Gilmar Mauro: ‘O sem-terra de ontem é o sem-teto hoje’

Gilmar Mauro, dirigente nacional do MST
Thiago Mahrenholz

Enquanto o governo Dilma nada faz para resolver o problema da reforma agrária, agrava-se o déficit habitacional nas cidades, em uma espiral de miséria. Ao mesmo tempo, aprofunda-se a violência dos despejos e a Justiça se mantém omissa. Essa é a avaliação Para o MST, qual o significado do que aconteceu aqui em São José dos Campos?
Portal do PSTU – O governo de São Paulo, do PSDB, tem promovido vários massacres. Está aqui ó (aponta para a orelha), o tiro de uma desocupação lá em Limeira (SP). Temos vários despejos violentos, o episódio USP, a limpeza em São Paulo e agora o massacre promovido aqui. Então, este é o momento de nos juntarmos todos, a esquerda, os setores progressistas. Primeiro, em solidariedade às famílias. Segundo, fazer uma denúncia nacional e internacionalmente do massacre. E terceiro, denunciar o poder judiciário, que é literalmente uma merda. Enquanto um juiz ganha 500 paus, nós estamos com várias ações de reforma agrária paradas, porque eles sentaram em cima. Eles são muito rápidos na hora de promover o que promoveram aqui. E quarto, exigir da presidente da República a desapropriação da terra.

Como a luta por reforma agrária se relaciona à mobilização por moradia?
É uma luta de primos. O sem-terra de ontem é o sem-teto hoje. A falta de reforma agrária e a falta de uma política de reforma urbana provocaram um monte de demandas e dificuldades de moradia hoje. Então, é uma luta muito articulada. Se nós não fizermos reforma agrária, a situação urbana vai se agravar. Mas a luta por terra, no campo e na cidade, é uma luta que tende a se juntar cada vez mais porque é parte de um problema comum.

O MST já enfrenta há bastante tempo uma criminalização de sua luta por terra, o mesmo que os sem-teto convivem. Há um acirramento disso nesse período?
Acho que aqui em São Paulo é praxe isso. Faz 16 anos que a gente apanha bastante. Agora, esse episódio do Pinheirinho foi o maior que houve aqui. Por várias razões: pela forma, o processo… Caberia inclusive uma ação para que as famílias permanecessem no local. Enfim, eu acho que há um agravamento nesse sentido, na violência. A criminalização do movimento social é constante no nosso país. Aumento espaços de produção de consensos da mídia burguesa, basta olhar a revista Veja. E aumenta o espaço coercitivo em todo o Brasil. E esse é o episódio direto disso que estamos falando. Mas veja os despejos que estão ocorrendo para as obras do PAC, para as construções dos estádios para a Copa, as Olimpíadas. Basta a nós buscar formas de resistência e ação contra isso.

Qual sua avaliação do governo Federal tanto em relação à reforma agrária quanto às reivindicações dos movimentos populares como um todo?
Fraco. O governo Federal não avançou nada na reforma Agrária. Zero. No último ano, fez 60 desapropriações nos últimos meses. Isso não é reforma agrária. O governo federal tem priorizado a política de exportação de commodities e apoio ao agronegócio. No mundo urbano, também não tem grandes ações sociais sendo empreendidos. Acho que por isso essa pressão aqui precisa ser feita. Até porque teria uma simbologia importante desapropriar essa área do Pinheiriho, por exemplo. Espero que o governo tenha a coragem de fazê-lo.