G-20: Horizontes sombrios

A reunião do G-20, na última semana de junho, foi o retrato inequívoco dos novos dilemas enfrentados pelos governos dos países centrais diante do recrudescimento da crise econômica mundial.

Duas políticas opostas foram colocadas à mesa. De um lado, os EUA defenderam a manutenção dos programas de estímulo econômico; de outro, os países europeus (liderados pela Alemanha), se posicionaram a favor dos severos planos de “corte de gastos”. Em síntese, o resultado da reunião foi um híbrido infeliz: a recomendação das duas políticas, as quais são contraditórias entre si. Na prática, cada país fará o que lhe convir.

Essa importante diferença entre as principais potências imperialistas é a expressão da distinta localização destes países no cenário da economia mundial. Enquanto os EUA, beneficiados por sua posição hegemônica, temem a volta da recessão com o fim dos pacotes estatais; o bloco europeu, fragilizado em relação à economia americana, busca “competitividade” por meio da redução dos “custos” sociais e trabalhistas.

A política americana contrária aos “ajustes fiscais” severos é fruto da defesa dos interesses de sua burguesia no tabuleiro da concorrência inter-imperialista. Os Estados Unidos obtiveram uma recuperação parcial nos dois últimos trimestres apresentando um modesto crescimento (5,6% e 2,7%, respectivamente). Contudo, a base dessa recuperação é frágil, não sendo difícil o desmoronamento. O desemprego segue na casa dos 9%, os efeitos dos estímulos estatais começam a cessar, a taxa de investimento continua baixa, enfim, a situação é delicada.

Com sua posição dominante na economia mundial, tendo o dólar como moeda universal e os principais bancos e empresas, os EUA querem evitar a todo custo o arrefecimento do crescimento atual. Por isso, se colocam em oposição aos “cortes de gastos” europeus, os quais aceleram a possibilidade de nova recessão mundial ao retirar os estímulos estatais.

As potências européias, por sua vez, buscam também salvaguardar seus interesses particulares. Conseqüentemente, almejam através dos “pacotes de ajustes” um duplo objetivo: ao descarregar em milhões de famílias trabalhadoras a conta da crise (com brutais cortes nos gastos sociais, nos salários e aposentadorias) procura ganhar competitividade na corrida imperialista pelo lucro e ao conter o crescimento das dívidas públicas querem sanear as contas nacionais, uma vez que não tem uma moeda como dólar para fazer frente aos déficits fiscais crescentes.

A ameaça do “duplo” mergulho
O impasse entre os países imperialistas é também reflexo da tendência de agravamento da crise econômica mundial. Até bem pouco tempo, o “fim” da crise econômica mundial foi propagandeado efusivamente por governos e economistas em todo mundo. O crescimento “exuberante” de países como China e Brasil, a saída da recessão nos EUA e a relativa normalização nos mercados financeiros, consistiam em provas irrefutáveis do novo momento econômico. As ajudas “bilionárias” aos bancos e os planos de estímulo estatais pareciam fazer frente à maior crise desde 29. Entretanto, os dados da realidade apontam para outra dinâmica.

A possibilidade de um “duplo” mergulho da crise ganha força a cada dia. Vejamos os fatores econômicos fundamentais. O desemprego altíssimo persiste nas principais economias, nos EUA e na União Européia está próximo dos 10%. A baixa perene na taxa de investimento produtivo privado em escala global segue a níveis comparados ao de uma depressão; a superprodução em ramos essenciais da indústria (como no setor automobilístico) não se contém; a tendência à deflação (como observado no Japão e EUA) vai se consolidando; enquanto a formação de novas bolhas especulativas (mercado imobiliário na China, por exemplo) e a instabilidade do mercado financeiro (como se dá agora em torno à crise grega) adquirem força.

Mas se esses elementos não bastam para avaliar a situação, podemos no concentrar no coração da economia capitalista e verificar sua “saúde”. Os níveis de investimento produtivo privado num dado período nos demonstram como anda o “batimento cardíaco”. Em outras palavras, a quantidade de capital que é destinada à indústria (construções de fábricas, compras de novas máquinas, etc.) mede a vitalidade do sistema. Sendo assim, dois componentes básicos motivam o capitalista a investir: uma taxa média de lucros atrativa (o principal elemento) e a existência de uma demanda suficiente. Aí precisamente se localiza o nó principal desta crise.

A taxa média de lucros segue em baixa acentuada (atualmente está em 5%, em 2006 era cerca de 8%); já a demanda por mercadorias está em declínio, os dois maiores mercados consumidores do mundo (EUA e União Européia) encontram-se profundamente deprimidos. O que esse quadro esclarece: o motor da economia – o investimento produtivo – vai de mal à pior, a perspectiva é sombria.

O outro lado da moeda também é elucidativo: o desemprego atinge o maior patamar global desde a Grande Depressão em 29. Somente nos EUA seis milhões de trabalhadores perderam o emprego nos últimos três anos. Na Espanha a taxa de desemprego está na casa dos 20%. Os recentes dados do mercado de trabalho apontam que esses níveis de desemprego assustadores se mantêm, a despeito da recuperação parcial da economia mundial nos últimos meses. Com o desemprego nas alturas, em especial nas principais economias imperialistas, o fator “demanda” seguirá em declínio, o que retrairá ainda mais os investimentos e a capacidade de consumo.

No terreno financeiro o cenário não é distinto. Como o retorno (o lucro) em relação ao capital investido na produção é baixo, os fluxos de capital seguem para a esfera especulativa. Buscando “ganhos” fáceis, os capitalistas alimentam sem cessar as bolhas financeiras. Atualmente, a especulação do mercado com as dívidas da Grécia e da Espanha, a valorização artificial dos preços das commodities e o inflado mercado imobiliário na China, são provas que os “devaneios” do capital fictício persistem com vigor. Novas quebras financeiras estão no horizonte: a crise do mercado especulativo não foi solucionada, apenas adiada.

Todos esses ingredientes conferem a presente situação econômica um diagnóstico claramente negativo. Os governos imperialistas estão cientes das tempestades que estão por vir. O que os desunem é maneira que buscam para sair do furação. Contudo, ao seu próprio modo, ambos os blocos imperialistas dirigem suas armas à classe trabalhadora: seus direitos, empregos e salários são os alvos. Os trabalhadores, por sua vez, reagem: as greves gerais na Grécia, Itália e Espanha apontam para a resistência. A última palavra não foi dada.