EUA: pós-superterça começa a definir os candidatos

As eleições presidenciais dos Estados Unidos começam a ser definidas. Os resultados da “superterça”, quando foram realizadas prévias eleitorais para a escolha dos candidatos dos partidos Democrata e Republicano em 22 estados, não foram suficientes para que algum dos candidatos democratas se afirmasse, mas praticamente definiu o candidato republicano à eleição presidencial em novembro deste ano.

Nos Estados Unidos, os candidatos a presidente são escolhidos em eleições primárias, quando todos os eleitores apresentam-se para votar, ou em convenções partidárias, onde apenas filiados podem escolher os delegados às convenções nacionais de cada partido, que serão realizadas em agosto. A última rodada de prévias foi chamada “superterça” porque foram realizadas primárias ou convenções em 22 estados simultaneamente.

Os regimentos das prévias variam de estado para estado, havendo aqueles nos quais o total dos delegados é definido por maioria simples, isto é, o candidato vencedor leva todos os delegados do estado; por proporcionalidade, onde cada candidato tem direito a um número de delegados proporcionalmente aos votos obtidos; ou ainda por um sistema de voto distrital misto, onde cada candidato consegue todos os delegados das zonas eleitorais onde teve maioria, combinados com uma porcentagem de delegados resultantes da contagem dos votos em todo o estado. Devido a esta contagem complicada dos votos, os números apresentados são parciais e ainda podem sofrer modificações.

Além disso, existe uma porcentagem de delegados que não está comprometida com um candidato, os superdelegados, dirigentes partidários que podem votar em qualquer candidato na convenção nacional. Numa convenção equilibrada, estes delegados podem fazer a diferença na escolha do candidato a presidente.

O Partido Democrata
Ao final da “superterça”, a corrida presidencial pelo Partido Democrata afunilou-se entre Hillary Clinton e Barack Obama. Hillary Clinton, senadora por Nova Iorque e mulher de Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, conseguiu 904 delegados, enquanto Obama, senador por Illinois, obteve 724.

A campanha está praticamente empatada, embora Hillary tenha vencido em quatro dos cinco maiores estados, que dão direito a um número maior de delegados e são politicamente mais importantes, como Califórnia, Nova Iorque, Massachusetts e Nova Jersey, num total de nove estados. Por outro lado, Barack Obama venceu em 13 estados, incluindo Missouri.

Segundo pesquisas de boca de urna, Hillary tem a preferência das mulheres, dos trabalhadores sindicalizados, dos latinos e dos mais velhos, enquanto Obama é quase unânime entre os negros e tem a maioria dos votos entre os jovens, mas tem sido bem votado também entre os homens brancos. Hillary é considerada, entre seus eleitores, “mais preparada para o cargo” e Obama “capaz de mudar o país”.

Apesar dos resultados mostrarem uma disputa acirrada, os dois pré-candidatos saíram cantando vitória, numa atitude típica dos políticos burgueses que tentam confundir a opinião pública com suas declarações. Hillary declarou que “esta noite, em números recordes, vocês votaram não apenas para fazer história, mas para refazer a América”, enquanto Obama disse que “nossa hora soou, nosso movimento é real, e a mudança está chegando à América”, batendo na mesma tecla da mudança, repetida desde o início de sua campanha.

Haverá 4.049 delegados na convenção nacional do Partido Democrata. Desse total, 3.253 são delegados comprometidos com os candidatos, enquanto os demais são superdelegados. Para ganhar a indicação de candidato presidencial do partido, são necessários 2.025 votos. O presidente nacional do partido, Howard Dean, prevendo que não haverá uma definição clara até a convenção nacional, e temendo um racha do partido, onde os superdelegados possam definir o candidato, já declarou que poderá costurar um acordo entre Hillary e Obama para evitar o desgaste eleitoral na reta final.

Nas próximas prévias durante fevereiro, em estados menores, está prevista a vitória de Barack Obama. Por isso Hillary Clinton concentra-se nas primárias do Texas e Ohio, em 4 de março, onde 389 delegados estarão em disputa.

Mais do mesmo
Com esta definição, Obama ataca a proximidade de Hillary com o poder, sua amizade de longa data com o principal candidato republicano, Mccain, por ter votado a favor da invasão do Iraque e pelo fato de ter sido primeira-dama por oito anos durante a presidência de Bill Clinton. Segundo Obama, ele é o único candidato democrata capaz de vencer os republicanos, com uma clara proposta de mudança.

No entanto, Barack Obama também representa mais do mesmo, apenas com “nova roupagem”. Estudou numa das melhores universidades particulares norte-americanas, que custam muito dinheiro, fez sua carreira política por dentro do sistema, tem recebido doações de vários banqueiros, defende a saída do Iraque, mas a manutenção das tropas no Afeganistão e a invasão do Paquistão, e, para alavancar a economia que entra em recessão, as mesmas receitas de Ronald Reagan, o presidente norte-americano que marcou época como o introdutor – ao lado de Margareth Tatcher – das políticas neoliberais.

O Partido Republicano
Do lado do Partido Republicano, a “superterça” foi muito mais favorável a apenas um dos candidatos, o senador pelo estado do Arizona, John McCain, que obteve o apoio de 689 delegados, enquanto seus principais oponentes, Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, e Mike Huckabee, ex-governador de Arkansas, conseguiram 133 e 156 delegados, respectivamente. Esta grande diferença não reflete, no entanto, a diferença em votos que cada pré-candidato recebeu, mas sim o regimento eleitoral em grandes estados, onde o candidato majoritário obteve a totalidade dos delegados. Em Nova Iorque, McCain ficou com todos os 101 delegados e na Califórnia com 146, num total de 149, embora tenha tido apenas 51% e 41% dos votos naqueles estados.

No entanto, apesar dessa grande diferença, McCain perdeu em estados importantes considerados baluartes dos republicanos, no sul e no oeste, mantendo as chances dos outros candidatos. McCain venceu em 11 estados, entre os quais Nova Iorque, Califórnia, Nova Jersey e Connecticut e afirmou, após os primeiros resultados, que “a partir dessa noite, nós precisamos nos acostumar com a idéia de sermos os líderes do Partido Republicano para a indicação de candidato a presidente dos Estados Unidos”.

Huckabee venceu em Arkansas, Alabama, Tennessee, West Virginia e Georgia, enquanto Romney ganhou em seis estados, como Massachusetss e Utah. Porém Mitt Romney anunciou sua saída da campanha, deixando a caminho aberto para a vitória de McCain.

A grande contradição dos republicanos é que McCain é considerado muito liberal em relação aos ideais conservadores do partido, com sua tentativa de flexibilizar as leis de imigração e seus votos contra os cortes de impostos do presidente George Bush. No entanto, declarou que permanecerá um século no Iraque, se isto for necessário para ganhar a guerra, e que garantirá a segurança das fronteiras norte-americanas contra a entrada de imigrantes.

O final da era Bush, com o fracasso na guerra do Iraque e uma recessão batendo às portas dos Estados Unidos, unido à perda da maioria do Congresso pelos republicanos, são claras demonstrações da crise que se abateu sobre o Partido Republicano, a ponto de seu principal representante ser considerado desleal por seu próprio partido. Muito mais difícil do que atingir os 1.191 delegados necessários para conseguir a indicação, será convencer a população norte-americana de que a receita republicana para sair da crise econômica e da guerra do Iraque com vitória é a melhor.

Trocar seis por meia-dúzia
Porém a receita democrata pode dar certo? Se fizermos uma comparação entre as políticas econômicas dos dois partidos para combater a recessão, ora em discussão no congresso norte-americano, podemos verificar que não há nenhuma diferença entre elas.

O presidente Bush apresentou um pacote econômico para estímulo do consumo da população de US$ 146 bilhões, enquanto o Partido Democrata contra-atacou com outro pacote de US$ 158 bilhões, perdendo por um voto. Demonstrando que sua proposta não passava de demagogia eleitoral, o líder democrata declarou que “mais de 40 republicanos hoje disseram não à ajuda a 20 milhões de aposentados e não a 250 mil veteranos de guerra. Eles disseram não àqueles que perderam seus empregos e não aos pequenos comerciantes”.

Esta semelhança de propostas estende-se aos principais temas que afetam a população, como a invasão do Iraque, a “guerra ao terror” e a questão dos imigrantes. As diferenças são apenas cosméticas, de números, mas nunca atacam as causas dos problemas, pois isso significaria atacar as bases da exploração capitalista.

Para a classe operária norte-americana não há mudanças à vista, apenas a mesma política da burguesia imperialista dos Estados Unidos, onde os presidentes não são mais do que executivos dos grandes grupos econômicos com assento na Casa Branca. Enquanto forem reféns das disputas entre dois partidos imperialistas em seu próprio país, os trabalhadores só podem esperar mais e mais ataques a seus empregos e nível de vida. Em 1938, quando se esboçava a construção de uma ação política por parte dos sindicatos ligados à CIO, Trotsky afirmou que “somos a favor de um partido independente, das massas trabalhadoras, que assumirá o poder do Estado”. Esta tarefa, 70 anos depois, ainda está por se concretizar.