Governo vive um escândalo por dia, mas não para de atacar

Foto Marcos Correa/PR

Diego Cruz, da redação

Somado à crise sanitária, social e econômica, o governo Bolsonaro vê agora um novo repique da crise política. Após a demissão de um dos pilares do bolsonarismo, Sérgio Moro, foi a vez do recém-empossado ministro da Saúde, Nelson Teich, pedir as contas. Teich, que assumiu o ministério prometendo ser um boneco ventríloquo de Bolsonaro e dos militares, e fez isso muito bem, não quis assumir o risco de obedecer ao presidente e decretar o uso da cloroquina de forma indiscriminada.

Por trás disso, está o desespero de Bolsonaro em fazer voltar a economia à custa de centenas de milhares ou de mais de um milhão de vidas. Como ele próprio confessou durante entrevista ao Datena, “se a economia afundar, acaba o governo”. O governo e seu projeto de poder, eleitoral ou ditatorial.

Governo chafurda

Se a saída de Moro, por si só, já desgastou o governo, seus desdobramentos prometem ter consequências bem piores. Enquanto fechávamos esta edição, o vídeo da reunião ministerial em que Bolsonaro teria dito que interferiria na Polícia Federal do Rio para proteger seus filhos e amigos estava nas mãos do Supremo Tribunal Federal. Mas já está bem evidente que Bolsonaro tentou sim interferir na PF para safar seus filhos, Queiroz e ele próprio.

E se já não fosse crise o suficiente, explode uma nova bomba que pode colocar em xeque inclusive a própria eleição da chapa Bolsonaro-Mourão. O empresário e ex-aliado Paulo Marinho acusa a Polícia Federal de ter vazado ao então deputado Flávio Bolsonaro a operação Furna da Onça, a mesma que identificou a movimentação de R$ 1,2 milhão na conta do Queiroz, seu então assessor. Mais que isso, a polícia teria adiado a operação para depois do segundo turno para não prejudicar a eleição de Bolsonaro.

Um acordo frágil por cima

Ao mesmo tempo em que a crise política se aprofunda, Bolsonaro se isola e parte para a ofensiva como um cão ferido. Instiga os empresários a atacarem os governadores e a quarentena, além de colocá-los contra o STF, e tenta reforçar a base de seu governo com dois movimentos.

Por um lado, reforça ainda mais a ala militar, que de forma vergonhosa se mostra disposta a tudo para se manter no poder. O general Heleno demonstrou isso ao classificar de “impatriótica” a possível divulgação da reunião ministerial. Na verdade, a reunião mostra bem que de patriótico esse governo não tem nada. Tem, sim, muita baixaria, incluindo os militares. Já o vice Mourão culpou os governadores e até a imprensa pela pandemia e pela crise, chegando a fazer uma ameaça velada de golpe.

Por outro lado, Bolsonaro fechou com o centrão comandado por figuras como os ex-presidiários Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto. É por isso que a temperatura deu uma baixada na relação com Rodrigo Maia (DEM). Se antes o bolsonarismo elegia Maia como o inimigo número um, agora os dois conversam enquanto o presidente da Câmara permanece sentado sobre os trinta pedidos de impeachment.

A maior parte da burguesia não quer um impeachment agora. Embora prefira um governo de centro-direita mais adiante, ainda sustenta Bolsonaro com a promessa de reabrir a economia à custa de uma política genocida e de manter Paulo Guedes e seu projeto ultraliberal.

Maia e a oposição liberal tocam o projeto que a burguesia quer e têm contado com a legitimação da oposição parlamentar de conciliação de classes. Esta, embora tenha adotado, pela pressão da base e de forma oficial, o “Fora Bolsonaro”, não o colocou como uma tarefa para valer. A realidade, porém, pode empurrar esse processo.

Estando frágil e com uma base que pode se esfacelar, porém, é ainda um governo perigoso, que ocupa o aparato de Estado com militares que vivem chantageando com ameaças de autogolpe. Tentam também organizar um setor paramilitar, que hoje é bem pequeno, mas que a classe precisa enfrentar.

FORA BOLSONARO E MOURÃO
Desgaste do governo e polarização se aprofundam

Por baixo, o desgaste de Bolsonaro se amplia. Pesquisa CNT divulgada em maio mostrava que 43,4% achavam o governo ruim ou péssimo. Em janeiro, esse índice era de 31%. Mesmo que o apoio ao presidente ainda seja de 32%, há uma radicalização na polarização. Por exemplo, os que consideram Bolsonaro ótimo cresceram 5%, mas os que o consideram péssimo subiram 10%.

O fato é que cada vez mais os trabalhadores e a população vão se colocando contra esse governo genocida de forma mais radicalizada. Contraditoriamente, Bolsonaro se beneficia do fato de não ser possível realizar protestos massivos de rua na pandemia. Mesmo assim, é fundamental uma ampla campanha pelo “Fora Bolsonaro e Mourão”, unindo amplos setores e utilizando todas as formas que for possível na situação de hoje para envolver e mobilizar o amplo setor de massas que se opõe a ele, a fim de botar para fora esse governo. Essa é uma necessidade primeira da classe trabalhadora neste momento.