Greve dos caminhoneiros: O que faltou para a Greve Geral que unisse todos na luta?

Foto Thiago Gomes/Ag Pará

A greve dos caminhoneiros – que ao que tudo indica caminha para o seu final nestes próximos dias – foi um movimento bastante vitorioso, que paralisou o país, e encostou na parede o governo Temer obrigando-o a atender parte bastante considerável de suas reivindicações. Mas, para além das conquistas que obteve, é vitoriosa também pela referência que deixa, pelo exemplo de luta, para a sociedade e especialmente para a classe trabalhadora.

Esta greve tem muitos significados. É necessária, portanto, uma análise mais cuidadosa desse movimento para podermos sacar daí as conclusões que ajudem a jogar luz sobre seus desdobramentos. Não é o que me proponho a fazer neste artigo. Quero tratar aqui apenas de um aspecto de todo esse processo, do papel que cumpriram as grandes organizações da classe trabalhadora nesse processo, especialmente as principais centrais sindicais do país.

Perdeu-se uma oportunidade de ouro
A greve dos caminhoneiros teve um apoio maciço da ampla maioria da população e de toda a classe trabalhadora. Para além das reivindicações que a motivaram, ela se transformou rapidamente no canal por onde jorrou todo o descontentamento, toda a revolta dos trabalhadores e do povo pobre contra o governo Temer e as mazelas que tem imposto à vida da classe trabalhadora neste momento. Despertou um enorme sentimento de solidariedade que se viu nas inúmeras mobilizações espontâneas de apoio por todo o país.

Dificilmente teremos uma oportunidade melhor do que essa para a realização de uma Greve Geral no país. No entanto, as direções das grandes centrais sindicais que representam a ampla maioria da nossa classe, atuaram em sentido oposto a esse.  A Força Sindical chegou a convocar uma manifestação em apoio à greve dos caminhoneiros, mas depois recolheu-se à mesma posição das demais.

A CUT e a UGT chegaram a rechaçar a possibilidade de uma Greve Geral em declarações de seus dirigentes à imprensa. No auge da mobilização as seis centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, CTB e CSB) chegaram a divulgar uma nota se colocando à disposição para MEDIAR o conflito! Mais uma vez apenas a CSP-Conlutas ficou sozinha defendendo a Greve Geral.

Deram-se todas as condições para que entrasse na luta toda a classe trabalhadora, apoiando as reivindicações dos caminhoneiros, mas levantando também suas próprias reivindicações:  baixar o preço do gás; redução da jornada contra o desemprego; revogação da reforma trabalhista e da lei das terceirizações, etc. E teríamos uma Greve Geral que iria parar o país e colocar em xeque o governo do presidente Temer e toda sua quadrilha.

O que as direções das grandes centrais sindicais fizeram foi um verdadeiro crime contra a classe trabalhadora. Desarmou-a no momento em que ela poderia ter imposto uma derrota ao governo que aí está. A mesma coisa fez o PT e seus satélites atuaram no mesmo sentido. Ao lado de apoiar formalmente desenvolveram uma campanha furiosa contra a mobilização disseminando todo tipo de dúvidas e acusações aos grevistas (“coisa das empresas”, “defendem a volta dos militares”, etc).

Estas organizações gostam muito de falar “Fora Temer”, mas na hora em que se pode efetivamente colocar para fora esse governo amarelaram e passaram rapidamente à defesa das instituições, da “democracia” e do calendário eleitoral, ou seja, do “Fica Temer”!

A versão de que a greve era coisa das grandes empresas (um dos argumentos usados para não somar-se à greve) não para de pé ante os fatos. Se assim fosse, a greve teria acabado depois do primeiro acordo feito por Temer com os grevistas, onde se atendeu todas as reivindicações que favorecem as empresas. No entanto não só a greve permaneceu como se fortaleceu.

Como combater os que defendem a volta dos militares
Outro espantalho levantado para espalhar o medo entre os trabalhadores e justificar a posição adotada pela direção das grandes centrais sindicais e do PT com seus satélites, foi a defesa da volta dos militares sustentada por setores dos caminhoneiros e por organizações que apoiaram a greve.

Estamos diante de uma greve, de uma mobilização nacional cuja grande maioria é de caminhoneiros autônomos. Não são um setor de assalariados e sim de pequenos proprietários, com uma composição muito plebeia, pelo menos a maioria. Na crise econômica e social que vive o país – ainda mais em um país dominado pelo imperialismo como o nosso – também estão sendo esmagados pela grande burguesia e seus governos. É natural nesta situação e nestes segmentos que surja um setor com posições mais à direita que reivindique ou governos militares ou intervenção militar temporária. Isso foi potencializado por setores organizados que interviram na greve.

Não se pode, no entanto, confundir esse fenômeno com a greve em si. A motivação da greve eram as reivindicações de redução do preço do diesel, dos pedágios, ou seja, reivindicações absolutamente justas e progressivas. As posições destes setores de direita e ultradireita não muda esse fato. Da mesma forma que se um setor qualquer entrasse no apoio à greve dizendo que ela era a favor de uma revolução socialista, a motivação da greve seguiria sendo as mesmas: as reivindicações dos caminhoneiros, e não a revolução socialista. Mesmo ao massificar o “Fora Temer”, o móvel da greve e o apoio de 87% da população não era por “intervenção militar”.

Sim, é necessário combater as posições de direita e ultradireita que pediam a volta dos militares ou intervenção militar (aliás, a intervenção militar e repressão contra a greve, levou ao fim das ilusões e a uma experiência rápida de todo um setor). Mas, sem dúvida, a melhor maneira de combater a direita era chamando toda a classe trabalhadora a entrar na luta, numa Greve Geral que parasse o país, apoiando a greve dos caminhoneiros e suas reivindicações por um lado e, por outro, levantando junto com elas reivindicações da classe trabalhadora.

Numa situação como essa, o peso político, econômico e social de uma Greve Geral no país, o peso político da classe trabalhadora em luta e de suas organizações, simplesmente isolaria completamente estes setores mais à direita e constituiriam uma hegemonia política da nossa classe sobre todo o processo, abrindo a possibilidade para uma alternativa política desde baixo, da nossa classe. Essa é a forma mais eficaz para derrotar estes setores de direita. Era isso que as direções das grandes centrais deveriam ter feito.

Negar-se a apoiar a greve, ou a chamar a classe trabalhadora a entrar na luta por causa das posições que estes setores levantaram durante a greve é a melhor forma de ajudá-los. Deixa não só os caminhoneiros à mercê apenas da visão da direita. Deixa também a própria classe trabalhadora exposta à campanha que estes setores fizeram a favor da volta dos militares utilizando-se da repercussão que teve a greve dos caminhoneiros. Também em relação a esta questão, foi um completo desserviço aos trabalhadores o que fizeram as direções das grandes centrais sindicais.

Nossa classe precisa de uma direção disposta à luta para mudar o país
Já vivemos no ano passado esse mesmo problema com as direções destas centrais sindicais. Por um recuo delas, que apostaram numa “negociação” com o governo Temer, acabou-se deixando aberta a possibilidade de aprovação no Congresso Nacional da reforma trabalhista. Também ali não faltou disposição de luta da nossa parte, dos trabalhadores. Faltou determinação da direção das grandes centrais sindicais.

E isso precisa mudar. Precisamos aprender com a experiência e encontrar os caminhos para construirmos uma nova direção para a luta da nossa classe que possa estar à altura das necessidades e desafios que temos pela frente para defender nossos direitos e para mudar esse país. Assim, os trabalhadores que estão e continuarão na luta por todo o país, têm também pela frente o desafio de construir essa nova direção para o nosso movimento.