Evo Morales vence eleição na Bolívia

Caso confime pesquisas e alcance a maioria simples dos votos, candidato cocaleiro não terá de passar por votação no CongressoAs primeiras pesquisas de boca-de-urna, sobre cerca de 50% dos locais onde houve votação neste domingo, dia 18, apontam uma vitória do candidato Evo Morales, do Movimento ao Socialismo (MAS), com larga vantagem.

A rede Elige, formada por mais de 100 veículos de rádio, tv e jornais, anunciou nesta segunda-feira que Evo teria recebido 50,9% dos votos, contra 31,9% ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, do recém criado Poder Democrático e Social (Podemos). Uma outra pesquisa, feita pela consultoria independente Apoyo, mostrava 49,8% para Morales contra 32% de Quiroga, na noite da votação.

Tuto é o candidato preferido pelos empresários bolivianos, em especial a poderosa burguesia de Santa Cruz, região que concentra o maior capital do país, as refinarias de petróleo e gás, e as plantações de soja e que aspira sua autonomia, a ser decidida em um referendo em julho.

Mais de 3,6 milhões de eleitores estavam registrados para a eleição, que também escolheu novos senadores e deputados. Pela Constituição boliviana, o candidato a presidente tem de ter maioria absoluta dos votos para poder assumir. Caso Evo não alcance esse índice, uma hipótese cada vez mais remota, segundo a imprensa boliviana e mundial, o novo presidente será escolhido pelo Congresso, até 20 de janeiro, entre os dois mais votados, Evo e Tuto, independente de quem teve maioria de votos entre a população.

Segundo as pesquisas, o MAS também está conquistando a maior bancada no Congresso, o que o aproxima ainda mais da presidência. Até o momento, seu partido elegeu 65 dos 130 deputados e 13 das 27 vagas ao Senado. Estes números, somados à votação expressiva de Morales, dificultam em muito qualquer tentativa por parte do Congresso em levar o segundo colocado ao poder, uma hipótese possível, mas muito improvável diante da crise que a decisão poderia abrir e do temor de que isto reacenda o processo revolucionário no país.

As eleições ocorrem em um momento especial na Bolívia e foram chamadas pela burguesia justamente para tentar canalizar a insatisfação popular via parlamento. O país vive um processo revolucionário que já dura três anos, e derrubou dois presidentes. A revolução cada vez polariza mais a sociedade boliviana: de um lado, os trabalhadores, os camponeses e indígenas, lutando pela nacionalização dos hidrocarbonetos (petróleo e gás); do outro, os empresários e latifundiários, apoiados pelo imperialismo americano e os governos da América Latina, incluindo Lula e Chávez, tentando evitar a nacionalização do petróleo e do gás.

Nessa disputa, a Frente Popular encabeçada por Evo Morales busca aglutinar o sentimento das massas pela nacionalização do gás e pelo fim da miséria e do desemprego que vem assolando a Bolívia com sucessivos governos burgueses pro-imperialistas. Com o prestígio de ter sido líder dos cocaleiros, Evo Morales atrai o apoio sobretudo dos povos indígenas, com promessas vagas, mas já demonstrou que não está disposto a enfrentar a burguesia e as multinacionais petroleiras.

O que se esperar do possível presidente Evo?
Lembrando que a Petrobras é a principal multinacional no controle do petróleo e do gás na Bolívia, durante a campanha eleitoral, Evo chegou a viajar ao Brasil para dizer a Lula – a quem ele chamou repetidas vezes de “irmão mais velho” – que os interesses da Petrobras não serão afetados caso ele vença as eleições. Dessa forma, mandou um recado a todas as multinacionais e, em especial, ao governo norte-americano, como se estivesse dizendo “não se preocupem, não sou um revolucionário, não vou expropriar nada!”.

Segundo a agência Bolpress, na ocasião, Evo Morales declarou à imprensa que não confiscará nem expropiará os bens das indústrias petroleiras caso assuma a presidência. Pelo contrário, como fica evidente nesta declaração: “É preciso revisar os contratos para que eles beneficiem fundamentalmente o Estado, mas também têm que beneficiar as empresa; aqui não estamos falando em nenhuma expropriação, que fique bem claro”.

Foi este o mesmo tom da campanha. Além de insistentes declarações de que o confisco de empresas era uma “mentira vil” de seus opositores, Evo reafirmou constantemente seu respeito à propriedade privada e à “necessidade” de governar de acordo com a legislação (neoliberal, evidentemente) vigente.

Declarações como essa, diante da crescente possibilidade da eleição do candidato do MAS, foram mais do que bem recebidas pelo imperialismo e a burguesia local, que já apontam com a possibilidade de futuras negociações. Rodrigo Rato, diretor do Fundo Monetário Internacional, por exemplo, afirmou que tem certeza de que qualquer que seja o presidente eleito, ele deverá deixar de lado sua “posição política” em nome da necessidade de conseguir financiamento externo: “É um fato que, para mobilizar seus recursos naturais, em particular o gás, as autoridades bolivianas, qualquer que seja sua posição política, necessitam dos recursos financeiros que o país não têm no momento”.

Cenário incerto em mais uma Frente Popular
No entanto, apesar de todo esse esforço de Evo por mostrar-se confiável à burguesia e ao imperialismo, o governo Bush ainda não lhe deu seu apoio de forma a garantir que ele assuma o poder. Mas a desconfiança da burguesia e do imperialismo não é propriamente com Evo, mas sim com o processo revolucionário boliviano, que ameaça sair do controle e colocar em risco os interesses econômicos do imperialismo.

É preciso entender que a Frente Popular encabeçada por Evo não tem o caráter de uma frente popular preventiva, ou seja, para prevenir uma insurreição das massas, como foi a de Lula, no Brasil, e de Tabaré Vasques, no Uruguai. A de Evo é uma frente constituída depois da insurreição e no calor de um processo revolucionário. Por isso, é uma Frente Popular mais frágil, que busca manter-se de pé em meio à turbulência das massas, que pressionam para que assuma um programa de enfrentamento com as multinacionais, que Evo se recusa a fazer por causa de seus compromissos com a burguesia e o imperialismo.

Ainda não está claro o que vai acontecer com a possível vitória de Evo Morales nas eleições. Mas, pela trajetória de Evo até aqui, o mais provável é que ele faça um acordo com a burguesia e o imperialismo para assumir o poder, evitando apelar para as massas. Afinal de contas, elas já deram mostras de que quando saem às ruas, o Palácio Quemado, sede do governo boliviano, treme nas bases.

Em se tratando da Bolívia, do clima de tensão existente e das experiências anteriores, também é importante lembrar que não está totalmente descartada a possibilidade de uma nova insurreição das massas, caso a burguesia e o imperialismo, apoiados no Congresso, proíbam Evo de assumir o poder.

Em qualquer uma das variantes e independentemente das posições políticas de Evo Morales, a posição dos revolucionários na Bolívia tem de ser a de exigir que se respeite o mandato popular, entregando o poder ao candidato eleito pelas massas bolivianas.

Encontro
Na semana anterior às eleições, ocorreu a Primera Cumbre Obrero Popular, na Universidade de El Alto, cidade próxima à La Paz e um dos principais palcos das insurreições dos últimos anos. O encontro reuniu representante de cerca de 100 organizações populares e sindicais e analisou as eleições e a continuidade do processo revolucionário do país. Entre elas estava o Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), partido da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-CI).

Segundo o manifesto aprovado ao término do encontro, assinado por lideranças como Jaime Solares, da Central Obrera Boliviana (COB), “nenhum dos candidatos que optam por controlar o poder pelas eleições se atreverão a recuperar nossos recursos naturais“. Os participantes reafirmaram a luta pela nacionalização dos hidrocarbonetos, como o gás e o petróleo, e convocaram a formação de organismos de poder. Em março de 2006, serão realizadas Assembléias Populares Regionais, em diversas cidades do país, que irão culminar na Assembléia Nacional Popular Originária, em 10 de abril, em El Alto.