Quando o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), anunciou que o número de óbitos provocado pela Covid-19 havia chegado a 100 pessoas, eu parei, fiz as contas e percebi que conhecia aproximadamente 10 dessas pessoas, ou seja, 1 conhecido para cada 10 falecidos, isso fora os nomes que eu não tive acesso.

Por essa média eu deveria conhecer pelo menos 700 mil pessoas entre os quase 7 milhões de habitantes do estado do Maranhão. Eu não conheço, e tenho a certeza de que ninguém conhece tanta gente assim.

Então, pensei, tem algo muito errado nisso.

Esses números oficiais são apenas a ponta do iceberg da quantidade de gente infectada ou que está morrendo por esses vírus. Uma subnotificação que esconde uma catástrofe que se agiganta pelas periferias de todo o país.

Nessas comunidades, os indivíduos assintomáticos, ou com sintomas leves, seguem, involuntariamente, contaminando outras pessoas, já que a orientação dos governos é para que só procurem os hospitais públicos quando estiverem com sintomas respiratórios agudos. Assim, o vírus se prolifera entre seus moradores levando o já sobrecarregado sistema público de saúde ao colapso.

Veja que, enquanto os hospitais que atendem os mais ricos, como o Sírio Libanês na capital de São Paulo, veem cair o número de UTIs ocupadas por pacientes com Covid-19, na periferia de Manaus a situação é dramática.

Nessa cidade os mortos estão sendo sepultados às centenas por dia no cemitério Nossa Senhora Aparecida. Esse cemitério, considerado como “cemitério dos pobres”, foi separado por uma cerca de concreto do cemitério Parque de Manaus, considerado o “cemitério dos nobres”, ainda em 2018.  Mas, é no “cemitério dos pobres” que os mortos pela Covid-19 estão sendo enterrados em covas coletivas abertas com a ajuda de retroescavadeiras.

Antes de fecharmos esta matéria tivemos a informação de que uma família teve que abrir uma cova com as próprias mãos para enterrar um idoso de 82 anos, já que não havia coveiro disponível no cemitério Nossa Senhora Aparecida. Tudo isso depois de três dias à procura do corpo.

É importante lembrar que enquanto a Covid-19 estava restrita aos bairros nobres, os pacientes recebiam tratamento humano, e quando faleciam era dentro dos leitos dos hospitais. Porém, desde que a Covid-19 chegou nas periferias, essa situação mudou completamente. Muitas pessoas estão morrendo dentro das próprias casas ou sendo enterradas como indigentes.

Sabedor dessa tragédia anunciada, Bolsonaro editou, ainda no dia 31 de março, uma Portaria Conjunta com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que permite sepultamentos e cremação de mortos por Covid-19 sem certidão de óbito. Fizeram isso sob alegação de que estávamos diante de uma “tragédia nacional”, quando o próprio Bolsonaro chamava a Covid-19 de “gripezinha”.

Essa portaria, que teve pouca repercussão na imprensa, está mostrando seu conteúdo sinistro com a realização dos enterros coletivos de indivíduos que não tiveram suas “causa mortis” identificadas.

O iceberg de mortos para além de sua ponta oficial

Dois grupos de pesquisadores brasileiros sobre a Covid-19, a Covid-19 Brasil e o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), chegaram a conclusões parecidas sobre a quantidade de infectados e de mortos no Brasil. Segundo estimam, os números reais devem ser em torno de 10 ou 12 vezes maiores que os dados oficiais.

O Jornal O Estado de S. Paulo publicou no dia 24 de março uma análise sobre as estimativas que um grupo de pesquisadores do Reino Unido fez sobre a subnotificação em vários países, incluindo o Brasil, e os resultados também se aproximaram bastantes dos apresentados pelos pesquisadores brasileiros: o de que existem cerca de 10 casos reais para cada caso divulgado oficialmente.

Façamos, então, as contas. Se quando escrevíamos esta matéria (27/04) os dados oficiais apontavam 61.888 casos e 4.205 mortos no Brasil, pelas estimativas acima descritas teríamos, na verdade, cerca de 600 mil infectados e 40 mil mortos em nosso país. Um número muito superior ao da Itália com seus 25 mil mortos.

Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, declarou ao jornal Folha de S. Paulo: É de assustar. O que os dados mostram hoje aconteceu, na verdade, de duas a três semanas atrás. Não estamos vendo a epidemia que está acontecendo agora, mas a epidemia do passado”.

E é com base nesses dados defasados e deturpados que essas autoridades fazem seus planos e editam seus decretos.

Um iceberg mergulhado em profundas desigualdades de classe e de raça

Ninguém precisa ser especialista da área de saúde para identificar que estamos diante de uma catástrofe. As desigualdades sociais e raciais existentes no Brasil seria por si só o indicador mais confiável de que chegaríamos a essa situação.

Nosso país é o 7º mais desigual do planeta, apesar de ser a 9ª economia do mundo. Aqui 11 milhões de pessoas vivem em favelas e destas 80% são negras, o mesmo percentual em termos de raciais daqueles que utilizam o Sistema Único de Saúde (SUS), que, diga-se de passagem, já estava com 70% da sua capacidade ocupada antes da pandemia chegar no Brasil.

Não negamos a importância das orientações que são dadas para a população sobre higienização individual. Porém, essas orientações não têm condições de remover as profundas desigualdades existentes em nosso país. Assim como não podem garantir emprego e renda fixa para quase 80 milhões de pessoas que estão fora do mercado formal de trabalho (dados do ILAESE, 2020). Isso também não ajuda a saciar a fome de 5,2 milhões de brasileiros, assim como não garante água encanada e saneamento básico para tantos outros milhões.

E é para essas desigualdades que Bolsonaro e todos os governadores fecharam os olhos. Menosprezaram, propositalmente, que a velocidade da contaminação do novo coronavírus se mede, antes de tudo, pelo grau de vulnerabilidade de cada grupo social. Ao invés de olhar o problema por esse viés,  aproveitaram a pandemia para atacar os direitos e os salários dos trabalhadores com uma série de medidas provisórias que, inclusive, incentiva as demissões em massa.

De uma só tacada destinaram mais de R$ 1 trilhão para os banqueiros, enquanto para a periferia foram os minguados R$ 600 que, além de não dar para quase nada, não chegará para todos os necessitados, sem contar a humilhação que milhares estão enfrentando para receber essa ajuda.

As mortes que crescem nas periferias se explicam por essas opções e não pela letalidade pura e simples do novo coronavírus.

 A guerra dos números expressa uma guerra entre as classes

Convenhamos que alguns meses de quarentena plena não colocaria o capitalismo brasileiro em xeque e ainda salvaria dezenas de milhares de vidas. Porém, os governos e parte dessa burguesia está disposta a levar esse genocídio até o limite como forma de preservar todos os seus privilégios. O país ainda nem atingiu o pico da pandemia e a maioria dos governadores já fala em afrouxar o precário isolamento social.  O presidente Bolsonaro é expressão mais escancarada dessa política genocida do “liberar geral”.

É notório que não existe planejamento sério para conter essa pandemia no Brasil porque essa gente raciocina com olhos esbugalhados para a lógica do mercado capitalista. Esse, sim, é o único coração que para eles não pode parar de bater de jeito nenhum.

Mas, de tudo isso, nós devemos tirar as nossas conclusões. A mais importante delas é que a defesa das nossas vidas depende exclusivamente da nossa organização enquanto classe social.

Derrotar Bolsonaro, Mourão e toda a sua tropa é uma tarefa democrática das mais importantes para o momento e para isso nós podemos fazer unidade até com os setores da burguesia que desejam também se livrar desse governo. Porém, para resolver todos os nossos problemas só com total independência de classe.

Se lambuzar com grupos burgueses como fez o PT durante os 13 em que esteve no poder, não pode fazer parte do nosso projeto. O PT governou para os ricos, portanto, ultrapassou a linha de classe e de sangue que nos separa da burguesia brasileira. A direção do PSOL também segue por esse mesmo caminho de conciliação de classes. Chegou a ranger os dentes para não defender o Fora Bolsonaro. Quem assim age, à nossa causa não serve.

Nós do PSTU não temos dúvidas de que a única saída estratégica para nossa classe é a revolução socialista, uma revolução em que os operários e o povo pobre tomem o poder em suas mãos e a partir daí organizem o seu próprio governo, um governo fortemente enraizado nos conselhos populares para estabelecer as condições para que as formidáveis riquezas que a nossa classe produz sejam socializadas e que vida das pessoas sejam valorizadas em sua plenitude.

Já é hora de dizer em alto e bom tom: adeus maldito capitalismo!