Greve dos bancários e a unidade entre governo, direções sindicais e capital financeiro

Greve dos bancários é a mais forte em anos

Na noite de 26 de setembro, bancários de todo o país ergueram seus braços em assembléia para deflagrar a greve da categoria por tempo indeterminado. Os trabalhadores rejeitaram a oferta de 8% de aumento (apenas 0,56% acima da inflação) apresentado pela FENABAN (Federação Nacional dos Bancos) e pelo governo Dilma, uma vez que esta proposta está muito aquém das reivindicações da categoria e dos altíssimos índices de lucratividade dos bancos brasileiros.

A greve dos bancários é uma luta duríssima. Trata-se de um embate entre uma parte da classe trabalhadora e o setor patronal mais poderoso do país. Entretanto, os bancários não somente têm enfrentado a truculência dos banqueiros, mas também a intransigência do governo Dilma, que é o patrão dos bancos públicos e, na relação entre os bancos, população e bancários, sempre tem se posicionado contra os interesses dos trabalhadores.

A relação entre os bancos, população e trabalhadores bancários
Antigamente, no início do desenvolvimento da atividade comercial, comerciantes viajavam para outros países para vender suas mercadorias. Eles tinham necessidade de trocar o seu dinheiro por um valor em moeda utilizado naquele território para, assim, conseguir realizar suas transações comerciais. Da mesma forma, precisavam guardar o dinheiro que acumulavam num lugar que fosse mais seguro que suas casas ou estabelecimentos. Foi assim que os bancos surgiram a partir dessas necessidades, com o objetivo de intermediar transações financeiras e proteger as economias das pessoas.

No entanto, essa imagem do banco do passado deixou de existir há muito tempo. Com o passar dos anos, os capitalistas perceberam que podiam ganhar dinheiro não apenas aumentando a produtividade dos seus trabalhadores, mas utilizando o dinheiro depositado nos bancos para realizar mais investimentos de grande proporção, através de empréstimos. Igualmente, os banqueiros perceberam que poderiam não somente realizar suas antigas funções, mas emprestar dinheiro a juros (tanto aos grandes, como aos pequenos proprietários), transformando dinheiro em mais dinheiro. Assim, o capital financeiro foi se aproximando do capital produtivo de modo cada vez mais profundo, até se transformarem em uma só coisa.

É por esse motivo que hoje os patrões sempre recorrem aos bancos para tomar cada vez mais dinheiro e, assim, otimizarem seu processo produtivo. É também por isso que os bancos, como precisam cada vez mais de dinheiro para financiar toda a economia, estão sempre buscando maneiras de, com dinheiro, produzir mais dinheiro através de altas tarifas e cobranças de serviços; além de redução de gastos com salários de funcionários.

Esta é a razão pela qual os bancos sempre são os que se dão bem, na relação com a população e os bancários. Enquanto a população sofre com as pesadas tarifas, com as longas filas e com o péssimo atendimento; os bancários sofrem com os baixos salários, o ritmo de trabalho intenso e uma violenta pressão por metas. Os bancários são obrigados a cobrar tarifas e vender produtos aos clientes (quando estes muitas vezes sequer precisam), para aumentar o lucro do banco. Da mesma forma, o banco investe em automação e intensifica a exploração sobre o bancário para que não seja necessário contratar mais trabalhadores. Como o objetivo é sempre cada vez mais bater metas de vendas e reduzir os gastos em salários, cliente e bancário sofrem mutuamente: faltam trabalhadores para atender com qua lidade e sobram cobranças de serviços e tarifas para os clientes; enquanto que a corrida pelo lucro impõe cada vez mais exploração do bancário no cumprimento dessas metas, ou seja, no trabalho de extorsão e agiotagem da população.

Não há, portanto, nenhum compromisso dos bancos com a população trabalhadora em geral, nem com os bancários em particular. Ambos são, para os banqueiros, meros instrumentos de obtenção de capital. Os interesses desses parasitas estão sempre voltados para a ampliação de sua acumulação financeira, que servirá para financiar toda a economia capitalista e para a alavancagem de seus próprios lucros.

O poder econômico dos bancos e a submissão de Dilma
Com o desenvolvimento do capitalismo, o setor financeiro fundiu-se com o setor produtivo e adquiriu poderes para controlar toda a economia, mas não se limitou a isso. Visando a garantir as condições para seguir com este controle inalterado, os bancos passaram também a influenciar diretamente na política, financiando partidos e candidatos que aspiram chegar ao poder pelas eleições, de modo que estes fiquem comprometidos a implementar políticas que possibilitem a ampliação dos lucros dos banqueiros.

Como é o poder econômico que define o resultado das eleições não é raro que seja o setor financeiro o responsável por determinar as políticas dos governos. Foi assim com FHC e também com Lula. Em 2008, para salvar os banqueiros da crise econômica, Lula decretou um pacote de socorro financeiro aos bancos, expresso principalmente na transferência de recursos e numa lei (Medida Provisória 443) que deu liberdade aos principais bancos estatais (Caixa e Banco do Brasil) para comprar ações podres das instituições financeiras que estavam à beira da bancarrota. Isto foi o que possibilitou a utilização de dinheiro público para salvar o Banco Votorantim e o Panamericano. À época, Lula liberou mais de 160 bilhões ao sistema financeiro, transformando o PROER de FHC (que custou mais de 20 bilhões) numa verdadeira bagatela. Além disso, segundo dados do próprio Banco Central, as 100 maiores instituições financeiras do país acumularam lucros de aproximadamente 128 bilhões entre 2003 a 2009.

Com Dilma, nada se modificou. Durante sua campanha eleitoral, Dilma recebeu aproximadamente 10 milhões de reais (valores declarados) do setor financeiro. Esta parece ser uma cifra gigantesca para nós trabalhadores, mas, na verdade, foi um investimento muito rentável dos banqueiros. Somente no primeiro semestre de 2011, os cinco maiores bancos do país lucraram mais de 21 bilhões de reais. Se esta média de lucratividade se mantiver, ao final do governo Dilma esses bancos lucrarão mais de 170 bilhões, ou seja, 25% a mais do que praticamente todos os bancos do país lucraram durante o governo Lula.

Por que a estatização do sistema financeiro é uma necessidade
Não é somente o lucro dos bancos que aparece como resultado da submissão dos governos à burguesia financeira. A própria natureza do sistema financeiro se mostra na medida do seu caráter privado.

Quando um governo (como o do PT) opta por não se enfrentar com o setor financeiro, mas, ao contrário, busca integrar-se a ele, o que acaba ocorrendo é que os bancos públicos, que poderiam cumprir outro papel na sociedade, mergulham de cabeça na ciranda de exploração dos bancários e extorsão da população.

Como o sistema financeiro privado é um verdadeiro campo de guerra entre capitalistas que buscam ganhar o mercado do concorrente e como os bancos privados têm total liberdade para realizar as ações mais ofensivas, os bancos públicos terminam também se sentindo obrigados a fazer o mesmo, sob pena de “perderem espaço” em razão da feroz concorrência sobre os clientes. Esta é a razão pela qual a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e demais bancos públicos cada vez mais se transformam em bancos de mercado, que reproduzem uma lógica crescente de mais exploração sobre o trabalhador bancário; e mais pilhagem da população através da cobrança de taxas, juros e serviços. Esses bancos públicos, que poderiam estar a serviço de políticas voltadas para a classe trabalhadora e para a maioria da população, simplesmente não podem fazê-lo, pois o ritmo de suas operações e o caráter dos seus negócios é determinado pela concorrência na qual estão inseridos dentro do sistema financeiro.

Por isso que estatizar o sistema financeiro e colocá-lo sob controle social dos trabalhadores não é um delírio, mas uma necessidade urgente. Esta é a mais importante luta no que toca o combate ao alto grau de exploração, ao assédio moral, à pressão por metas e ao adoecimento entre os bancários. É também a única reivindicação séria no que tange a luta contra as taxas, tarifas e juros abusivos.

A estatização do sistema financeiro deveria, portanto, encabeçar a pauta de reivindicação da categoria, tanto pela necessidade dos bancários, quanto pela sua importância no que se refere às demandas e objetivos sociais. Mas, para isso é preciso muita luta para enfrentar os banqueiros e os governos.

O papel de colaboração da CUT no movimento
Além de lutar contra os banqueiros e o governo, os bancários nos últimos anos têm sido obrigados a enfrentar mais inimigo: as direções sindicais governistas, que insistem em não levar adiante a luta pelas reivindicações dos trabalhadores, em nome da defesa de Dilma Roussef.

A CONTRAF/CUT, Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (ligada à Central Única dos Trabalhadores), não só tem total ciência da realidade vivida pelos bancários e pela população, mas elabora estudos que demonstram a dinâmica crescente de lucros dos bancos e da exploração sofrida pela categoria. A CONTRAF/CUT, que dirige mais de 90% dos sindicatos de bancários do país, poderia, sem maiores problemas, organizar a categoria nacionalmente ao redor de reivindicações importantes como a reposição de perdas da categoria, a estatização do sistema financeiro, a estabilidade no emprego, etc., inclusive articulando com outros sindicatos e categorias (empregados dos Correios, petroleiros, trabalhadores dos Institutos Federais, etc.) que agora também agora se colocam em luta contra a polí tica do governo Dilma.

Entretanto, o governismo da CUT os impede de se chocar com Dilma, e, na medida em que a política do governo está em consonância com as aspirações dos banqueiros, as mobilizações da categoria passam a ser mediadas, limitadas pelo interesse da direção em preservar o governo que apóiam politicamente. Isto faz com que, na prática, uma organização de trabalhadores que deveria ser independente sirva de escudo do governo, e, conseqüentemente, dos banqueiros; justamente num momento em que os trabalhadores bancários estão em luta.

Isso tem se expressado, por exemplo, na postura do Sindicato dos Bancários de São Paulo (o maior do país), que é ligado à CUT e sequer chamou assembléia para definir a pauta de reivindicações da categoria. O Sindicato simplesmente determinou que a reivindicação salarial dos trabalhadores consistiria num índice de 12,8% a ser negociado numa Mesa Única da FENABAN, quando as perdas da categoria já somam cerca de 26% no setor privado, 86% no Banco do Brasil, 98% na Caixa e 107% no BNB!

Além disso, o Governo Dilma tem assumido uma postura truculenta com relação aos grevistas. A exemplo do que está ocorrendo em outras greves de categorias nacionais, o governo tenta de todas as formas criminalizar a luta dos trabalhadores, seja utilizando de instrumentos da justiça burguesa (como o interdito proibitório) para desmontar a greve, seja sinalizando que irá impor o desconto dos dias parados, como é o caso do Banco do Brasil. Os sindicatos ligados à CUT, mesmo diante desse fato, têm se negado a denunciar o governo Dilma e há o risco de se reeditar episódios como o recente acordo fechado no TST entre o governo e a federação cutista dos trabalhadores dos Correios (FENTECT/CUT), no qual a representação da categoria aceitou defender em assembléia uma proposta que aceita o desconto do s dias de paralisação.

MNOB/CSP-Conlutas defende a ampliação da greve e unificação das lutas
Desde 2004, a luta nacional dos bancários construiu o MNOB (Movimento Nacional de Oposição Bancária, hoje vinculado à CSP-Conlutas), que surgiu como uma necessidade de organização para fazer frente à política de colaboração com os banqueiros e o governo, por parte da direção majoritária da categoria, a CONTRAF/CUT.

Neste ano, no mês de julho, o MNOB/CSP-Conlutas – juntamente com os sindicatos de Bauru, Maranhão, Rio Grande do Norte e diversas oposições – realizou um Encontro Nacional que construiu uma pauta de reivindicações e definiu uma atuação para a Campanha Salarial, exigindo, entre outras coisas, 26% de reajuste para toda a categoria, negociações específicas com os bancos públicos pela reposição integral das perdas, jornada de 6h para todos sem redução de salário, fim das metas e do assédio moral, democracia nas assembléias, eleição de comando de negociação na base, etc.

Evidente que a luta por essas reivindicações não é fácil, uma vez que esbarra na truculência dos banqueiros e do governo, no governismo da CUT e na necessidade de fortes mobilizações. Entretanto, mesmo com todos os entraves, os bancários estão construindo uma greve com forte nível de paralisação e que já foi capaz de conquistar importantes avanços. A greve obrigou o BANPARÁ a apresentar uma proposta de reajuste de 10%, concessão de cinco dias de licença-prêmio e anistia dos dias parados. O BRB (Banco Regional de Brasília) também avançou para uma proposta de 17,45% sobre o piso salarial e 24,17% de reajuste na função de caixa. Considerando que esses bancos regionais não possuem os mesmos níveis de lucratividade dos gigantes do sistema financeiro, fica muito evidente que é possíve l conquistar todas as reivindicações da categoria.

Por isso que este é o momento de intensificar e ampliar a greve dos bancários, além de unificar as lutas com as demais categorias em greve ou que irão iniciar processos de mobilização. Bancários, trabalhadores dos Institutos Federais, dos Correios, petroleiros, etc., unificados em luta, podem desencadear ações mais incisivas que não apenas possibilitem a conquista das reivindicações imediatas dessas categorias, mas, sobretudo, a tirada de conclusões políticas por parte de um setor importante da classe trabalhadora, em relação à necessidade de enfrentar os patrões, os governos e a dinâmica exploratória da sociedade capitalista.