Humilhação e abandono

Já era quase 18h quando encontramos Dona Ozorina no alojamento do Centro Poliesportivo do Morumbi, em São José dos Campos. Furiosa, ela exibia o celular com uma foto do ex-marido que acabara de visitar no Hospital Municipal. O homem é Ivo Teles dos Santos, 69 anos, internado em estado grave depois de ser espancado pela polícia na desocupação do Pinheirinho. Ele respira com a ajuda de aparelhos e se alimenta por sonda.

Dona Ozorina foi chamada pelo hospital por ser a única pessoa próxima dele, que morava sozinho. Os médicos pediram que ela arrumasse doadores de sangue. Corajosa e indignada, com razão, disse aos médicos que a responsabilidade pelo estado de Seu Ivo não era sua, mas do prefeito do PSDB, Eduardo Cury, e da juíza Márcia Loureiro. Então, que fossem pedir a eles. “Eu sou uma pessoa pobre e não tenho condições de cuidar de um senhor na posição que ele está”, reclama.

Quase foi impedida de tirar a foto que nos mostrou: “Pra eu tirar essa foto foi o maior trabalho. As pessoas que iam lá tirar foto, a polícia estava embargando”. Na porta do hospital, PMs estavam plantados, chamados por sua causa.
Mas Dona Ozorina confia no movimento e não se intimidou: ameaçou voltar com o Pinheirinho inteiro caso a incomodassem de novo. Aos 62 anos e doente, tem passado seus dias a andar pelas ruas de São José a procura de imóvel. Inutilmente, pois o valor dos aluguéis é muito mais caro que os R$ 500 da bolsa-aluguel do governo. Ela mostra as pernas inchadas e descreve a dor física e o cansaço: “Saí cedo e olha que hora que eu estou chegando. Eu vejo a hora que eu vou sair e cair na rua morta. Me dá aquela fraqueza, aquela perna bamba”.

. “ Eu tinha as minhas coisas tudo em dia lá em casa. Eu tinha minha geladeira, tinha meu fogão, tinha minhas coisas pra eu fazer pra comer”.

Abandono e desumanidade
Ela nos mostra o local onde é obrigada a viver hoje, um container de aproximadamente 10 metros quadrados que divide com mais quatro famílias. Durante o dia, os colchões ficam empilhados. À noite, os moradores espalham os colchões e são eles que se amontoam. Assim como ela, centenas de famílias vivem em condições precaríssimas no alojamento do Morumbi.

Quase vinte dias depois do massacre do Pinheirinho, a barbárie está longe de terminar. Tentamos visitar um dos alojamentos controlados pela Prefeitura, o CAIC, e fomos seguidos e expulsos por um guarda ao nos identificarmos como imprensa. Ficamos apenas imaginando o que encontraríamos por lá. Pela manhã, descobrimos um dos motivos pelo qual éramos tão indesejados. A Guarda Civil começou a despejar as famílias na madrugada do dia 9.

O alojamento do Morumbi é o “melhor” dos quatro existentes, porque é coordenado pelas lideranças do Pinheirinho, que controlam as ações da Prefeitura de perto. Mesmo com todas as dificuldades, a coordenação dos sem-teto vem tentando organizar o pessoal dos outros alojamentos para manter todo mundo o mais unido possível. No alojamento do Morumbi, os moradores dividem tarefas e tentam manter a ordem para, pelo menos, tentar suavizar a barbárie – se é que isso é possível.

O calor é insuportável e há poucos banheiros. Uma piscina fechada tortura crianças e adultos. A comida é ruim e não atende às necessidades nutricionais. No caso de Dona Ozorina, que tem pressão alta e outros problemas greves de saúde, é ainda pior, porque ela passa mal com a refeição servida pela Prefeitura. Na semana passada, comida estragada foi levada aos sem-teto. As crianças, que são muitas e de todas as idades, recebem um achocolatado extra, à tarde, com alguns biscoitos.

Suzana, alojada numa arquibancada do ginásio com a mãe e duas filhas, foi uma das fundadoras do Pinheirinho, oito anos atrás. Não pegou o cheque-aluguel ainda porque não consegue alugar nenhuma casa. A mais barata que encontrou custa R$ 600. Ela trabalha numa pizzaria, e o salário também não chega para dar conta de aluguel, alimentação, água, energia, IPTU… O preconceito é outro obstáculo: os moradores reclamam que ninguém quer alugar para quem veio do Pinheirinho. Não existe sequer a possibilidade de pagar adiantado: “Tudo que a gente acha, pede fiador”.

“Eu ‘estava’ lavando a minha roupa, as minhas filhas ‘estavam’ estudando. Estão as duas paradas aí, sem ir para escola, sem ir para creche”, revolta-se. As filhas, de dois e seis anos, estão com piolhos, como todas as crianças obrigadas a viver naquele ambiente insalubre.

Grávida de três meses, só conseguiu ser atendida no posto de saúde do bairro do Morumbi. Depois de muito brigar recebeu ajuda de uma enfermeira. Diziam que ela tinha de ir ao posto que usava quando morava no Pinheirinho. Até ser atendida, Suzana ficou passando mal no ginásio lotado.

Atualmente, ela não tem sequer como fazer a matrícula das crianças na escola, pois todos os documentos ficaram no Pinheirinho. A polícia não esperou que ela e o marido desmontassem os móveis para levar. Ela assistiu quando um trator destruiu aquilo que ela construíra com muito trabalho. No terreno, ficaram os móveis, os eletrodomésticos e o material de construção com o qual ia melhorando sua casa aos poucos. Lembra do berço da filha sendo quebrado, e, agora, a menina dorme no chão.
A filha mais velha parou ao nosso lado. Ela encontrou as bonecas queimadas no lugar que um dia foi a sua casa. Suzana começa a chorar: “Chega uma hora que ela pede ‘mãe, vamos para casa’. Ai, que dor…”.

Dona Aparecida nos conta que noventa por cento do pessoal está desempregado. Muitos perderam o emprego porque não conseguiam ir ao trabalho nos últimos dias antes do despejo, devido à pressão e às ameaças constantes, ou à falta de transporte. Outros tinham suas atividades dentro do próprio Pinheirinho, em pequenos comércios, reciclagem etc. Alguns foram demitidos por puro preconceito mesmo.

Resistência apesar de tudo
Valdir Martins, o Marrom, líder do Pinheirinho, opina que, mais do que a polícia, o prefeito e a juíza, “o culpado é o Alckmin, que é o chefe do bando, é o chefe da polícia”. Mas ele atribuiu boa parte da responsabilidade pela solução do problema ao governo federal. Para Marrom, “fica uma briga de PT e PSBD lá em cima, e os pequenos ralando aqui embaixo”.

“São tudo farinha do mesmo saco, aqueles tucanos podres. Eles têm dinheiro e acham que podem tudo”, diz Suzana. E Dona Aparecida completa com sabedoria: “Eles não gostam de pobre. Pobre, pra eles, é pra ser humilhado, igual eles fizeram com a gente”.