Entrevista: Didier Dominique fala sobre importância da visita da Conlutas ao Haiti

Didier Dominique, professor e sindicalista haitiano
Agência Cromafoto

O Opinião entrevistou Didier Dominique, professor e sindicalista haitiano do movimento Batalha Operária (Batay Ouvrye), organização sindical e popular do país caribenho. Ele nos conta o que se passa hoje no Haiti e fala sobre a importância da visita da CoOpinião Socialista – Qual é a situação do país depois da ocupação?
Didier Dominique
– Três anos depois desta terceira ocupação do Haití, a situação de desolação do país é ainda mais profunda. É certo, as penetrações nos bairros populares – Cité Soleil, Solino, Pelé – das forças armadas da Minustah, onde, de uma maneira brutal estão provocando mortes, principalmente dentro da população civil, chegando a matar velhos e crianças, conseguiram baixar o nível de insegurança: o terror que propiciavam os bandos armados não está tão avassalador. Contudo, isso foi, precisamente, levando a estes bairros populares o mesmo terror.

O mais importante é que, na realidade, tudo isso serve para implementar o projeto de dominação e controle imperialista para a exploração da mão-de-obra haitiana, a mais barata do continente e uma das mais baratas do mundo. Este projeto visa transformar o país numa plataforma para a confecção e exportação de bens de consumo, principalmente têxtil, usando esta mão-de-obra barata, em benefício das multinacionais. Em torno disso, se monta todo um sistema financeiro e de política neoliberal, onde a dívida externa e o famoso “ajuste estrutural” são chaves para a dominação imperialista.

Nas fábricas, os direitos dos trabalhadores estão pisoteados. Nos bairros populares, o terror resultante, seja por bandos armados, seja pelas tropas da Minustah, deixa, de fato, uma “paz”, mas é a “paz dos cemitérios”, onde é muito difícil para os trabalhadores se organizarem.

O governo Préval aplica a fundo esta política de mistificação, quando sugere que as inversões estrangeiras vão “salvar o país”, trazendo empregos. Sabemos muito bem – a indústria têxtil para a exportação existe já há mais de três décadas – que estes “empregos” são, na verdade, exploração máxima dos operários e não trazem mais que miséria para eles e para o povo em geral.

Esta exploração brutal conserva, no entanto, uma situação de conflitos e um antagonismo social permanentes. Daí a necessidade da mistificação do governo, por isso a ocupação militar.

Qual é o interesse do imperialismo em manter a ocupação?
Dominique
– Isto é exatamente o interesse dos governos imperialistas. Respondendo eles também às suas classes dirigentes, as burguesias multinacionais nestes casos, se empenham em implementar este plano de uso da mão-de-obra mais barata, já colocada desde os anos 1980, com o “Caribbean Basin Initiative” (CBI, em inglês) de Reagan. Este “golpe comparativo”, no mercado de produção capitalista mundial, exige que esteja controlada a situação política e social. A debilidade crônica das classes dominantes haitianas e, conseqüentemente, de seus distintos governos reacionários, somados ao explosivo da situação, obriga, então, o imperialismo à ocupação. O chamado aberto que fez o governo de Aristide no final de 1994 para a entrada de uns vinte mil soldados americanos, supostamente para “restabelecer a democracia”, abriu o fluxo recente para tal situação.

Além disso, o controle geopolítico da região do Caribe deixa o Haiti num ponto estratégico, onde este pequeno país se encontra, justamente abaixo de Cuba e acima da… Venezuela!

O que você pode nos dizer sobre as mobilizações populares contra a ocupação?
Dominique
– A ocupação de 1994, que trouxe de volta um presidente massivamente eleito, trouxe uma grande confusão a esse respeito. E ainda que esta última tenha sido para, ao contrário, derrotá-lo, o fato de que “países amigos” possam agora intervir na vida interna de qualquer país, é um fato contra o qual nós lutaremos seriamente. Além disso, com sua política globalmente neoliberal e seu desejo mais explícito de assegurar a reprodução de uma burguesia burocrática, então debilitada pela queda de Duvalier, Aristide perdeu a aura realmente popular que tinha no início. Hoje, a gente se pergunta se seus últimos seguidores, que reclamam seu retorno, buscam satisfazer alguma reivindicação popular ou simplesmente querem garantir um cargo na máquina estatal.

Tudo isso deixa, todavia, confusa a situação. Frente a isso, nós da Batalha Operária acreditamos, com certeza, que a linha a seguir é, como sempre, aquela estritamente baseada nos interesses das classes trabalhadoras e do povo em geral, sob a direção da classe operária, a que se encontra realmente e diretamente em afronta ao capital, ou seja, que enfrentando-se com o projeto dominante, o qual mais e mais evidencia sua cara burguesa e imperialista em benefício das multinacionais e de seus lacaios locais. Com este eixo principal, construir, então, o campo do povo que reunirá, devidamente estruturadas, todas as classes dominadas num só movimento de luta popular democrática.

Hoje em dia, a atitude criminosa dos soldados da Minustah já permitiu vários atos legítimos de resistência popular e estes “capacetes azuis” são vistos com um ódio interno silencioso, mas não menos profundo. A dificuldade extrema de vida que causou a política burguesa neoliberal de Préval também levantou sinais de grande desacordo por parte da população: uma recente greve de dois dias dos motoristas de ônibus, seguida por quase todo o povo, demonstrou sinais de descontentamento real. A luta entre a confusão restante e a clareza da situação de dominação atual e de exploração máxima projetada está, pouco a pouco, aumentando.

Neste sentido, a mobilização efetiva do povo haitiano contra as forças da ONU ou de qualquer que surja, está por construir-se. Estas forças armadas da ONU mostraram já o pouco respeito que têm pela vida humana quando se trata da gente do povo. Pouco a pouco, se posicionam e seguirão se posicionando frente às mobilizações dos trabalhadores – operários, camponeses, pequenos comerciantes – e da pequena burguesia desfavorecida, ela também deixada de lado nesta projeção burguesa de simples exploração. Então, haverá de existir as estruturas capazes de lhes enfrentar.

O presidente Lula disse que deseja implantar uma usina de etanol no Haiti. Qual é a sua opinião a respeito?
Dominique
– O projeto do etanol, com disfarce ecologista, vai beneficiar os países imperialistas, pois o objetivo é reduzir sua dependência petroleira dos países do golfo e, ao mesmo tempo, reintroduzir sua utilização nos países dependentes com o único objetivo de resolver suas próprias necessidades. Assim, os trabalhadores do nosso país voltariam ao sistema de plantação semi-escravagista para produzir essa mercadoria.

Isso carrega consigo vários problemas, dentro dos quais o fato de transformar comida em energia, mas também virão os despejos que conhecemos, a desolação humana conseqüente e os conflitos explosivos… tudo isso em benefício dos grandes latifundiários que se verão ainda mais fortes, do capital financeiro e, sobretudo, das multinacionais imperialistas.

Estender esta orientação também ao Haiti se insere dentro do plano global de uso da mão-de-obra mais barata. Não é uma casualidade que o filho do vice-presidente brasileiro, dono das mais importantes fábricas têxteis deste país, viajou, recentemente, ao Haiti para explorar as possibilidades de também instalar aqui uma fábrica têxtil.

Sem dúvida, o projeto do etanol pode ser bem acolhido não só pelos grandes latifundiários daqui, mas também pelos médios e, em certa medida, até pelos pequenos produtores, por trazer, num primeiro momento, um dinamismo na agricultura muito decadente nos últimos anos. Mas esse dinamismo não será mais do que momentâneo, parcial e orientado para o beneficio exclusivo das classes dominantes. Para entender, basta recordar as plantações de sisal que as multinacionais norte-americanas implantaram durante a primeira ocupação, em 1915. Não só destruíram as terras, como trouxeram enormes ondas de migração às principais cidades, que não tiveram tempo nem capacidade para absorver o fenômeno. Finalmente, deixou uma desolação completa e foi o início da desagregação social que assistimos agora.

Falamos, pois, da mesma lógica global de exploração e dominação que estará acompanhada da redução drástica dos direitos dos trabalhadores de todo tipo, na mesma proporção que a diminuição de oportunidades para a pequena burguesia, nas universidades notavelmente. Medidas contra as quais lutam vocês também, agora mesmo, no Brasil, e que terá de estender-se para todo o continente se quisermos salvaguardar os poucos benefícios que as classes trabalhadoras conquistaram com valiosas lutas durante as décadas passadas. E conseguir mais.

Qual é, para você, a importância da visita da Conlutas?
Dominique
– A visita da Conlutas é para a gente, da Batalha Operária – e, neste sentido, estamos seguros que também para o conjunto do povo haitiano – de suma importância. Primeiro, pelo fato de representantes de várias organizações, lutando no campo democrático no Brasil, onde as classes dominantes estão mandando um exército a ocupar outro país, venham democraticamente trazer ao Haiti sua oposição à ocupação. Esta posição é muito valente, já que enfrenta o governo brasileiro, que implementa a ocupação em apoio ao projeto imperialista e burguês de exploração e dominação sobre os trabalhadores. Significa uma solidariedade internacionalista concreta.

Mas, além disso, é um sinal claro de que estamos, os trabalhadores do mundo inteiro e os da América Latina em particular, travando uma luta comum contra a mesma exploração das multinacionais e a dominação de seus governos imperialistas que, para isso, contam de uma maneira quase incondicional com o apoio e a relevância dos governos subordinados dos mesmos países dominados. Neste sentido, é um passo importante na construção internacionalista da organização dos trabalhadores.

Tradução: Luciana Candido
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