Haiti: uma longa história de pilhagem e lutas

O Haiti é conhecido pela pobreza que a exploração imperialista provocou. Muito menos conhecida é, no entanto, a riquíssima história de lutas e revoluções deste país.

Dois terços de sua população vivem na mais absoluta pobreza. Muitas famílias sobrevivem com menos de um dólar por dia e a expectativa de vida média da população chega a apenas 45 anos. Tudo isso é resultado da brutal pilhagem colonial e imperialista que o país sofreu ao longo de sua história.

Primeira revolução
A história do país também é marcada por lutas heróicas. No Haiti ocorreu a primeira revolução negra do mundo e a primeira revolução anticolonial triunfante na América Latina. Os escravos derrotaram a classe dominante branca local, assim como as sucessivas invasões espanhola, inglesa e francesa (esta última contou inclusive com uma expedição enviada por Napoleão Bonaparte). Derrotaram as maiores potências européias em um dos grandes feitos revolucionários da história, estabelecendo pela primeira vez uma república negra. Isso ocorreu paralelamente à Revolução Francesa, em um processo combinado com o enfraquecimento e a crise da monarquia dominante.
O Haiti já foi a mais importante colônia do mundo graças à cana-de-açúcar, cuja importância era similar à do petróleo atualmente. Uma riqueza que se baseava na brutal exploração de mais de 500 mil escravos africanos obrigados a trabalhar em condições desumanas.

No Haiti ocorreu a única revolução vitoriosa de escravos. Mil e oitocentos anos antes, na Roma Antiga, a rebelião dos escravos liderada por Spartacus havia sido derrotada. A revolução negra haitiana teve em sua base escravos concentrados em grandes plantações de cana, que puderam articular sua revolta coletivamente. Cyril Lionel Robert James, o autor de “Os jacobinos negros”, genial livro da história haitiana, mostra como os escravos realizaram o movimento mais próximo do que seria a história do proletariado moderno. Toussaint L’Ouverture, o líder do movimento, escreveu seu nome na história das revoluções. Isso ocorreu 80 anos antes da Comuna de Paris e mais de um século antes da Revolução Russa.

Em 1804 o país conquista sua independência, tornando-se uma referência para os que lutavam pela libertação das colônias latino-americanas. Até mesmo Simon Bolívar, líder da independência da Venezuela, do Equador, da Colômbia e do Peru, encontrou acolhida no país em 1815.

Problemas
Apesar da vitória, a economia haitiana estava em ruínas e ressurgiu a oposição entre a maioria negra e a minoria mestiça. Buscando recuperar sua antiga colônia, Paris reclama em 1814 uma compensação no valor de 150 milhões de francos em ouro para indenizar os colonos. Em 1838 a França reconhece a independência do Haiti, sobre a base da aceitação dessa “dívida”, agora reduzida a 90 milhões de francos. Até 1883, o Haiti pagou em partes o total dessa indenização.

Durante o século 19, o peso da dívida nas finanças do Haiti, a devastação das florestas e o empobrecimento do solo causado pela exploração excessiva afetaram o desenvolvimento da nova república. Os choques internos originaram guerras civis e até a divisão temporária do país. Isso aprofundou a oposição entre as massas de ex-escravos, que sobreviviam nas zonas rurais, e a nova burguesia oligárquica urbana, sobretudo mestiça, que enriqueceu com o comércio de café. Sucederam-se golpes de Estado e motins.

Século 20
No século passado, mudaram os protagonistas, mas não a realidade de pilhagem e miséria. O imperialismo norte-americano surgiu como potência dominante. A partir daí, América Central e Caribe passaram a ser considerados pelos EUA como seu “quintal”.

Iniciou-se então a política do “Big Stick” (grande tacão). O verdadeiro significado dessa política ficou evidente com a frase do presidente Monroe “América para os americanos”. Começou então uma série de invasões a distintos países da região. O Haiti foi ocupado pelos soldados dos EUA em 1915, que lá permaneceram até 1934.

Eles tomaram o controle da aduana e criaram exércitos para defender seus interesses. Depois, em 1957, apóiam a ditadura dos Duvalier, varrida em 1986 por uma rebelião popular. Em seguida, por meio de golpes, o país teve uma sucessão de governos – civis e militares – que tentaram reconstruir o aparato do Estado.
Houve então grandes conturbações políticas. Foram realizadas eleições presidenciais em 1990, vencidas por Jean-Bertrand Aristide. Em setembro de 1991, o presidente foi deposto num golpe liderado pelo general Raul Cedras, e se exilou nos EUA. Três anos depois, uma força militar liderada pelos EUA entrou no Haiti para reempossar Aristide. A ação foi precedida por bloqueios econômicos da ONU.

Os compromissos de Aristide com o FMI e os EUA fizeram com que ele governasse contra aqueles que o haviam seguido. Após três anos sem resolver nenhum problema de fundo, Aristide começou a se utilizar amplamente de forças repressivas para controlar a situação, gerando enormes protestos e alimentando o crescimento de uma oposição burguesa.

Em 2003 a oposição pediu a renúncia de Aristide. No ano seguinte, conflitos armados se espalharam pelo país. À medida que os rebeldes armados iam avançando, os imperialismos norte-americano e francês começaram a defender a saída do presidente. Uma nova invasão imperialista teve início quando soldados norte-americanos seqüestraram Aristide e o levaram para a África do Sul. “Sobrecarregado” no Iraque, Bush passou a tarefa da ocupação colônia para o Brasil que, em 2004, assumiu a liderança da ocupação sob a cobertura da ONU.

O atual governo haitiano, do presidente René Préval, ex-vice de Aristide, é completamente subordinado às ordens do governo Bush e se apóia na atual ocupação militar.

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