Greve no Amazonas: Uma rebelião de base da educação

Assembleia geral dos trabalhadores da educação do AM aprovam greve

A greve na educação do Amazonas envolve professores e administrativos da capital e do interior. É um fenômeno pela abrangência e radicalidade. Todos e todas estão com “sangue nos olhos”

Gilberto Vasconcelos e Eudes Lopes, de Manaus

Em 15 de março, cerca de 25 mil, professores, professoras, merendeiras, vigias, administrativos em geral da SEDUC/AM iniciaram uma rebelião pela base contra a retirada do plano de saúde e pela reposição salarial dos últimos 4 anos, que totaliza perdas de 28,05% e por aumento real de 6,95%, totalizando 35% de reivindicação.

Entendendo a greve
Na tarde de 14 de março, o governo anunciou a suspensão do plano de saúde (pois não pagava a empresa contratada há 6 meses) e uma compensação de pouco mais de R$ 100,00 no contracheque. A resposta da categoria foi imediata e avassaladora!

Pela base, sem a presença de qualquer entidade, escola por escola da capital e do interior paralisaram as atividades. Além dos professores (as), os administrativos também paralisaram, haja vista que seus salários e condições de trabalho são ainda piores que os de professores.

A data-base da SEDUC é no mês de março, porém, a direção do SINTEAM (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas), sindicato histórico que vem sendo dirigido por pelegos há quase 20 anos, vinha criando todo tipo de obstáculo às lutas da categoria, e só realizou assembleia para aprovar o início das negociações em 5 de março.

A oposição presente à assembleia propôs uma série de medidas para organizar e democratizar a data-base, como assembleias setoriais abertas para filiados e não filiados e que qualquer acordo só seja assinado depois de aprovado em assembleia geral da categoria, o que foi aprovado por unanimidade. Mas a proposta de 35% não foi aprovada. Venceu a defendida pelo sindicato de 30%.

As assembleias setoriais começaram dia 15, no mesmo dia em que iniciou a rebelião da base. A direção do SINTEAM manteve o calendário das assembleias setoriais até dia 21 e somente em 22 de março fez a assembleia geral de greve. Na ocasião, a proposta de 30% foi alterada para 35%. Naquele momento, quase todo o interior e capital já estavam paralisados por conta própria.

Nesse vácuo, uma associação, que se auto intitula sindicato dos professores e pedagogos de Manaus (ASPROM) e que vem tentando dividir a categoria há anos, tomou a dianteira e passou a dirigir grandes atos e manifestações. Mas, no dia 23, a desembargadora Maria do Perpétuo Socorro Guedes Moura, declarou a greve dessa associação ilegal.

Às 13h do dia 26, iniciou a greve deflagrada oficialmente pelo SINTEAM. Neste mesmo dia a associação decidiu manter a greve, desobedecendo a liminar da desembargadora.

A direção SINTEAM e ASPROM são farinha do mesmo saco
No dia 26 de setembro de 2017 (há 6 meses), quando quase 100% da rede municipal de Manaus, liderada pela oposição, paralisou as atividades reivindicando explicações sobre a aplicação das verbas do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação) e que a secretária da SEMED chamou a categoria de criminosa, tanto SINTEAM quanto ASPROM, correram para os gabinetes da SEMED e do Prefeito do PSBD para fazerem coro com os ataques de Artur Neto, chamando os professores de irresponsáveis e oportunistas.

Agora, nesta greve, onde a necessidade represada de lutar explodiu as barreiras de contenção, tanto a direção do SINTEAM quanto a ASPROM, ao invés de atenderem a voz da base da categoria que exige unidade para enfrentar o governo de Amazonino Mendes do PDT, estão brigando por protagonismo e mais uma vez prestam um desserviço aos trabalhadores e às trabalhadoras em educação.

Greve não é só por salário
Diferente do que a imprensa divulga ou do que possa parecer, a greve não é só por salário.  É uma verdadeira rebelião contra anos e anos de descaso com a educação, é por democracia nas escolas, contra a degradação do nível de vida, contra a violência, contra a corrupção e, principalmente, contra as políticas e leis que só beneficiam os ricos e poderosos. Não é à toa que a principal justificativa do governo para não atender a pauta dos trabalhadores em educação é a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Essa lei permite cortar verbas da saúde, da educação, mas não permite aumento de salários se ultrapassar um tal limite prudencial.

A greve é contra o congelamento de salários, contra a terceirização, contra a burocracia sindical que se apossou do SINTEAM e contra os divisionistas, que fazem de tudo para usurpar a vitalidade dessa luta.

A rebelião não para e, apesar da direção do SINTEAM e da ASPROM, a categoria segue firme na luta com grande possibilidade de arrancar uma grande vitória nos próximos dias. Além dessa batalha, categoria precisa aproveitar o momento para tirar a burocracia da direção do SINTEAM e enterrar definitivamente o projeto divisionista da ASPROM.