Haiti, uma nova fábrica de escravos

1. Menos de R$80![1] No Brasil, há pelo menos 50 milhões de seres humanos que têm menos de R$80 por mês, ou seja, 31% da população. A Fundação Getúlio Vargas continua dizendo que a maioria dos pobres está vivendo no Nordeste. Somando toda a população dessa região, mais de 50% vivem abaixo da linha de pobreza.

2. No Brasil, especialmente no Nordeste, uma espiga de milho na rua custa R$1. Tal como em Porto Príncipe, no Haiti, onde se vende água por uma gourde, também se faz em Recife por um real. O preço médio do transporte metropolitano é de R$1,75. Um aluno do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPE que desejar almoçar no restaurante daquele centro precisa gastar R$19 reais por quilo da comida.

3. Para Sergei Soares, economista e pesquisador do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil é um País desigual desde sua colonização. “Desde que o Brasil é Brasil, ele sempre foi absurdamente desigual. O País era uma fazenda de escravos”, afirmou. Assim sendo, entendemos porque se trata de um país em que os ricos se tornam mais ricos, e os pobres, mais pobres.

4. Cerca de 50 milhões de brasileiros estão passando fome. Porém isso não impede que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha pressa em trazer ao povo haitiano um gigante lodo de ilusões: “Hoje, minha visita é parte de uma etapa nas relações entre os dois países [Brasil e Haiti]. É dentro desse esforço que estamos criando condições para todo haitiano viver na dignidade. Para reduzir a distância entre ricos e pobres, para diminuir a quantidade de pobres”. São essas palavras do presidente do Brasil, no dia 28 de maio de 2008, na sua visita ao Haiti! O Brasil do futebol, para quem torcem os haitianos.

5. Cerca de 50 milhões de brasileiros têm a vida piorando. A maioria dos outros está batendo água para transformá-la em manteiga. Já 1% dos mais ricos (um milhão e 600 mil pessoas) possui 50% a mais do que os pobres. Por enquanto, é para tirar nove milhões de haitianos da pobreza absoluta que Lula viajou durante quase 14 horas de vôo. Caso alguém queira saber por que Lula está iludindo o povo haitiano, não precisará pesquisar muito. Apenas fará o balanço entre a data de 18 de agosto de 2004, – quando a seleção canarinho tocou bola no gramado Silvio Cator –, e 28 de maio de 2008. Assim sendo, o observador entenderá a razão pela qual a visita se realizou quase clandestinamente, o que é contrário à precedente, mas sempre em rota para a América Central.

6. Ao chegarem ao país, os contingentes da Minustah chefiados pelo Brasil distribuem armas e munições sem controle, aumentando, dessa vez, o volume já distribuído por Aristide e demais burgueses, nos bairros populares que uma grupo de instituições internacionais de direitos humanos qualificou de “no man’s land”, apesar de as forças armadas dos Estados Unidos controlarem o mar, as terras e o céu do Haiti. Assim sendo, apenas instalada, a Minustah não fez senão semear a pólvora que fez com que explodisse a bomba. A partir de 2005, a Minustah está produzindo o fenômeno de seqüestrar para subtrair dinheiro a pessoas. É um elemento a ser considerado!

7. Entre 2004 e 2008, os grandes burgueses que destroem a produção nacional comprando apenas para vender, tiveram três anos de isenção de impostos alfandegários. Apesar disso, o preço da cesta básica supera aquele praticado no embargo de 1991-1994. Como qualquer ser vivente em dificuldade, o povo ganhou as ruas no mês de abril, não para dizer abaixo alguém e viva outrem! Mas, sim, para denunciar a situação de fome pela qual está passando, como se fosse tomando cloro líquido. Não dá para subestimar!

8. Em seguida, os responsáveis pela miséria do povo tinham pressa em mobilizar seus meios de comunicação: rádio, TV, jornal, internet etc., para propagandear que um povo em busca de alimentos é um povo violento. Para impedir ir à raiz da fábrica de fome, os capitalistas usaram todos os seus aparelhos. Um dentre estes, o parlamento, demitiu o primeiro ministro e seu governo, uma vez que, há algum tempo, as suas mídias não deixaram de criticar o governo, uma estratégia para o povo não entender a relação quase natural entre os grandons-burgueses [2]e o governo; para o povo não entender o governo enquanto um comitê que administra os negócios privados dos burgueses-grandons.

9. É verdade, um mês antes, o mesmo parlamento renovou a confiança posta no governo por causa da excelente prestação deste. Com a demissão do governo, o povo conseguiu se silenciar. Já passaram dois meses. Infelizmente, o povo está esperando, como se a solução dos seus problemas ficasse nas mãos de burocratas pequeno-burgueses que gerem os interesses dos grandons-burgueses locais e do capitalismo transnacional.

10. Diplomatas desfilaram: todo mundo ficou com medo; pressão em qualquer momento!

11. Já a mobilização popular contou dois meses de controle. Mas, isso não significa que o seu estômago está cheio. Pelo contrário, as classes dominantes se mobilizaram contra a posição do povo e com, a participação das tropas de invasão, seqüestrando indivíduos para subtrair dinheiro às suas famílias. Por vozes dominantes, sabemos que foram seqüestradas 25 pessoas apenas em junho. Entre elas, um estudante de 16 anos assassinado e depositado sobre uma massa de detritos fumantes. O cálculo maquiavélico é que a crueldade conseguirá fazer com que os famintos esqueçam a fome.

12. Os caimãos estão chorando. Cada dia se expressam sobre a situação; escrevem-se artigos de jornal. Mobiliza-se a sociedade civil; todo mundo se unifica: manifestação contra o fenômeno da seqüestrarão, esperando fazer esquecer o problema da fome. Mas, o cloro, assim chamada a fome, está transformando o estômago em úlcera.

13. É dentro desse contexto de medo frente à mobilização popular pela mudança, que Lula tinha pressa em visitar o país que está gerindo por conta de Bush e seus capitalistas. Desta vez, não se fez acompanhar de Ronaldo nem de Ronaldinho. Ele acompanhou uma equipe de empresários, dentre eles, o filho do vice-presidente do Brasil, José Alencar, riquíssimo industrial brasileiro. Alencar é proprietário da maior indústria têxtil no Brasil. Projeta estabelecer uma zona franca no Haiti. Cuidado! É numa terra fértil, de forma que a miséria se amplia e se aprofunda.

14. Em 2004, Fernando Capellan, proprietário do Grupo M pertencente à Codevi (zona franca de Ouanaminthe) mandou militares dominicanos reprimir trabalhadores haitianos que manifestaram em favor de melhores condições de vida e trabalho e contra a vacinação praticada por médicos dominicanos a fim de esterilizarem os homens e mulheres ou abortando estas. No momento em que estamos escrevendo, temos o relatório da União de Médicos Haitianos (UMHA) escrito em julho de 2004. Aí, Marie Claude Bayard, então presidente da Câmara dos negócios comerciais, aproveitou da emissão Metropolis para defender os estratagemas do dominicano Fernando Carpellan.

15. Trata-se de um resumo para gente de memória curta! Alencar acabou de ver com seus próprios olhos o funcionamento do mercado livre no Haiti. No Brasil, apesar da miséria, o salário mínimo é de R$412 (US$249), mesmo que a maioria das mulheres negras ao serviço de donas de casa receba menos do que isso. Assim sendo, Alencar continuará instalando sua maquinaria têxtil no Haiti, como já aconteceu a partir de 2003. Uma vez que considera operários haitianos enquanto cães, podem viver com 70 gourdes. Por outro lado, M. Alencar tem outra vantagem em relação a Capellan: não precisa mandar soldados a mais, uma vez que as tropas brasileiras já ocuparam o país.

16. Então, entendemos a missão humanitária da Minustah. Já se passaram quatro anos. Nem mídias burguesas, nem sociedade civil burguesa, nem governo dependente conseguem demonstrar a guerra que justifique a presença da Minustah no quadro da paz. O sob dependente René Préval se obrigou a dizer ao outro dependente Lula: “Hoje, inexistem grupos armados, só alguns indivíduos armados estão a semear luto (…)”. Assim apresentou a necessidade de retirar algumas tropas e substituí-las por policiais.

17. Dessa forma, limpou-se o terreno para Alencar instalar a sua maquinaria têxtil. Estabelecerá outra fábrica de escravos no Caribe, como disse Sergei Soares. Uma vez que a gente sabe do que está acontecendo no Brasil, não será difícil entender o projeto para o Haiti.

18. Está aqui o projeto de Lula para o Haiti! Fez-se acompanhar pelo filho do vice-presidente para ver com seus olhos, onde instalar o projeto. Mas, tudo isso acontecerá com o consentimento dos grandons-burgueses haitianos. Préval está governando para garantir o bom desenvolvimento desse negócio: “Na primeira vez que cheguei ao Haiti, eu dizia que o Brasil ficasse no Haiti enquanto as autoridades desse país desejassem. Se vocês constatassem a presença dos nossos soldados, é por que o presidente Préval faria a demanda”. Assim respondeu o presidente Lula pressuroso pelos progressistas brasileiros.

19. Para parafrasear Aimé Césaire, diríamos que o povo haitiano tem uma vantagem, tanto em respeito a Lula ou a Préval e seus grandons-burgueses quanto à sociedade civil e mídias burguesas: é que o povo sabe que estão mentindo. A mentira é a arma dos fracos, apesar da sua aparência de força.

20. Lula e seus soldados não chegaram ao Haiti por razão humanitária nem pela paz. Eles ocuparam o país para proteger a propriedade privada gerida pelos grandes burgueses por conta de capitalistas transnacionais, aproveitando-se para identificar recursos para roubar. Eles ocuparam o país para impedir a unificação do povo em prol da resolução dos seus problemas sociais. São os pequenos burgueses haitianos que já esqueceram 1791 e 1803 e que querem fazer com que o povo interiorizasse o esquecimento. Antigos colonizadores e seus descendentes não esqueceram a Revolução Haitiana. Nem a América latina. Não só se incomodam em viver a possibilidade da Revolução em outro tempo, mas sim decidem para descontar os atos da primeira Revolução latino-americana do trabalho do povo. Felizmente, a pequena mobilização da sociedade civil dependente contra a seqüestração, como aconteceu no dia 4 de junho de 2008, e mentiras proferidas na imprensa são incapazes de tirar o sangue de Dessalines e demais ancestrais das veias do povo haitiano.

Recife, 8 de junho de 2008

*Franck Séguy é haitiano, mestrando em Serviço Social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e militante da Asosyasyon Inivèsitè ak Inivèsitèz Desalinyèn (Asid) do Haiti.

NOTAS:
1.
Conforme a taxa de câmbio, no dia 5 de junho de 2008, um dólar estadunidense equivalia a R$ 1,85.
2. Utilizamos esta expressão de nosso companheiro Jn Anil Louis-Juste para qualificar a especificidade capitalista haitiana. No Haiti, é difícil encontrar um burguês que não seja ao mesmo tempo dono de terras (grandon, em crioulo haitiano). Mas essas terras não são inseridas na produção capitalista e sim trabalhadas por alguns camponeses, os quais têm de pagar ao dono com a renda. Assim, esses burgueses donos de terras são na verdade grandons-burgueses ou burgueses-grandons.