Há possibilidade de refundar ou reconstruir o PT?

Plínio de Arruda, Valter Pomar, Berzoini e Raul Pont
Matheus Birkut / Cromafoto

A discussão sobre o PT começa com uma outra pergunta, que se ouve junto aos ativistas em todo o país: o PT acabou? Depois da experiência do governo Lula, ao contrário dos que esperavam um fortalecimento desse partido, o PT vive a maior crise de sua história. E essa primeira pergunta pode ser respondida de distintas maneiras.

Evidentemente o PT vai seguir existindo, como um aparato eleitoral, e todos os que subestimarem esse fato vão acabar se surpreendendo. Trata-se ainda de um partido com peso em um setor importante dos trabalhadores, mais organizado nacionalmente que os grandes partidos burgueses como o PMDB e o PSDB. Mesmo com a crise, segue se apoiando financeiramente nos aparatos de Estado federal, estaduais e municipais. É isso o que motiva a disputa violenta por sua direção que está ocorrendo nas eleições internas.

O PT de antes acabou
Visto de um outro ângulo, porém, o PT acabou. Acabou o partido que, por mais de vinte anos hegemonizou o movimento de massas do país, dirigindo a CUT, e apresentando um projeto eleitoral de mudar o país pelo voto. O “petismo” abarcava a base sindical da CUT, a implantação popular dos setores ligados à Igreja, o peso eleitoral das inúmeras campanhas municipais, estaduais e nacionais, tendo como símbolo a candidatura de Lula à Presidência. Como conseqüência, durante todo um ciclo histórico, os setores mais importantes dos trabalhadores e da juventude brasileira já iniciavam sua vida sindical e política como petistas.

Esse PT acabou, já é parte do passado. Seguirá existindo como aparato eleitoral, ainda apoiado por outros aparatos esvaziados e em crise como a CUT, mas com um conteúdo profundamente distinto. O movimento dos trabalhadores já começa a viver um novo ciclo histórico, pós-PT/CUT, ainda com rumos incertos.

Por que o PT chegou à situação atual
Parte das mudanças que agora se tornam evidentes já vinham de antes. Outras amadureceram com a experiência do governo Lula. Mas são basicamente três as mudanças fundamentais.

A primeira é a mais conhecida: a transformação de um partido operário reformista, nascido nas lutas em um aparato eleitoral. Isso foi um subproduto das vitórias eleitorais desse partido e sua adaptação à democracia burguesa. Os seus dirigentes deixaram de ser os líderes sindicais para serem parlamentares, prefeitos, governadores, ministros e o presidente da República. Hoje o PT tem, além do governo federal e seus milhares de cargos, mais de 400 prefeitos, três governadores de estado, 3.600 vereadores, 90 deputados federais e mais de 150 deputados estaduais. Todos esses postos ainda têm uma legião de assessores e secretários.

Esse aparato eleitoral é dirigido por uma burocracia que tem seus altos salários pagos pelo Estado burguês. Como a existência continua determinando a consciência, todos eles giram ao redor da necessidade de manter seus cargos, ou seja, como ganhar a qualquer custo as eleições. Daí vem as alianças com os partidos da burguesia e a mudança do programa do PT, que deixou o reformismo de antes, para a aplicação dura dos planos neoliberais.

As correntes da esquerda petista que estão disputando a direção nas eleições internas são parte desse mesmo processo vivido pelo Campo Majoritário. Com seus prefeitos, deputados e vereadores também giram ao redor das eleições, e dirigiram prefeituras com os mesmos métodos do Campo Majoritário, como a Articulação de Esquerda em Campinas (SP), a Força Socialista em Belém (PA) e a Democracia Socialista em Porto Alegre (RS).

A adaptação à democracia burguesa trouxe também a utilização dos mesmos métodos de corrupção dos partidos burgueses. O PT aprendeu a usar a corrupção já nas prefeituras, como Santo André (SP) e Ribeirão Preto (SP), como agora se comprova com os escândalos de Palocci, e o assassinato de Celso Daniel.

Na direção de mais um partido burguês
A segunda mudança também começou antes, mas ainda está em curso: a transformação de um partido operário reformista em um partido burguês, ainda com base política nos trabalhadores. Essa mudança vem se dando na direção do PT. Muitos desses burocratas sindicais estão se transformando diretamente em patrões, em burgueses.

Buratti é um exemplo: era um quadro político do PT, entra no secretariado da prefeitura de Ribeirão Preto junto com Palocci, e se transforma em um dos donos de uma empresa (a Leão Leão) que faz contratos do lixo em várias prefeituras petistas. Sérgio “Sombra”, o mandante do assassinato de Celso Daniel, também era um assessor petista, e se tornou dono de várias empresas de ônibus.

O maior de todos é seguramente Luis Gushiken, ex- presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, que é dono da Globalprev, uma empresa de consultoria em Previdência, e dirige de fato os fundos de pensão das estatais, que movem R$ 120 bilhões. Foram esses fundos que aplicaram dinheiro em bancos como o Banco Rural e o BMG de Minas, possibilitando o mensalão. Hoje Gushiken é parte do grande capital financeiro.
Essa transformação que está se dando na direção do PT, de burocratas a grandes burgueses, está também transformando o partido em um partido burguês. Esse processo ainda está em curso, mas aponta para esse resultado.

A ruptura nas bases e o fim do ciclo petista
A terceira transformação é produto da experiência das massas com o governo. Existe uma ruptura ampla, majoritária nas bases dos trabalhadores e da juventude, com Lula e com o PT, que perde a hegemonia que teve durante mais de vinte anos entre esses setores.

Lula aplicou um plano econômico neoliberal, ainda mais duro que FHC. Mesmo beneficiado pelo crescimento cíclico da economia internacional, o plano aplicado no Brasil resultou em uma série muito forte de ataques aos trabalhadores, como a reforma da Previdência e os superávits fiscais ainda maiores que os de FHC. Por isso, o governo enfrentou greves de categorias de peso político como o funcionalismo federal. Assim, já tinha acumulado um desgaste, mas ocorreu um salto qualitativo com as denúncias de corrupção.

A “ética na política” tinha sido o eixo eleitoral rebaixado do PT nos últimos anos, já depois de ter abandonado o perfil de lutas de sua origem. Afinal,“ética na política” e “acabar com a corrupção” é um programa comum a muitos partidos burgueses. No entanto, quando as denúncias arrastaram o PT para a lama, houve uma explosão nas bases petistas.

Uma explosão que, por sua profundidade, até agora não tem os contornos definidos de seus estragos e conseqüências. Mas uma coisa é certa: houve uma ruptura de amplas proporções com o PT entre os trabalhadores e a juventude. Existem desigualdades, o que é natural em um país como o nosso. Em locais de maior tradição petista, como o ABC paulista, ou nas grandes empresas em que os trabalhadores ainda ganham razoavelmente, a ruptura é ainda minoritária. Mas, no geral, é ampla. O ciclo do petismo majoritário está terminado.

Fim da linha para o PT
A eleição do PT não vai modificar o atual quadro. Feita com os mesmos vícios da democracia burguesa (compra de votos e peso de aparato), a eleição foi um escândalo nacional.

A ida para o segundo turno indica o grau de desgaste da direção petista. Mais ainda, caso esteja colocada a possibilidade real de derrota de Berzoini no segundo turno. Seria uma derrota catastrófica para o governo e a direção tradicional do PT.
No entanto, a alternativa da “esquerda” é apenas uma ilusão. A Articulação de Esquerda, provável adversária do Campo Majoritário no segundo turno, não representa nenhuma alternativa estratégica à atual direção.

Uma hipotética “vitória da esquerda” no segundo turno não teria como efeito a esquerdização do PT, ao contrário, seja a direitização dessa esquerda, que faria o mesmo percurso do Campo Majoritário: da crítica ao neoliberalismo à aplicação do mesmo plano econômico, da “ética na política” ao mensalão no cuecão.

Não é por acaso que Ricardo Berzoini, representante do Campo Majoritário, assinou a proposta de “refundação do PT”, o que é bem próximo da “reconstrução do PT”, defendida pela esquerda. Trata-se da repetição da famosa frase do romance de Giuseppe Lampeduza: “É preciso que algo mude para que tudo continue como está”.

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