Frida: filha da revolução, amante da vida

Em 6 de julho comemora-se o centenário de nascimento da pintora e ativista política mexicana Frida Kahlo. Se dependesse da própria artista, a data só seria comemorada daqui a três anos, pois Frida, desprezando seu registro de nascimento, dizia haver nascido em 1910. Apenas para que coincidisse com o ano da Revolução Mexicana, considerada por ela um marco fundamental de toda a sua vida e obra.

O fato é que Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em 1907, em Coyoacán, onde viveu grande parte de sua vida e compôs sua obra. Vida e obra marcadas por “duplos” – dor e luta; cores e vazio; alegria e morte – que não só nos dizem muito sobre o México de sua época, como também transformaram Frida em um exemplo único na história das artes plásticas na América Latina, e um reflexo impressionante de décadas (entre os anos 20 e 50) em que no subcontinente ecoaram, simultaneamente, os sonhos de liberdade e os trágicos pesadelos que tumultuavam o mundo.

Sonhos e tragédias que encontram nos pincéis, nas cores e na própria vida de Frida Kahlo representações fascinantes, tanto por sua força quanto por sua criatividade.

Quando a dor se transforma em arte
Arte e vida nunca se separaram na trajetória da artista. Filha de uma descendente de astecas e espanhóis e de um fotógrafo alemão de origem judia, Frida sempre viu a si própria como exemplo do desde sempre conflitante “encontro” entre as culturas européias e indígenas.

Uma visão que ela transpôs para a tela em um de seus mais famosos quadros, “As duas Fridas” (1939), em que duas versões dela própria, uma européia e outra asteca, são ligadas por vasos de sangue, que nos remetem tanto à vida quanto à dor brotadas desta união.

Dor, inclusive, é uma palavra chave em sua história. Na infância ela contraiu poliomielite, que a deixou com uma perna deformada. Aos 18 anos sofreu um gravíssimo acidente de bonde, cujas ferragens transpassaram pélvis, coluna e pernas, provocando várias fraturas pelo corpo.

Dentre as conseqüências físicas, ela sofreu vários abortos espontâneos no decorrer da vida. Mas, assim como os mexicanos fazem do “Dia de Finados” o mais festivo e criativo feriado popular, Frida transformou seu sofrimento em fonte de criação.
Durante o período de recuperação Frida descobriu na pintura uma janela não só para o mundo exterior como também para preencher sua própria vida. Impossibilitada de ver qualquer outra coisa além de um espelho à sua frente, a pintora concebeu o primeiro dos seus auto-retratos. Sua imagem surgia cercada de símbolos e referências que expressavam seus sonhos e dores, fantasias e sua visão de mundo.

Paixão além da realidade
Ao se ver livre das ataduras e do gesso, Frida já havia decidido se dedicar à pintura. E não demorou muito para que os principais artistas e críticos da época vissem em seus perturbadores quadros algo único e arrebatador.
Passando por estilos tão distintos como realismo, simbolismo e surrealismo (ao qual é mais identificada), Frida produziu obras nas quais, nas palavras do surrealista André Breton, não falta nunca “uma gota de crueldade e de humor”. Algo que só poderia vir de alguém profundamente ligada à cultura mexicana.

Muitos de seus auto-retratos, por exemplo, são carregados de uma sinceridade aterradora, mostrando seu corpo preso a ferros, dilacerado, ligado a tubos, expelindo fetos ou imerso em sangue. Outros quadros revelam graça e erotismo. Como também não são poucos os que fazem referência às lutas de seu povo e dos trabalhadores mundo afora.

Expressões de uma mulher descrita com adjetivos como “ardente”, “trágica”, “selvagem”, “delirante”, “temperamental”, “vulcânica” e “sensual”, seus quadros são marcas deixadas por uma artista movida por transgressão e paixão.

Como todos os que trilham este caminho, sua vida, trajetória política e mesmo sua produção artística foram marcadas pela irregularidade e a busca incessante de novos rumos. Alguns questionáveis, mas que não podem ser tidos como insinceros ou despropositados.

Amores e amantes
Sua grande paixão foi o muralista Diego Rivera, com quem ela manteve uma tumultuada união. Casou-se em 1929, quando tinha 22 anos (ele 44), divorciou-se em 1939 e voltou a casar em 1940, num relacionamento com profunda cumplicidade pessoal e artística, mas também marcado por relações “extraconjugais” nem sempre bem resolvidas.

Enquanto Diego manteve uma infinidade de outros relacionamentos (inclusive com a irmã da pintora), Frida nunca se esforçou para esconder seus muitos romances com homens e mulheres. O revolucionário Leon Trotsky foi um deles, a quem Frida dedicou em 1937 um belo “Auto-retrato” por seu 58º aniversário.
Exilado e hospedado, juntamente com sua mulher Natália, em Coyacán (onde seria assassinado em 1940), Trotsky viu em Frida, além de uma rara beleza, a vitória da vitalidade contra quaisquer obstáculos.

Paixão correspondida pela artista, que admirava o velho revolucionário por sua trajetória, inteligência, inabalável crença na revolução e, inclusive, por sua concepção libertária da arte. Algo oposto ao asqueroso “realismo socialista” imposto por Stalin, que classificava obras como as de Frida como excrescências da decadência burguesa.

Descaminhos políticos de uma artista revolucionária
Um episódio retrata bem a disposição militante de Frida Kahlo. Em 4 de julho de 1954, apenas 11 dias antes de sua morte, ela acompanhou numa cadeira de rodas um ato contra a queda do presidente guatemalteco Jacobo Arbenz, derrubado com auxílio da CIA.

Antiimperialista e comunista até o último suspiro, Frida foi exemplo da confusão política de sua geração. Pressionados entre o fascismo e os avanços do imperialismo norte-americano, muitos integrantes do movimento comunista internacional pregavam a defesa da União Soviética como um princípio acima de tudo: dos Processos de Moscou à burocratização, da traição de revoluções ao cerceamento cultural.
No México não era diferente. No grupo próximo a Frida e Diego estava o muralista David Siqueiros, que se envolveu diretamente na morte de Trotsky por vê-lo como “ameaça” à revolução.

Mas seria exagero chamar Frida de stalinista ou contra-revolucionária consciente. Até mesmo por uma lição deixada por Trotsky em um texto escrito na casa da pintora, em 1938, ao lado de Breton – o “Manifesto por uma arte revolucionária e independente”.

Como lembra a obra, o que caracteriza o potencial revolucionário de um artista é a “livre escolha” de seus temas, “a não-restrição absoluta no que se refere ao campo de sua exploração” e o desejo resoluto de que “a imaginação escape a qualquer coação, não se deixe sob nenhum pretexto impor qualquer figurino”.

Elementos que nunca faltaram a uma artista que, com suas inquietudes, provocações e transgressões, viveu e retratou um mundo incompatível com as amarras stalinistas e os valores mercadológicos do capitalismo.
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