Henfil: escracho contra a repressão

Bode Orelana e Graúna
Reprodução

Nem todos os mais de três mil alunos que votaram na chapa 2 para o DCE UFRJ conhecem o criador da Graúna, símbolo da chapa. Vez por outra, alguém confunde a ave com uma gralha. Pouco importa. Morto há 17 anos, a arte de Henfil está viva nos movimentos sociais de todo o país. Seus desenhos, reunidos em uma exposição que correrá três estados (ver quadro), continuam presentes, sinônimo de protesto e de mudança.

As tiras, o texto e os cartuns de Henfil, nascido Henrique de Souza Filho, significaram, em quase todo o período militar, um sopro de esperança. Seus personagens, publicados inicialmente na revista Alterosa, de Minas Gerais, foram um dos destaques do Pasquim, a partir de 1969, e em diversos jornais e revistas.

“humor que vale é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”
Em 1970, com a ida de grande parte dos militantes para a guerrilha, Henfil criou o Zeferino. Sua intenção era chamar as pessoas a enfrentar a ditadura. “Quem era ele? Um cangaceiro… Você tem de ser o cangaceiro! Tem de se transformar no cangaceiro!”, explicou Henfil em entrevista ao jornalista e amigo Tárik de Souza.

A história se passava no sertão, usando a fome e a seca para se contrapor à propaganda do “milagre econômico” e dialogar com a classe média do “Sul Maravilha”. Zeferino foi criado como personagem principal. Discutia com o bode Francisco Orelana (uma crítica ao intelectual de esquerda, que “comia” livros e pouco agia), e formava um casal com a Graúna. Esta ganhou vida própria (como a maioria de seus personagens) e tornou-se a protagonista.

“É estar dentro do bonde”
Henfil só pôde traduzir os diferentes momentos da época porque os viveu. Ele aproximou-se da militância com o irmão Betinho, militante da Ação Popular. Com o irmão exilado, Henfil visitava presos, participava de reuniões, da reorganização dos sindicatos, das greves, da luta pela Anistia, do surgimento do PT e das Diretas Já. Para ele, “a chave para você fazer humor engajado é estar engajado. Não há chance de você ficar na sua casa vendo os engajamentos lá fora e conseguir fazer algo. Esse talvez seja o humor panfletário. O que você faz de fora”.

Henfil não conseguia fazer um humor panfletário também por causa de sua extrema sensibilidade. Sem “comprar a briga” de uma categoria ou pessoa, ele não se achava em condições de desenhar. Só se vivesse a luta. “Eu ia lá, assistia as reuniões, se eu começasse a me emocionar com a coisa, saía”.

Foi mais ou menos assim que ele criou personagens para os metalúrgicos, como o João Ferrador, no ABC, e o Dito Bronca, hoje símbolo do Sindicato de São José dos Campos. O nascimento do Dito Bronca foi em um ato pela anistia. “Pedimos ao Henfil”, lembra Antonio Donizete, o Toninho. “Ô Henfil, crie algo que represente a indignação dos trabalhadores com os patrões, com as injustiças que os chefes fazem com a gente dentro das fábricas”. Segundo Ernesto Gradella, Henfil criou o Dito Bronca em menos de um minuto: “Ele captou o que nós queríamos”.

“Fiquei sick da vida, meu irmão”
Não foi só a vida política do país que Henfil desenhou. Um de seus personagens mais famosos é o Fradim, um frade cruel e desbocado que infernizava a vida e debochava das culpas de seu parceiro, o Comprido. Henfil criou o personagem para lidar com seus medos e seu moralismo. Virou revista mensal, exorcizando não só os seus, mas o de boa parte da sociedade, reprimida também nos costumes.

Em 1975, Henfil assinou um contrato com a norte-americana UPS. Ficou empolgado para publicar suas tiras pelo mundo e “falar das ‘verdades sociais’ e assim enfrentar a influência de Walt Disney de igual para igual!”. O Fradim, ou melhor, os The Mad Monks, não foram entendidos nos EUA. Lá, diante de tiras inofensivas, o Fradim era sick (algo como doente, desajustado). Da temporada, veio o livro “Diário de um Cucaracha”.

Ânsia de viver
Os traços de Henfil são curtos, rápidos, transmitem força e expressividade. Talvez o maior exemplo de síntese seja mesmo a Graúna, que chegou a ser comparada com um ponto de exclamação. O leve deslocamento de um de seus traços altera seu humor.

Ele dizia não se preocupar com a forma: “Se você me pedir: ‘Desenha um carro?’ Não consigo. Mas se tiver que fazer um carro dentro de uma idéia que eu quero passar e eu estou com ânsia de passar, aí sai o carro. Agora, desde que eu desenhe depressa. Se eu parar para desenhar, não sai”.

Muitos atribuem o traço rápido ao fato dele, assim como seus dois irmãos, serem hemofílicos. Com a saúde frágil e lidando o tempo todo com a morte, Henfil fez uma arte coletiva, intensa e única. “Eu e eu dá esquizofrenia. Então, eu vou junto com os outros. Essa relação me interessa. E essa é gostosa e nessa a hemofilia perde e minha arte cresce”.

A luta contra a ditadura e com os oprimidos foi a fórmula para conseguir lidar com a sua doença, mas ele acabou vítima da fome de lucro dos donos de bancos de sangue. Henfil morreu em 1988, depois de contrair o vírus da AIDS em uma transfusão, doença então pouco conhecida e que depois mataria também seus irmãos.

Exposição traz 500 desenhos e tom governista

Gustavo Speridião, do Rio de Janeiro (RJ)

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, até 26 de junho, e prevista para ser montada em São Paulo e em Brasília, a exposição “Henfil do Brasil“ resgata a trajetória do cartunista, baseada no acervo de seu filho, Ivan Cosenza. A mostra é dividida em seis módulos, com os principais personagens e traz ainda charges, originais, livros e adesivos, como o da chapa ao ANDES-SN.

A exposição é didática, com um panorama geral dos personagens e suas características marcantes. No entanto, patrocinada pelo governo federal, inicia com uma declaração de Lula sobre Henfil. Há uma tentativa de apropriação do governo sobre o artista, que não lutou só contra a ditadura, mas contra a exploração dos trabalhadores. Criador do João Ferrador, um metalúrgico que repetia a frase “Hoje eu não estou bom”, Henfil, se vivo, veria Lula de “bem com o FMI”, retirando direitos.

Muito atual é a charge na qual a graúna diz ver uma esperança. Os três se vêem, concluindo que a esperança somos nós mesmos.

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