essencialmente de economia primária, ou seja, de mera produção de soja, gado e outras commodities, e a entrega pura e simples das empresas e estatais ao capital estrangeiro. Neste sentido, incluem-se ainda o pagamento da falsa dívida pública, que leva todos os anos 40% do Orçamento, e para isso se aplica um brutal ajuste fiscal e medidas como a reforma da Previdência, trabalhista, a destruição da escola pública, o fim das bolsas de pesquisa, etc.

Por uma Petrobrás 100% estatal
Não tem solução para a questão dos caminhoneiros com a atual política de preços da Petrobrás. Estamos falando de uma categoria que, em sua grande maioria, são de trabalhadores autônomos (56% dos quase 1,5 milhão de caminhões que trafegam no país), numa situação de penúria crescente e numa condição cada vez mais desesperadora.

É preciso apoiar a luta dos caminhoneiros pelo tabelamento do frete com condições justas, e também a redução do valor do diesel. E não dá para alterar isso com a empresa nas mãos do grande capital estrangeiro. A privatização da Petrobrás, além disso, afeta toda a população, sobretudo a mais pobre, já que o alto preço do diesel afeta toda a cadeia produtiva e chega na ponta do consumidor, e quem paga mais são os pobres. Afeta o gás de cozinha, a ponto de que cada vez mais famílias se vejam obrigadas a cozinhar com álcool ou madeira.

 

Os petroleiros estão se mobilizando em todo o país contra o desmonte e a entrega da Petrobrás, realizando grandes assembleias e organizando a greve na categoria. É necessário que essa luta se unifique com a mobilização dos caminhoneiros, e de todos os setores diretamente afetados por essa política entreguista do governo Bolsonaro, em defesa de uma Petrobrás 100% estatal. Em 2018 vimos parte expressiva da população apoiando os caminhoneiros, com manifestações de motoboys e taxistas, por exemplo. Infelizmente, uma grande frente unindo o então governo Temer, a mídia, os partidos ditos de oposição e as direções das grandes centrais, impediu que se avançasse para uma greve geral. Deu no que deu.

Derrotar o projeto de Bolsonaro-Mourão
A indignação crescente dos caminhoneiros expressa o projeto do governo Bolsonaro-Mourão, que se reflete no aumento da exploração, da pobreza e da miséria. É uma política de terra arrasada em prol de Trump e do grande capital estrangeiro. Um projeto que une privatização, reforma da Previdência, trabalhista, desemprego, ajuste fiscal, etc.

É necessário derrotar esse projeto, e isso só é possível através da unificação das lutas e da ação direta. Essa é a tarefa urgente colocada para o momento. Não articular frentes com deus e o mundo com vistas às eleições, esperando Bolsonaro se desgastar para colocar, em 2022, um outro governo de conciliação de classes. Esse é o caminho certo para a derrota. É preciso organizar a indignação e transformá-la em ação direta, em greves e manifestações.

Não é possível, contudo, mudar de vez essa situação, sem derrotarmos sua causa primeira. Por trás de todos esses ataques estão os lucros dos grandes banqueiros e megaespeculadores, e seus representantes no Brasil, como o governo Bolsonaro. É assim que funciona o capitalismo: barbárie para 99% da população para que 1% lucre. Precisamos de um outro sistema, que reverta nossas riquezas e nosso trabalho para a própria população. Que utilize as estatais como a Petrobrás não para o lucro de investidores estrangeiros, para a corrupção, mas para a necessidade do povo, que hoje poderia muito bem ter transporte, comida e gás muito mais baratos.

Precisamos de um outro sistema, de um governo socialista dos trabalhadores, que governe através de conselhos populares e que reverta o fruto do nosso trabalho e de nossas riquezas em melhores condições de vida para o povo, em emprego, educação, salário, etc., e não em lucro para um punhado de bilionários.