Funcionário de empresa ligada à prefeitura denuncia o roubo de pertences dos moradores do Pinheirinho

Detalhe de destroço de casa demolida no Pinheirinho
Diego Cruz

Como se não bastassem a humilhação de serem expulsos de suas casas e as verem sendo destruídas, os moradores do Pinheirinho tiveram ainda seus pertences roubados e saqueados por policiais e funcionários da Prefeitura. E tudo sob a supervisão da ‘lei’.

Um funcionário da URBAN (Urbanizadora Municipal SA), empresa municipal que realizou a coleta dos pertences dos moradores após a desapropriação, revelou à reportagem do Portal do PSTU que a retirada dos pertences dos moradores foi realizada sob a supervisão de Oficiais de Justiça.

“Eram coisas simples, mas que eram daquele povo”, lamenta o funcionário C., que prefere não se identificar. “Eles [os Oficiais de Justiça] falavam: ‘isso aqui vai isso aqui não vai’. Mesmo com a etiqueta [ para a identificação dos pertences que seriam carregados por caminhões] eles jogavam as coisas em qualquer lugar lá no chão e a máquina passava por cima”, relata. “Eram colchões, ferramentas, coisas simples, sabe, mas que estavam com etiqueta. Foi um absurdo”, afirma.

A “garimpagem” foi generalizada. “Alguns PMs andavam com volumes debaixo do braço. Não dava pra ver porque eles tinham plástico preto, mas dava pra ver o volume”, afirma o funcionário. “O próprio pessoal doa URBAN, quando via algo de valor, também pegavam. Tô falando isso porque foi um absurdo!”.

C. trabalhou dois dias no Pinheirinho. Disse que a entrada dos moradores era controlada com senhas. “Alguns moradores foram com a gente, mas a maioria não”.

Inconformado, o funcionário desabafa: “As máquinas passaram por cima de geladeiras e até TV, o pessoal não teve chance de tirar” . “Muito mantimento que o povo perdeu, gente! Havia comida pronta na geladeira que estragou, tem roupas de crianças apodrecendo”.

Relações perigosas
Teoricamente, a responsabilidade de fazer o serviço de recolhimento seria da Selecta (empresa falida do magnata Naji Nahas), e não do Poder Público. Perguntado sobre quem designou os funcionários da URBAN para trabalhar no terreno após a desocupação, C. responde: “O Freitas nos mandou pra lá. Não tivemos nem hora de almoço, nem foi contabilizado na empresa. Nos disseremo seguinte: vocês são ASG [Auxiliar de Serviços Gerais], tem que fazer o que a gente pede”.

Alfredo de Freitas Almeida é o atual presidente da URBAN. Também preside a Associação das Empresas Imobiliárias do Vale do Paraíba e Litoral Norte, além de ser dono de uma imobiliária que já alugou imóveis à prefeitura de Eduardo Cury (PSDB).

O contrato entre Freitas e a prefeitura foi feito com dispensa de licitação e consta no Boletim do Município em 1º de outubro de 2010, disponível no Portal da Prefeitura.

“Eu acho isso um absurdo. Tem que ser noticiado na imprensa. E tem que fazer com que o poder público do município arque com as consequências”, indigna-se o funcionário da URBAN.