A triste diferença entre sem-teto e Naji Nahas, o milionário dono do Pinheirinho

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Marisa Carvalho

A casa que o aposentado João Batista, 65, se esforça em construir para a filha solteira não chega a 40 metros quadrados. O derrame recente se somou à falta de dinheiro para dificultar a vida deste morador da ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo. Os R$ 2 mil que ele pretende gastar na construção, próxima ao seu barraco no acampamento de sem-teto, provavelmente deve ter sido o preço de um dos vários seguranças do casamento da filha mais nova de Naji Nahas. O megaespeculador libanês é o dono do terreno de 1,3 milhão de metros quadrados onde cerca de 1.200 famílias estão acampadas há três anos. Entre elas, a do aposentado João Batista.

Morador do Pinheirinho há três anos, Batista vive sozinho num barraco de 12 metros quadrados. O vigilante aposentado espanta-se ao saber que o casamento de Patrícia Nahas, realizado em setembro de 2004, teve tantos convidados internacionais que Naji Nahas fretou nove aeronaves: dois Boeing, cinco Falcon e dois Gulfstream. Quando a filha mais velha de Batista se casou, ele conta que não pôde fazer mais que levar um “presentinho” e assinar o documento. “Me sinto indignado em ver um homem com tanto dinheiro querendo tirar o nosso. Se ele se preocupa tanto com seus filhos, deveria pensar nos nossos”, afirma o aposentado.

O aposentado João Batista / Foto de Marisa Carvalho

Nas festas de arromba que realizava no Copacabana Palace, Nahas trouxe artistas internacionais de peso como Alain Delon, Gina Lolobrigida e Omar Shariff. Apenas a lancha de Sueli, sua esposa, custou quase meio milhão de dólares. Os detalhes sobre a vida luxuosa de Nahas foram publicados pelo jornalista Renato Fernandes na revista Joyce Pascowitch de março.

A dona-de-casa Fátima Caetano, 36, também ficou escandalizada com os imensos gastos do proprietário do terreno onde ela vive há três anos. “Ele só pensa em si. Como já nasceu rico, quer sempre mais e por isso não vai abrir mão daqui”, afirma. Mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela foi uma das lideranças da ocupação. Apesar de não ter dúvidas quanto à ganância de Nahas, ela diz ter esperanças. “Ele pode até tirar a gente, mas vai ser difícil. Se a gente lutar, não tem dinheiro que baste”.

O terreno do Pinheirinho, localizado na zona sul de São José, pertence à massa falida da Selecta, a primeira empresa de Naji Nahas. A ocupação do Pinheirinho ocorreu no dia 27 de fevereiro de 2004, após a expulsão violenta dos sem-teto que ocuparam um terreno no bairro Campo dos Alemães.

Fátima, moradora do Pinheirinho / Foto de Marisa Carvalho

Por meio de mandados de reintegração de posse, a prefeitura e a Polícia Militar já ameaçaram desocupar o local várias vezes. Em resposta, os sem-teto realizaram marchas com milhares de pessoas pelas ruas de São José. Em vez de desapropriar o terreno, o prefeito Eduardo Cury (PSDB) insiste em entrar com ações na Justiça para expulsar os moradores, apesar de o governo federal ter acenado com a possibilidade de construir as moradias. São José tem um déficit habitacional de mais de 20 mil casas.

O tucano chegou a dizer que a ocupação era o “problema mais grave” da cidade. O local estava abandonado há décadas e cheio de dívidas em impostos – mais de R$ 6 milhões. Somente depois da ocupação o playboy que passa as férias de julho na Europa, em um apartamento de luxo em Paris, resolveu reivindicar o terreno.

Nascido em berço de ouro
Naji Nahas chegou ao Brasil em 1969 com US$ 50 milhões para investir, fugindo da situação de conflito no Líbano, onde morava. Antes, já havia fugido do Egito (onde fora criado numa mansão em um terreno de 10 mil metros quadrados) porque o presidente Nasser expropriou e nacionalizou todos os bens de sua rica família.

Em terras brasileiras, começou com uma granja de coelhos. Nos fim dos anos 70, sua fortuna era de mais de US$ 1 bilhão. Os negócios evoluíram na década de 80 para um conglomerado de 27 empresas, 11 delas pertencentes à Selecta Indústria e Comércio. Controlou a principal seguradora do país e comprou participações na Petrobras.

Nahas realizava polêmicas operações financeiras nos anos 80 e ganhou muito com a compra a venda de ações. Quando explodiu a maior crise das bolsas do país, em 1989, o libanês perdeu o glamour e foi preso em outubro – ele chegou a ser condenado a 24 anos de prisão. Obrigado abrir mão de sua carteira de US$ 490 milhões na bolsa, Nahas apenas mudou sua forma de agir com o escândalo. Mais discreto, ele continuou suas negociatas. Aproximou-se do banqueiro Daniel Dantas, da família real da Arábia Saudita e de outros figurões internacionais. Há quatro anos, começou um projeto de uma refinaria de petróleo no Ceará.

Nahas com Omar Shariff, no luxuoso Copacabana Palace / Reprodução

Como ocorre com os ricos no Brasil, em 2004 Nahas foi absolvido pela Justiça das acusações de crime ao sistema financeiro. Mas ele ainda não está satisfeito, se diz “injustiçado” e quer indenização, pois hoje poderia ser o homem mais rico da América Latina se não tivesse perdido suas ações. Certamente a sua fortuna é pouco para ele, por isso ele insiste tanto em tomar o terreno do Pinheirinho.