Fim da linha para Severino Cavalcanti

Severino recebe de Lula a medalha da Ordem do Rio Branco
Agência Brasil / arquivo

Severino Cavalcanti ainda está presidente da Câmara, mas seu destino político foi selado na tarde desta quinta-feira, 8 de setembro. Em entrevista em Brasília, Sebastião Buani voltou atrás e confirmou a denúncia de que teria pago propina a Severino, para que o contrato de seu restaurante Fiorella, no Anexo IV da Câmara, fosse renovado. Em 2002, Severino, então primeiro-secretário da Câmara, teria exigido R$ 60 mil do empresário, com o seguinte argumento: “Você sabe, eu sou um homem que não tenho empresas e, neste ano de eleição a gente precisa de uma ajuda”.

A entrevista, apesar da falta de provas documentais, impressionou pela riqueza de detalhes. Buani afirmou que negociou e pagou R$ 40 mil, para que tivesse seu contrato renovado até 2005, o que não ocorreu. Um dia antes da eleição da nova mesa diretora da Câmara, Severino exigiu nova propina e o contrato foi renovado. Buani afirmou que pagou R$ 10 mil mensais, de fevereiro a novembro de 2003. Segundo o empresário, o pagamento era feito à luz do dia: “O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o dinheiro em mãos, eu e ele”.

A acusações do dono do restaurante ainda envolvem o deputado pernambucano Gonzaga Patriota, que teria intermediado os contatos para o ‘mensalinho´ e recebido R$ 20 mil em 2002. Ele admitiu apenas que orientou o empresário a procurar Severino com um ‘ofício bem documentado´ para conseguir renovar o contrato. Patriota é do PSB, partido que até agora só havia sido alvo de uma acusação – de doações ilegais de campanha, feita por Delúbio Soares e que também envolvia o PCdoB.

Carta fora
Severino, que participa de um encontro na sede da ONU, nos Estados Unidos, conseguiu, depois da entrevista, perder os poucos apoios que lhe restavam. Até mesmo o deputado Ciro Nogueira (PP- PI), que é tratado por Severino como ‘meu filho´, admitiu que o presidente da Câmara está encurralado. “É um depoimento chocante. A mudança deixa o presidente em uma situação constrangedora, difícil”. A lista dos que o abandonaram inclui até mesmo o PT, que tinha conseguido manter Severino como aliado após ceder um ministério ao PP e que chegou a ensaiar uma defesa de Severino após as primeiras acusações, publicadas nas revistas semanais.

A gota d´água para a cassação de Severino está nas mãos do Bradesco. Trata-se de um cheque de Buani, emitido para pagar um dos ‘mensalinhos´ de 2003, cuja cópia já foi solicitada. No entanto, nem mesmo o não aparecimento de provas documentais, como o cheque, pode salvá-lo. Partidos da oposição burguesa, como PSDB, PDT e PFL, já anunciaram que vão entrar com o pedido de cassação na terça-feira, 11, e que vão se retirar do plenário no dia seguinte, caso Severino decida presidir a sessão. Severino teria tentado, em vão, um acordo para uma ‘licença´.

Penetra
Severino é a cara do Congresso Nacional, com suas picaretagens e fisiologismo. Por mais que tentem apresentá-lo como um ser exótico, um corpo estranho que não deveria fazer parte da instituição, ele representa a ampla maioria dos parlamentares. Apesar de tudo, seus hábitos de picareta não são diferentes do mais articulado entre eles, mesmos entre os oriundos dos grandes centros urbanos, educados e articulados. Seu `problema` talvez esteja no fato de que ele tenha sido menos astuto.

Severino é hoje como o ‘Penetra´, personagem de um samba de Zeca Pagodinho. A letra fala de um cara que entrou sem ser convidado em uma festa, comeu demais, bebeu de tudo e encheu o bolso de salgadinho. Lá pelas tantas, roubou o bolo das mãos do aniversariante. “Foi expulso e ralou peito, depois de tanto apanhar”.

Também há uma festa no Congresso, com gente de todos os partidos e bem mais farta. Esta festa tem propinas infinitamente maiores do que a do ‘mensalinho´, acertadas entre deputados ‘republicanos´ não no Fiorella, um restaurante por quilo, mas no salão do Piantella ou até na ante-sala do Palácio do Planalto. Severino convidou-se para a festa por diversas vezes, para aumentar a fatia de seu bolo. Candidatou-se por três vezes, e acabou virando um candidato laranja, caricato, mas garantia sua ‘boquinha´ na Mesa Diretora. Finalmente, surfando na desarticulação do governo e dos votos de PSDB e PFL, acabou eleito presidente da Câmara. Ainda assim, para os líderes dos partidos burgueses, não passava de um ‘penetra´ em um universo de grandes negociatas.

Para a oposição de direita, sua cassação será muito mais útil do que foi sua eleição. E, neste momento, também o será para o governo Lula, apesar de Severino ter passado para o lado governista após a cessão do ministério. A cassação de um picareta tão repudiado quanto Severino, pode ser utilizada para amenizar o efeito da crise política na opinião pública, servindo como um exemplo que houve punições. Esta é a pizza que está sendo preparada, que terá Severino como recheio e alguns poucos parlamentares como enfeite. De fora, ficam todos os demais, como o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), cujos nomes constavam de uma lista que desapareceu.

Severino é sinônimo de corrupção e um ótimo ‘bode expiatório´. Nas últimas semanas, ainda ajudou a preparar o terreno para isso. Depois de permanecer calado por quase toda a crise política, abriu a boca para defender absurdos como a inexistência do mensalão e a não cassação dos deputados envolvidos. Foi a senha. Agora, PT e PSDB buscam um nome ‘de consenso´ para substituí-lo e, com a imprensa, vender a idéia de que a corrupção foi extirpada da Casa. Não será tarefa fácil, já que, segundo pesquisa desta semana, 90% da população não acredita nos políticos.

Fora Todos!
Este sentimento de indignação deve-se traduzir em uma alternativa dos trabalhadores diante da crise. Por isso, o PSTU está construindo a jornada de atos nos estados, convocada pela Conlutas, e defende o Fora Todos! A cassação de Severino é urgente, mas, além de pôr pra fora um penetra, é preciso ir às ruas, impedir o acordão entre PT e PSDB-PFL e acabar com a farra no Congresso e no governo, pondo todos pra fora, inclusive os 300 deputados que o elegeram.