Fim da linha para Palocci

Antonio Palocci
Agência Brasil / arquivo

Guido Mantega é o novo ministro da Fazenda e promete manter política econômicaDurante toda a crise política do ano passado e mesmo diante das denúncias que envolviam seus assessores, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, manteve uma segurança impressionante que acalmou os especuladores de plantão, os governistas e a oposição de direita. Foi assim em seu depoimento à CPI dos Bingos, no dia 26 de janeiro, e em sua entrevista coletiva no dia 21 de agosto de 2005, quando os escândalos do mensalão começaram a respingar em seu paletó.

Toda essa empáfia veio abaixo com as denúncias do caseiro Francenildo Santos Costa, o Nildo. Neste dia 27 de março, Antonio Palocci, homem aparentemente intocável no governo, finalmente caiu. Em seu lugar, assume o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega.

Lula resolveu demitir o ministro ao perceber que o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, não assumiria sozinho a culpa pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, que revelou as ligações de Palocci com a ‘República de Ribeirão Preto´, cujos integrantes são acusados de corrupção.

No dia 27, Mattoso afirmou à Polícia Federal que naquele dia entregou pessoalmente a Palocci, em sua residência oficial, uma cópia do extrato com a movimentação da conta de Francenildo. Mattoso assumiu em depoimento que deu a ordem para a quebra do sigilo bancário do caseiro, mas disse não saber como o documento vazou para a revista Época. Ele também foi exonerado de seu cargo e está sendo indiciado por violação de sigilo funcional e quebra de sigilo bancário.

O então presidente da CEF disse que pediu um extrato da conta do caseiro porque fora informado sobre uma movimentação “atípica” na conta. Ele pediu então para o consultor da presidência da Caixa Ricardo Schumann conseguir o extrato. Schumann determinou que a superintendente de Gestão de Pessoas, Sueli Aparecida Mascarenhas, obtivesse o documento. A retirada do extrato foi feita pelo gerente Jeter Ribeiro de Souza, num computador portátil na sede do banco estatal, utilizando a senha de outro colega. Jeter e Sueli prestaram depoimento no dia 26 e confirmaram que retiraram o extrato bancário atendendo a uma ordem do presidente da Caixa.

Sem imunidade
Na carta de afastamento do cargo, enviada a Lula, Palocci insistiu que não teve nada a ver com a violação da conta e com o vazamento do extrato de Francenildo. “Quero esclarecer, senhor presidente, que não tive nenhuma participação, nem de mando, nem operacional, no que se refere à quebra do sigilo bancário de quem quer que seja”, escreveu.

Com a saída do Ministério, Palocci perdeu a imunidade de ministro e agora responderá na Justiça comum pelas denúncias de corrupção que recaem sobre o período em que foi prefeito de Ribeirão Preto. O delegado Benedito Antonio Valencise afirmou que pretende indiciar o ex-ministro por falsidade ideológica, peculato, corrupção de agentes públicos, formação de bando ou quadrilha e superfaturamento.

Salvando a pele de Lula
O caseiro Nildo não foi a primeira testemunha a afirmar que Palocci esteve na “mansão do lobby”. O motorista Francisco das Chagas Costa já havia apresentado na CPI o mesmo testemunho e o corretor Carlos Magalhães, em depoimento no dia 19 de março, também confirmou a constante presença do ministro na casa.

No entanto, o real motivo da queda de Palocci não foi a investigação indevida da conta do caseiro. Essa foi apenas a gota d´água nas crescentes acusações que estão recaindo sobre o ex-ministro. Sua saída do cargo se deu pela necessidade de manter o nome de Lula afastado dos escândalos em um ano eleitoral. Expressa também uma polarização eleitoral maior entre PT e PSDB-PFL.

Percebendo uma sensível recuperação da imagem do governo Lula, a oposição de direita resolveu reacender a crise e voltar suas baterias contra o Planalto, como forma de capitalizar eleitoralmente seu desgaste. Para isso, teve que pedir a cabeça de Palocci, apesar de o ex-ministro contar com amplo apoio do mercado. Porém, essa manobra da direita não coloca em xeque a política econômica do governo Lula. O substituto de Palocci, Guido Mantega, já reafirmou categoricamente que a política neoliberal do governo permanece intocada. Ou seja, o governo e a economia continuará a serviço dos grandes empresários, dos banqueiros e as verbas para investimentos sociais continuarão indo para manter o superávit primário, como ‘recomenda´ o FMI.